Edinson não perde uma oportunidade para conversar, apesar de estar muito ocupado servindo salgadinhos e refrigerante aos convidados. Com sorriso largo, ele se apresenta e começa a contar porque saiu do Equador há 14 anos, como se tivesse todo o tempo do mundo pra terminar sua história. “Eu moro aqui com minha mãe, minha irmã e meu irmão... Sabe, são eles que cuidam de mim. Antes de vir pra cá, eu morava em Madri, mas agora já faz 12 anos que estou aqui em Londres. No Equador, eu sofri cinco acidentes, fiquei um ano no hospital, e agora eu não posso trabalhar, mas estou estudando inglês. Faz nove meses que comecei e estou gostando bastante.”
O centro comunitário de Kennington, no sul de Londres, logo fica lotado e de repente, todos fazem silêncio para cantar “Parabéns a Você”. Mas essa não é só mais uma festa de aniversário. Dezenove anos atrás, um grupo de pessoas decidiu se juntar com um propósito: ajudar portadores de deficiência - de fala portuguesa e espanhola - que enfrentavam o desafio extra de falar inglês. O grupo cresceu e hoje é o LADPP, uma instituição de caridade registrada, que conta com 700 membros e 40 voluntários.
No entanto, apesar do sucesso de quase duas décadas a serviço da comunidade latino-americana em Londres, o LADPP (Latin American Disabled People’s Project) também foi atingido pela crise financeira dos últimos anos. Jhon Jairo Marulanda, gerente do projeto, explica que algumas mudanças estão a caminho. “É mais difícil conseguir patrocinadores quando se tem um projeto específico. As empresas maiores querem patrocinar organizações de caridade que ajudam a comunidade como um todo, não apenas grupos menores, como os portadores de deficiência. Por causa disso, a gente vem expandindo nossos serviços aos amigos e familiares dos deficientes ou a qualquer outra pessoa que fale português e espanhol, e precise de nossa ajuda.”
Para tanto, os estatutos da LADPP terão que sofrer algumas modificações. Jhon Jairo esclarece: “Nós mudaremos o nome e o status legal da organização, mas continuaremos sendo uma instituição de caridade e oferecendo os mesmos serviços à comunidade. Dessa forma, através do LAPP - Latin American People’s Project, nós poderemos expandir nossos contatos com outras instituições de caridade e também patrocinadores, não apenas os que estiverem relacionados com pessoas deficientes.”
Ritmos latinos
Depois de tais mudanças terem sido aprovadas pela assembleia geral, a festa segue em ritmo tipicamente latino. As apresentações de música e dança vão da tradicional cumbia colombiana e dos mariachis mexicanos ao samba e à capoeira. Mas Edinson não tem tempo para dançar. Ele continua servindo doces e salgados, especialmente aos que têm dificuldade em se movimentar. Apesar de Edinson não ter nenhuma deficiência física aparente, ele parece estar consciente de suas limitações: “Eu tive muitos acidentes, agora meu problema é aqui... ,” ele explica, apontando para a cabeça.
No refeitório, o voluntário colombiano Francisco Dimaté não para de encher pratos. “Eu acho muito importante ajudar na comunidade. Como sou intérprete, eu normalmente acompanho quem precisa de ajuda em consultas médicas.” Assim como Francisco, a artista inglesa Rachel Bate também optou por um voluntariado no LADPP. “As instituições de caridade ainda estão sofrendo muito com a crise econômica. Mas, por outro lado, eu acredito que muitos jovens estão fazendo mais trabalho voluntário, porque depois que terminam a universidade, não é fácil arrumar emprego logo. Aqui no LADPP eu faço um pouco de tudo, e assim também posso praticar meu espanhol.”
No entanto, os motivos que levaram a equatoriana Delia Bonilla a colaborar com o LADPP, organizando oficinas de tricô e crochê, parecem terem sido outros. Divorciada e com quatro crianças, uma delas portadora de deficiência, Delia decidiu se mudar para a Espanha há quase 20 anos, em busca de melhores oportunidades de emprego. “Eu morei na Espanha por cinco anos antes de vir para Londres. Lá, o serviço social não era tão bom quanto o daqui. Na Espanha, minha filha deficiente não recebia quase nenhum apoio.”
Todas as segundas-feiras, Delia ensina crochê e tricô, mas ela também frequenta as aulas de inglês gratuitas que o LADPP oferece. “Eles nos ajudam com documentos e papéis, que são difíceis de entender. Mas eles também nos ajudam de muitas outras maneiras, com apoio moral e psicológico,” ela diz, mostrando as bolsas de tricô produzidas a partir de sacolas plásticas, durante as oficinas.
Enquanto Delia arruma suas preciosidades de crochê e tricô, a festa continua no mesmo embalo. Com o centro comunitário lotado, é difícil chegar até a porta, mas um que outro esbarrão passa despercebido. A luz do dia já se foi, eu caminho em direção à calçada, quando alguém me chama pelo nome. Escorado na porta com um copo na mão, Edinson tem seu merecido descanso e se despede acenando. Mas antes que eu pudesse erguer meu braço, ele desaparece novamente no meio da multidão.