Terça-Feira, 07 de Fevereiro de 2012







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Mind the gap!
A Real deu uma voltinha pelo “mundo subterrâneo” de Londres e encontrou brasileiros que fazem parte do dia-a-dia do maior sistema de metrô do mundo
Texto: Dayane Garcia
Fotos: Rafael Reina
Londres tem dois andares e dificilmente você vai achar alguém que nunca tenha se aventurado no andar de baixo, onde o encontro com o morador local, o turista, o mendigo, a madame, o artista, aliás, os muitos artistas, dão um gostinho do que é a vida na multicultural e cosmopolita capital inglesa. São 275 estações divididas entre 12 linhas, que somadas resultam em mais de 407 quilômetros de extensão (253 milhas), ou seja, dá pra se chegar a quase qualquer ponto da capital britânica com a ajudinha do London Underground, ou simplesmente ‘tube’, como é chamado pelos ‘londoners’.

Inaugurado no dia 10 de janeiro de 1863, o metrô de Londres carrega os títulos de mais antigo do mundo e da rota mais longa, o que deixa a cidade orgulhosa, mas não esconde o fato do meio de transporte já ter sido considerado melhor do que atualmente. Vagões lotados, trens sujos, estações antigas, num sistema que no início do milênio transportava um milhão de pessoas diariamente e hoje trabalha com cerca de três milhões de passageiros por dia, segundo dados do TFL – Transport for London, órgão responsável pelo sistema de transporte da capital.

Vivenciar essa realidade por vinte, trinta minutos ou até por mais de uma hora por dia faz parte da rotina, senão de todos, mas da maioria dos moradores e visitantes de Londres. Há até quem ouse chamar a experiência de prazerosa, ou no mínimo, curiosa. “Tem horas que me divirto com os diferentes tipos que passam por aqui. Tem até Elvis!”, disse Maria da Penha, 42 anos, uma turista capixaba que encontramos num dos vagões da District Line a caminho de Westminster, referindo-se a um passageiro vestido como o Rei do Rock.

Mas o que seria vivenciar o ‘tube’ por exatas 37 horas e 30 minutos semanalmente? Ou seja, mais do que acompanhar a chegada dos três milhões de passageiros diários, auxiliar cada um na compra do ticket, na passagem pelas catracas, com o destino da jornada, o embarque, desembarque, acidentes de percurso, acidentes de percurso novamente e novamente... Ufa! Esta é, nada mais nada menos, que a rotina de 13.400 funcionários do London Underground. E, dentre estes, a de seis brasileiros, que num bate-papo com a Real, contaram um pouquinho do dia-a-dia nesse universo subterrâneo.

A arte de lidar com o público
Nossa entrevista estava marcada para as seis da tarde, quando Igor Tripodi, 27, terminaria o expediente na bilheteria da estação de Tottenham Court Road. Conferir equipamentos, separar dinheiro para o troco, começar a vender bilhetes e dar assistência ao usuário. Balanço do dia, juntar o dinheiro, esvaziar a máquina, fazer a manutenção e, então, fim de expediente... mas não naquele dia. Igor não chegou a tempo para a entrevista. O motivo? Como o próprio resumiria, trabalhar no metrô é ter sempre uma história nova pra contar.

Um rapaz chegou querendo registrar o Oyster no nome dele e eu o orientei a preencher o formulário. Quando vi um colega atendendo uma brasileira no guichê ao lado e fui cumprimentá-la, o rapaz, que percebeu que eu era brasileiro, retornou ao guichê com o formulário incompleto. Eu devolvi para que ele fizesse as correções. Foi o suficiente para ele começar a me xingar, chamar de ilegal, discriminar os brasileiros... e só parou com a chegada da polícia.”

A história contada por Igor não é nem de longe a mais grave ou chocante, mas ilustra a importância de saber lidar com o público e com os imprevistos do dia-a-dia, fatores estes apontados por Peter Henry, comissário de transporte de Londres, como principal requisito para trabalhar no metrô.

Não é nada fácil lidar com pessoas e, no caso do metrô, muitos usuários não ajudam e ainda tentam atrapalhar. Por isso temos muito respeito e total orgulho das pessoas que trabalham conosco, que na maioria das vezes fazem um serviço difícil em condições mais difíceis ainda”, disse Henry em entrevista à Real, no final de setembro, durante um evento promovido pela TFL à mídia latino-americana.

Por que não tentar trabalhar no metrô?
Há 10 anos em Londres, Igor veio com o mesmo objetivo de Lucas, Rodrigo, Danilo, Érica e Márcia, os outros personagens desta matéria: o de aprender a língua inglesa e trabalhar. De diferentes partes do Brasil, idades e formações, a história dos seis começa a encontrar semelhanças a partir do momento em que todos se fizeram a mesma pergunta: por que não tentar trabalhar no metrô?

Eu estava passando por uma estação próxima de casa quando ouvi um funcionário do metrô falando em português e então pensei: se ele pode, eu posso!”, contou Lucas Martins, 22, que viu o primeiro salário, de £3 por hora, que ganhou aos 16 anos como lavador de carro, se multiplicar por quase cinco vezes quando, aos 20 anos, entrou para o metrô como assistente de estação em Earls Court.

No metrô recebo £28 mil por ano, que em horas dá quase três vezes o valor mínimo de uma hora de trabalho. Temos 10 semanas de férias pagas por ano, o uso gratuito do transporte público, inclusive para um familiar, descontos em centenas de estabelecimentos e um final de semana prolongado por mês,” diz Lucas.

