Sexta-Feira, 12 de Março de 2010







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Kokumo Rocks, cidadã do mundo
A escritora escocesa falou de suas origens, que passam pela Bahia
Tâmara Oliveira
Janeiro 2010

A correspondente da Real na Escócia conversou com a poetisa escocesa Kokumo Rocks. Autora dos aclamados livros “Stolen from Africa” e “Bad ass Raindrop”, lançados no Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, ela falou da experiência de crescer em uma família com tradições distintas, já que a mãe era indiana, o pai nigeriano e o avô paterno brasileiro; das viagens ao Brasil e de sua visão sobre os negros ao redor do mundo.

Real - Você nasceu e cresceu em Cowdenbeath, uma pequena cidade no interior da Escócia, mas seus pais eram de diferentes nacionalidades. Como foi crescer com tantas culturas distintas em um país onde a representantividade negra ainda é ínfima?
Kokuma Rocks - Boa parte da minha infância e adolescência me senti perdida, sempre fiquei dividida entre as informações culturais do meu pai, que era nigeriano, e da minha mãe, que era indiana, mas o pior para mim era o ar de estranheza das pessoas quando eu dizia que era escocesa. Até um bom tempo da minha vida me senti “estrangeira” dentro do meu próprio país. As pessoas não acreditavam e até hoje olham com ar de anormalidade quando  uma negra diz ser natural da Escócia. O espanto vinha de toda parte, inclusive dos meus professores. Com essa mistura toda me senti durante vários anos uma pessoa com muitas origens, mas oriunda de lugar nenhum.

Real - Essa sensação de não pertencer a lugar nenhum ainda te persegue?
Kokuma RocksNão, pelo contrário. Foi essa falta de identidade própria que me deu embasamento para construir minha vida profissional, foi essa mistura de culturas que me fez viajar à procura de minhas origens e então escrever sobre essas origens tão distintas. Já na adolescência fui a diferentes cidades da Índia, da Nigéria, e o melhor é que eu ia para casa de parentes e era muito bem recebida, eu podia estar do outro lado do globo terreste e me sentir em casa, daí em diante percebi que não era uma pessoa sem lugar nenhum, percebi que eu era uma felizarda, uma pessoa não singular, mas sim plural. Na realidade eu era e sou cidadã do mundo.

Real - Seu avô paterno era de Salvador e por várias vezes você foi ao Brasil. O que acha do país e da situação do negro por lá?
Kokuma RocksO Brasil é um dos países mais lindos e mais ecléticos que já conheci, fui cinco vezes. A última visita foi em 2003, mas sempre fiz questão de conhecer o Brasil na visão de um nativo, com “lentes” de um cidadão local, afinal tenho sangue daquela terra, um pedaço de mim está em Salvador, meu avô paterno era de Salvador, local que muito me encantou pela beleza da cidade e de seu povo, porém, acho que os negros são muito mal valorizados no Brasil, sobretudo na Bahia. Acho que o racismo no Brasil é um racismo disfarçado, perverso e os próprios negros muitas vezes desvalorizam seus próprios “irmãos”. Eu mesma senti na pele a falta de respeito do negro para com o negro em Salvador. Eu estava no Mercado Modelo, olhando as butiques, quando entrava ninguém ligava para mim pelo meu biotipo ser de alguém local, porém, assim que percebiam que eu era estrangeira tratavam-me completamente diferente. Mas então é isso, o negro só pode ser bem tratado se for de outro país? E olhe que passei em várias butiques e na maior parte os funcionários também eram negros.

Real - Você acredita que com a vitória de Obama, países como o Brasil colocarão mais negros na linha de frente?
Kokuma Rocks - A vitória de Obama foi um grito preso na garganta para os negros dos mais diferentes lugares do mundo. Foi um marco, acredito sim que de agora em diante haverá mais espaço na sociedade para os negros nas mais diferentes áreas. Desde a vitória de Obama parece que se tirou o estigma que negro só é bem-sucedido no futebol, música, dança, em áreas limitadas.

Real – Com o que mais e com o que menos você se identifica com o Brasil?
Kokuma Rocks - Tem muita coisa que me identifico com o Brasil: a espontaneidade do  povo, com os livros de Jorge Amado, a pluralidade da Amazônia. O que menos me identifiquei foi com a TV brasileira, quase não vi negro, vi muito loiro de olhos azuis, apresentadores brancos, mas quase não vi negros, o que não corresponde à realidade quando saímos às ruas.

Leg – Kokumo: “A vitória de Obama foi um grito preso na garganta para os negros dos mais diferentes lugares do mundo”

Edição
Mar/10
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