Sábado, 31 de Julho de 2010







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Rio 2016
Por Alberto Luiz Schneider
A escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos foi uma conquista do Brasil, não obstante encerre riscos e perigos. Escolhas de eventos dessa natureza são sempre políticas; - embora necessitem de amparo técnico - sinalizam tendências internacionais. Não é à toa que os últimos Jogos foram em Pequim, o que ocorreu justamente no período mais próspero da história moderna da China. A escolha do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016 demonstrou que o país subiu alguns degraus na escala de prestígio. Não se trata de um fato isolado. A decisão do Comitê Olímpico Internacional é a cereja do bolo.

Nos últimos anos, o Brasil se tornou um jogador de primeiro nível nos fóruns de política internacional, como atesta o prestígio do país na Rodada Doha, no G-20 e na ONU. As agências internacionais de risco concederam ao Brasil o título de “Investment Grade”, o que sinaliza a confiança na economia brasileira concedida por instituições que evocam os princípios e os interesses do mercado internacional. Trata-se de gente que não rasga dinheiro. No plano interno, a economia cresce como há muito não se via, com um diferencial dos mais relevantes: cresce distribuindo renda. Razão pela qual uma legião de brasileiros tem ingressado na baixa classe média, experimentando o gosto da cidadania e do consumo, ainda que limitadamente.

Empresas brasileiras fazem grandes aquisições internacionais, como a Vale (a maior produtora de ferro do mundo e segunda maior mineradora do planeta) ou a Friboi (a maior processadora de carne bovina do mundo). O Pré-sal - que poderá transformar o país um grande exportador de petróleo - e as potencialidades da agricultura - que já tornaram o país um dos celeiros do mundo - sinalizam para uma era de prosperidade, que pode se concretizar ou não, mas as condições estão dadas. Ainda no plano interno, há uma democracia com razoável grau de sofisticação institucional. (No Brasil, Lula mantém a Constituição, recusando a tentação continuista, enquanto na Venezuela e na Colômbia vemos Chavez, à esquerda, e Uribe, à direita, buscarem terceiros mandatos, o que remonta ao velho caudilhismo latino-americano).

Portanto, a escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 (como havia sido o caso da escolha de Pequim 2008) sinaliza um processo muito mais amplo, do qual muitos brasileiros não se deram conta, por má informação, preconceito ou o velho complexo de vira-lata, que muitos insistem em não abandonar (e às vezes consubstancia-se no seu oposto, um ufanismo tolo).

Oportunidades e desafios
O Rio de Janeiro venceu uma batalha das mais relevantes. O impacto na cidade, talvez, só possa ser comparado à vinda de D. João VI, que transformou a provinciana cidadezinha colonial na capital de um Império transcontinental. Mas resta outra: organizar os Jogos e, sobretudo, reorganizar a vida urbana, transformando os investimentos olímpicos em benefício à cidade, de modo a adensar a vida econômica e reduzir a pobreza e a violência.

É preciso reconhecer que o Rio foi escolhido apesar da violência, da infraestrutura precária, da rede hoteleira insuficiente, da poluição, do trânsito caótico, das favelas. Eis uma excelente oportunidade para o Brasil experimentar coletivamente novos conceitos, valores melhores e uma nova mentalidade, mais ambiciosa, de enfrentamento das nossas mazelas históricas, da cultura da corrupção ao ciclo vicioso da desigualdade e da pobreza.

Os possíveis ganhos nos níveis do emprego, na cultura, na segurança, na educação, em infraestrutura urbana são potencialmente enormes, como a experiência de Barcelona (Olimpíadas 1992) ensina. Mas também são conhecidos os riscos. Por isso, se os bilhões a serem investidos forem capazes de gerar desenvolvimento, principalmente para os segmentos mais necessitados de políticas públicas de inclusão social, os Jogos terão cumprido seu papel e nós, os brasileiros, teremos consolidado uma nova era em nossa existência histórica.

Se, no entanto, criarmos elefantes brancos, a custos altíssimos, com poucos benefícios públicos, construídos antes para satisfazer os interesses das construtoras e a rede de corrupção pública e privada envolvidos, os Jogos nada mais serão do que a atualização do passado vicioso. Mas se recusássemos a oportunidade, em nome desse passado, estaríamos atualizando a pequenez e a covardia desse mesmo passado, de um país que se fez pequeno. É hora de pensar grande. Outro país precisa de outro Rio de Janeiro. Mais largo, mais generoso, mais igualitário e mais próspero... e tão brasileiro quanto!

Alberto Luiz Schneider é Doutor em História pela Unicamp. Foi Pesquisador Associado do Departamento de Português e Estudos Brasileiros do King’s College London. É Professor de História do Brasil da Unicastelo (São Paulo)
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