Mais do que salário e benefícios, Danilo Fiocco, 27, que deixou o trabalho de gerente numa ótica no Brasil e há quase três anos é assistente na estação de Green Park, vê no metrô a segurança de trabalho e oportunidades.  “Ser funcionário público é bom em qualquer lugar do mundo, o que dirá aqui, onde eles realmente te dão a chance de crescer. São dezenas de cursos, treinamentos, premiações, que muitas vezes recompensam o lado negativo de uma  rotina de imprevistos,” conta.

Atuando em situações críticas
Responsável pela estação de North Acton, a supervisora Érica Ferreira, 30, voltava para casa num dos trens da Central Line, quando, na estação de Oxford Circus, uma mulher supostamente se jogou na frente do trem. Érica foi uma das primeiras pessoas capacitadas para agir neste tipo de emergência a chegar à plataforma. “De repente o tumulto se formou e as pessoas gritavam e choravam muito, porque ouviam o grito da mulher, que estava viva e dizia estar grávida. Nosso procedimento era esvaziar a plataforma e acalmar a mulher até que a equipe responsável chegasse”, conta Érica, que mais tarde foi homenageada pelo trabalho realizado, independentemente de não estar em seu expediente.

O caso acompanhado por Érica teve um final feliz. Por ter caído num espaço entre os trilhos, a mulher e o bebê saíram com vida. Mas a história não se repetiu com Rodrigo Fiuza, 35, responsável por prestar os primeiros-socorros na estação de Picadilly Circus. “Ver uma pessoa se jogar na frente do trem é a pior situação pela qual já passei. E o interessante é que mesmo não conhecendo a pessoa, te dá uma sensação de perda,” diz Rodrigo, que complementa: “Eu chorei por quatro dias e tudo o que eu comia, eu vomitava.”

Segundo o chefe de operações da TFL, Jeroen Weimar, o trabalho realizado com os funcionários do metrô envolve psicólogos, especialistas em segurança e profissionais capazes de desenvolver técnicas de como lidar com o público em diferentes situações. “Nossos funcionários são muito confiantes em lidar com situações difíceis. Eles sabem como lidar com uma pessoa bêbada, agressiva ou alguém em um dia difícil. Nós temos que fazer as pessoas sentirem que está tudo sob controle e não tornar a situação um problema maior.”

O dia em que Londres parou
Érica se lembra bem da manhã do dia 7 de julho de 2005. “Eu estava na bilheteria da estação London Bridge quando as luzes piscaram, a escada rolante parou e os computadores desligaram. Achamos que era problema de eletricidade,” conta. Em casa, Igor recebeu a ligação do primo informando que nenhum metrô estava funcionando. “Como não tinha nada ainda na TV e na Internet, liguei para a estação na qual eu trabalhava e vi que todas as ligações eram transferidas para a polícia. No mesmo instante mandei meu primo voltar pra casa, porque para parar todo o metrô, algo muito grave tinha acontecido.”
E ele estava certo. Um atentado terrorista ao sistema de transporte de Londres, numa série de explosões coordenada, atingiu três trens do metrô e um ônibus ‘double decker’, matando 52 pessoas e deixando cerca de 700 feridos. “Como eu estava próxima da estação de Liverpool Street, local da primeira bomba, pude ver a gritaria e correria nas ruas, mas não tínhamos informações de nada, era tudo trocado, confuso
,” relembra Márcia Dray, 34, que na época exercia seu primeiro ano de trabalho no metrô.

Hoje, quatro anos após o atentado, Márcia trabalha na estação de King’s Cross, justamente de onde saíram dois trens que levavam dois dos quatro terroristas suicidas. Mas isso, segundo ela, não é motivo para deixar de trabalhar no metrô de Londres, opinião compartilhada pelos outros cinco brasileiros.

Kulveer Ranger, consultor de transporte da TFL, disse à Real que “cada pessoa que trabalha no metrô, ônibus ou em qualquer outra parte do sistema de transporte deve se sentir orgulhosa, pois está dividindo a responsabilidade de fazer com que Londres cresça e se mantenha como a importante cidade que é.”

Presente e futuro
Neste universo de pessoas que compõem o quadro funcional do London Underground, a assessoria de imprensa do órgão não soube informar o número exato de brasileiros, uma vez que não tem dados específicos sobre nacionalidades em seus arquivos. Além dos seis personagens que ilustram essa matéria, a Real descobriu que há mais brasileiros trabalhando  no ‘tube’, mas alguns estavam em férias ou licença.

Dos entrevistados, o sentimento de orgulho de trabalhar no metrô é visível e fica evidente na fala de um deles. “Eu sinto que faço parte dessa engrenagem que faz Londres funcionar,” diz Igor que, com a faculdade de computação e programação que começa neste mês, pretende fazer carreira no metrô, mas não no de Londres. “Quero associar o que aprendi no metrô com esse novo curso, porque em Salvador está abrindo o primeiro metrô e, se Deus quiser, minha carreira será lá.


Dica da Real
Se você se inspirou com as histórias de Danilo, Érica, Igor, Lucas, Márcia e Rodrigo, não custa nada sonhar com uma vaga no metrô. As aplicações para posições no ‘tube’ podem ser feitas on-line no endereço: www.tfl.gov.uk/corporate/jobs

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