Apesar de ser fim de semana, as ruas no centro histórico de Riga estavam quase vazias. A atmosfera de abandono, tranquilidade e beleza que pairava sobre velhos prédios e ruas estreitas fez com que eu gostasse da cidade imediatamente. A melhor maneira de explorar o centro histórico de Riga é sem mapa, simplesmente perdendo-se no emaranhado de ruelas antigas. No entanto, para quem gosta da ordem dos roteiros, aconselha-se começar pela enorme catedral de tijolos vermelhos e interior austero, tipicamente luterano.
Prosseguindo em direção ao sul da cidade, chega-se à praça da prefeitura, que teve seus prédios góticos reconstruídos alguns anos atrás, depois de terem sido arruinados na Segunda Guerra Mundial. A Igreja de São Pedro fica a poucos minutos, e do alto da torre de 123 metros a vista da cidade é fantástica. Nas redondezas, inúmeras tendas vendem bijuterias e outros artefatos feitos de âmbar (resina fóssil amarelada), muito abundante na região.
O passado de dominação soviética fica mais evidente quando se chega ao Monumento aos Atiradores Letões, próximo do rio Daugava. É um dos últimos exemplares de escultura ideológica que restaram em Riga. O antigo ponto de encontro comunista, que reuniu inúmeras pessoas contra a independência do país, em 1991, hoje é apenas um ponto deônibus. No entanto, o prédio imponente da Academia de Ciências, também conhecido como “Bolo de Aniversário de Stalin”, chama muito mais a atenção dos visitantes para o passado comunista da Letônia. Construído depois da Segunda
Guerra Mundial como um marco do império Stalinista, ainda tem a decoração original: quem olhar de perto vai perceber, entre motivos do folclore letão, muitas foices e martelos.
A Letônia foi parte da União Soviética de 1940 a 1991 e 50% da população atual de Riga é russa. A maioria dos letões de origem não-russa que vive na capital também fala e entende russo - especialmente os mais velhos, que frequentaram a escola na época do comunismo. As duas comunidades étnicas convivem pacificamente, mas têm celebrações e até jornais diferentes, e demonstram uma estarrecedora falta de interesse uma pela outra.
Riqueza arquitetônica
As ruas Alberta e Elizabetes têm a maior concentração de arquitetura ‘Art Noveau’ de Riga, onde se pode admirar o estilo único de Mikhail Eisenstein. Infelizmente, enquanto a maioria dos prédios é bem conservada e foi tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade, muitos outros estão caindo aos pedaços (a Letônia ingressou na Comunidade Europeia em 2004, mas não acredito que tenha recebido ajuda financeira para manter seus tesouros arquitetônicos de pé).
Arabescos em gesso, gárgulas e duas enormes cabeças fazem parte de uma das criações mais famosas de Eisenstein, na Rua Elizabetes, número 10. A riqueza de detalhes está em todos os lugares, mas quem não quiser perder nenhum pormenor, tem que andar olhando para cima. No entanto, cabe alertar: o número de rostos, ninfas e outras criaturas mitológicas que já estarão lançando olhares para baixo causa uma sensação estranha.
Depois, a caminhada pode seguir em direção sudoeste, onde há uma sequência maravilhosa de parques e um longo canal, que separa as partes modernista e medieval de Riga. As áreas verdes, onde moradores e turistas andam lado a lado ou observam o tempo passar, são muito bem cuidadas. Durante o outono, a paisagem se transforma em pintura viva e parece haver crianças e velhas senhoras por todos os lados, à procura de folhas coloridas para suas coleções. No rigoroso inverno, a temperatura pode chegar a mais de 20 graus negativos.
Num desses parques há a Ponte dos Cadeados, que faz parte de uma tradição um
tanto curiosa. Todos os anos, recém-casados visitam o lugar e declaram seu amor e união colocando um cadeado na pequena ponte, para logo depois jogarem as chaves no rio.
É possível perceber as duas faces contrastantes da capital da Letônia até mesmo em uma visita curta de final de semana. A Riga contemporânea é uma cidade que cresce com olhos voltados para o Oeste; no entanto, seu passado de dominação soviética ainda está presente, e muito além de prédios e monumentos. Longe do centro histórico e das áreas turísticas, fica mais fácil ter uma ideia de como a maioria das pessoas vive. A economia local luta para sobreviver, mas o patrimônio cultural e natural de Riga põe a cidade entre as mais ricas da Europa.