
Se você nunca ouviu falar de Cymru, esse é o
outro nome de Wales, ou País de Gales, em
português. Na verdade, Gales nem mesmo é
um país. Não passa de um principado do Reino
Unido, o que certamente não o diminui como nação,
restrições de poder político sejam postas à parte. Um
plebiscito deve acontecer dentro de dois anos e poderá
dar maior autonomia ao parlamento do País de
Gales, criado há apenas uma década. Mas ainda que
o “sim” ganhe, grande parte das decisões políticas
continuará vindo de Londres.
Apesar de ser menor que o estado do Sergipe, o
País de Gales tem três parques nacionais que cobrem
a quinta parte do território e uma das maiores colônias
de pássaros marinhos do hemisfério norte. Todas
as placas de trânsito, avisos em banheiros, estacionamentos
e outros lugares públicos são bilíngues. E não
é só na capital Caerdydd, ou Cardiff.
O galês (Welsh) pode ser considerada a mais falada
das línguas celtas que incluem o gaélico escocês e o
irlandês. Segundo o último censo, 22% da população
do País de Gales é bilíngue, número que tem crescido
depois de 1993, quando o galês foi promovido à língua
oficial, lado a lado com o inglês. Os resultados do
censo também revelam que nas regiões norte e oeste,
até 60% da população é fluente em galês. Quem decidir fazer a carteira de motorista não só
no País de Gales, mas em qualquer outro canto da
Grã-Bretanha, terá essas duas opções de idioma. O
mesmo ocorre em muitos outros serviços prestados
por órgãos públicos, o que mostra respeito pelas
diferenças, mas também uma certa ânsia tipicamente
britânica em se mostrar politicamente correto.

Para os visitantes, ler placas de “proibido fumar”
com a inscrição ‘dim ysmygu’ ou ver o símbolo de uma
lombada e a palavra ‘twmpathau’ pode parecer divertido e até exótico, mas achar a direção certa por placas
de trânsito bilíngues, onde só não há mais palavras por
falta de espaço, é mais complicado do que parece.
Principalmente se for no centro de Cardiff, com sua
organização caótica e obras que nunca terminam, o
que ficou ainda pior depois da construção do gigantesco
Millennium Stadium, lotado a cada partida de rúgbi.
Aconselha-se ir de ônibus ou trem, o que é mais fácil e
barato, principalmente pra quem mora em Londres.
O melhor da capital é o complexo na baia onde
deságuam os rios Taff e Ely, com muitos restaurantes,
bares e a arquitetura inovadora do Millenium Center
(criado à mesma época do estádio, como se adivinha
pelo nome), que abriga a Opera Nacional, várias salas
de teatro e exposições. Antes de seguir viagem, vale a
pena visitar o Castelo de Cardiff, sua torre de estátuas coloridas e salas temáticas, onde cor e riqueza de detalhes
não foram economizados pelos restauradores.
Nos arredores de Cardiff
Caerphilly fica a 20 minutos de trem de Cardiff e
tem as ruínas de um castelo de 800 anos no centro da
cidade. O castelo de Caerphilly só perde em tamanho
para Windsor e foi o primeiro no Reino Unido a
ser construído com muros concêntricos. O fosso foi
totalmente preservado e uma das torres parece um
desafio constante à lei da gravidade. Depois de Caerphilly, meu destino era Tenby, na
costa sul, ponto de partida ideal pra explorar o Parque
Nacional de Pembrokeshire. No entanto, havia um
desvio no caminho que leva a um castelo diferente
das dezenas de outros que se encontram nas redondezas.
De Carreg Cennen só restam ruínas, mas sua
localização é magnífica, isolado no alto de uma colina
de 90 metros, com um precipício no lado sul, de onde
se avista uma paisagem belíssima de “colcha de retalhos”.
Onde era o porão do castelo, há uma escada
estreita em direção a cavernas naturais, que no passado forneciam água através de inúmeros poços e hoje
só podem ser visitadas por quem tiver uma lanterna.

Quando finalmente chego à pitoresca Tenby, percebo
o formato curioso da cidade: triangular, com duas
praias que se encontram no Castle Hill. O terceiro lado é
formado pelo que restou do muro medieval que protegia
o vilarejo. Entre ruas estreitas e casas coloridas que formam
o centro histórico, encontra-se a Tudor Merchant’s
House, com móveis originais do século 15. A ilha de
Caldey e seu antigo monastério é outra opção pra quem
deseja explorar as redondezas.
Do porto de Tenby, os
barcos partem a cada meia hora durante o verão e a
viagem não dura mais que 20 minutos. Os monges
ainda fabricam perfumes e essências a partir de flores
e plantas encontradas na ilha, que são vendidos aos
turistas. Só compre se for para guardar como souvenir,
já que as fragrâncias são insuportavelmente fortes.
Quem leva a sério uma caminhada pode até mesmo
começar a jornada a partir de Tenby, em direção aos 200
e poucos quilômetros de trilhas que compõem o Parque
Nacional de Pembrokeshire. Ao longo de sua costa recortada,
há falésias onde vivem aves marinhas exóticas,
como o puffin ou papagaio-do-mar. Mas se você quiser
apreciar a beleza do litoral sem o esforço de dias de
caminhada, há pontos estratégicos com estacionamento
ou paradas de ônibus, bastante frequentes durante o
verão. A capela de St Govan, incrustada entre as falésias
há quase mil anos, e as Stack Rocks, ponto de encontro
de milhares de pássaros barulhentos, são imperdíveis.