
O mundo político brasileiro foi
sacudido por uma notícia:
Marina Silva, senadora pelo
pequeno e distante estado
do Acre, de biografia considerada
inatacável, deixa o PT, depois
de 30 anos de militância política,
para entrar no Partido Verde, onde
deve se candidatar à presidência
da República. A ex-ministra do
Meio Ambiente, que por quase
seis anos serviu na Explanada dos
Ministérios, havia deixado o governo
Lula em função de desavenças
internas, especialmente com a
Casa Civil, comandada pela poderosa
Dilma Roussef, mas também
por divergências com o Ministério
da Agricultura, alinhado com os
interesses do agro-negócios.
Marina da Silva sai do PT, sem,
no entanto, desqualificar o partido,
nem negar os avanços sociais
do governo Lula: “É uma decisão
que exigiu de mim coragem para
sair daquela que foi até agora a
minha casa política e pela qual
tenho tanto respeito, mas estou
certa de que o faço numa inflexão
necessária à coerência com
o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de
conquistas para os brasileiros e
para a humanidade.”
A crítica da ex-ministra se
concentra no modelo de desenvolvimento,considerado atrasado,
socialmente perverso e ecologicamente
insustentável: “Tenho a
firme convicção de que essa decisão
vai ao encontro do pensamento
de milhares de pessoas no
Brasil e no mundo, que há muitas
décadas apontam objetivamente
os equívocos da concepção do
desenvolvimento centrada no
crescimento material a qualquer
custo, com ganhos exacerbados
para poucos e resultados perversos
para a maioria, ao custo,
principalmente para os mais
pobres, da destruição de recursos
naturais e da qualidade de vida.”
A rigor, é uma crítica ao modelo
de desenvolvimento em vigor, do
qual o governo federal partilharia,
do mesmo modo que seria
partilhado pelos governos estaduais
de partidos de oposição.
Diferentemente dos setores mais
tradicionais da política brasileira, a
ex-ministra defende vigorosamente
o legado social do governo Lula.
O professor de economia da
USP, Eli da Veiga - Doutor em Desenvolvimento
Econômico e Social
pela Sorbonne, com pós-doutorado
em Cambridge - afirma que
tanto Serra quanto Dilma seriam
“crescentistas” – presos a crenças
do século passado e estranhos à
economia de baixo carbono que,
acredita, vai marcar o desenvolvimento
no século XXI. Marina, no
entanto, afirma que, se candidata,
não faria uma campanha contra
o governo Fernando Henrique
Cardoso ou contra o governo Lula.
O que sugere uma candidatura
pós-Lula, diferente da expectativa
de determinados setores da
sociedade brasileira, de sensibilidade
conservadora, forte na classe
média tradicional, que esperam
uma candidatura anti-Lula.
“Ecodesenvolvimento”
Um dos possíveis efeitos políticos
da candidatura de Marina
Silva está em agregar à agenda
pública brasileira uma perspectiva
fundamentada no “ecodesenvolvimento”,
com tintura social, preocupação distributivista e geradora
de renda, (o que não exclui os
empresários, antes o contrário).
Constituindo-se, portanto, em
uma alternativa ao “ambientalismo”,
expressão que sugere uma
dimensão restrita à paisagem, em
que a visada econômica, social e
cultural da vida aparece esmaecida
num escapismo frequentemente
bucólico ecologista, cuja agenda
política não oferece resposta à
base da pirâmide social.
Outro possível efeito político é
a construção de uma candidatura
reputada como “ética”, mas destituída
do vezo lacerdista, moralista
e elitista, tal como empunhado
pelos segmentos mais retrógrados
da mídia, em linha com as sensibilidades
demófobas de setores
médios que, no Brasil, tendem ao
“Partido da Ordem”.
Nem tudo são flores no novo
jardim de Marina. O Partido
Verde - adverte o mesmo Eli da
Veiga - abriu-se para toda sorte
de oportunistas. Lembremos que
Zequinha Sarney (PV-MA), filho
do velho e contestado presidente
do Senado, José Sarney, é um
dos entusiastas de sua candidatura.
O PV, no Rio de Janeiro,
participou de todas as gestões de
César Maio, do DEM (ex-PFL).
Em São Paulo, o PV faz parte do
gooverno de Serra e Kassab, cuja
base social, fortemente assentadas
nas classes mais altas, tem
pouquíssima e nenhuma identidade
com a história e as convicções
de Marina Silva.
Restam, portanto, perguntas.
Afinal, com quem Marina Silva
governaria? Como seriam suas
relações com o agro-negócio,
cuja força econômica é inegável?
Como a candidata evangélica
lidaria com a pluralidade comportamental
da sociedade brasileira?
Quais são suas osições, especificamente,
sobre a luta pelos
direitos civis dos homossexuais,
as questões relativas à descriminalização
do aborto, as pesquisas
com célula-tronco? Qual será seu
comportamento político quando
os meios de comunicação perceberem
que a candidatura de
outro Silva não servirá de satélite
às aspirações conservadoras?
(Mas se servirem, Marina não será Marina, mas uma fraude política a
desmentir sua própria história).
Nem Fernando Henrique, nem
Lula, puderam governar prescindindo
de forças atrasadas e
fisiológicas. Marina Silva, na hoje
improvável hipótese de ser eleita,
conseguiria reunir em torno de si
uma federação de interesses modernos
e progressistas, capaz de
impulsionar novos ganhos sociais,
expansão econômica e avanço
institucional, matizados por um
paradigma (eco) desenvolvimentista,
de inspiração social?
As respostas não virão da
candidata, já conhecida e reconhecida,
mas da candidatura, ainda
uma incógnita. Os signos políticos
que determinarão sua campanha
à presidência ainda estão muito
verdes, mas já agrega pimenta ao
molho sucessório.