Quinta-Feira, 23 de Maio de 2013







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As mil e uma noites de Marrakech
A tradição islâmica e a arquitetura peculiar da cidade marroquina remetem o
visitante às estórias de tapetes voadores
Texto e fotos: Giovana Zilli
Outubro 2010
No Marrocos, a forte influência do Islamismo pode ser observada além de véus que cobrem o rosto das mulheres, preces com hora marcada e restaurantes que não vendem bebidas alcoólicas. Ela também determina que os gatos sejam abundantes e os cachorros, considerados impuros pelo Alcorão, quase inexistentes. E que homens andem de mãos dadas, como sinal de amizade e respeito, enquanto marido e mulher evitem o contato em público.

Apesar do grande número de turistas que visitam o país todos os anos, as velhas tradições culturais têm sido bravamente preservadas, até mesmo em centros maiores, como Marrakech. Assim como todas as grandes cidades marroquinas, Marrakech tem uma parte moderna, construída durante a colonização francesa, no século passado, e outra medieval, a Medina (que significa cidade em árabe). É no centro desse labirinto de prédios rosados que encantadores de serpente, malabaristas, saltimbancos, mulheres que fazem tatuagem de henna e predizem o futuro, se reúnem todos os dias. Há quem diga que hoje Djemaa El Fna sobrevive do turismo, mas muitos moradores se reúnem na praça para ouvir histórias e ver as danças dos povos berberes das montanhas ou comprar poções bizarras de ervas, pele e ossos de animais.

Do alto das sacadas dos restaurantes que circundam Djemaa el Fna se avistam as Montanhas Atlas ao longe, enquanto a vida acontece no coração de Marrakech. Se não fosse pelo descaso de alguns turistas, com suas coxas e ombros de fora, e os banners da Coca-Cola em árabe, poderíamos estar numa praça medieval, das que só existem em histórias de tapetes voadores.

Fé, tradição e história

Sexta-feira, ao meio dia, é quando os muçulmanos se encontram na mesquita para rezar. Segundo a religião, o bom seguidor deve rezar cinco vezes todos os dias: ao amanhecer, ao meio-dia, à tarde, ao pôr-do-sol e à noite. Alto-falantes instalados nos minaretes não deixam ninguém esquecer suas obrigações. Mas para quem planeja ir a Marrakech na esperança de visitar as mesquitas, cabe lembrar que elas são usadas estritamente para oração: homens na frente, mulheres atrás, organizados em filas. Nada de turistas.

Preservadas nas sombras da mesquita e abertas à visitação, as tumbas da dinastia Saadi abrigam mais de 160 nobres, soldados e o próprio sultão Ahmad al-Mansur, que governou o Marrocos no final do século 16 e transformou Marrakech na capital do império. A beleza dos entalhes e o colorido dos azulejos das três salas e pátio que formam esse cemitério não é segredo, portanto, a melhor maneira de evitar as filas é chegar cedo ou deixar a visita para o fim do dia.

Pelas paredes, trechos do Alcorão se confundem com arabescos. As inscrições em alguns túmulos nos transportam ao período de turbulência e 70 anos de guerra civil, vividos pelo país depois da morte do sultão, em 1603: “A morte o encontrará, aonde quer que você esteja, até mesmo entre as paredes de um forte, a morte o encontrará.”

O Palácio El Badi, apelidado “o incomparável”, é da mesma época. Enquanto superstições protegeram as tumbas Saadi dos saques, hoje só restam ruínas das 360 salas do palácio, uma vez forradas de mármore e ouro. Porém, o enorme pátio interno, com seus jardins e piscinas, abriga o Festival de Marrakech, a maior celebração de artes populares do país, todos os anos, em julho.

Assim como os Saadi, os governantes da dinastia Alaouite, que assumiram o poder com o fim da guerra civil, também se diziam descendentes do profeta Maomé, o que explica o poder da religião em muitas decisões políticas. Os Alouites ainda reinavam quando França e Espanha começaram seus ataques, no século 19. Enfraquecidos, os últimos sultões do Marrocos viram o país ser dividido, enquanto os chefes das tribos berberes resistiam à invasão europeia. O enfraquecimento da França durante a Segunda Guerra Mundial fez com que o movimento de independência ganhasse força.

Liderado por Mohammed V, descendente ao trono, o povo marroquino conquistou a independência em 1956. Desde então, o Marrocos tem sido uma espécie de monarquia constitucional, onde o rei é quem escolhe o Primeiro Ministro. No entanto, os últimos dez anos foram palco de uma maior abertura democrática. O Rei Mohammed VI libertou milhares de presos políticos, instituiu o ensino da língua berbere em algumas escolas e baniu a lei da poligamia, dando às mulheres direitos similares aos dos homens, coisa inédita num país muçulmano. Entretanto, ainda existem leis que limitam a liberdade de imprensa, proíbem o homossexualismo e permitem a pena de morte.

Marrocos, um país fascinante

O desejo de se tornar uma nação moderna e democrática, misturado às tradições de origem milenar, fazem do Marrocos um país fascinante. Marrakech é uma boa porta de entrada para testemunhar esses contrastes. O bairro de Guéliz, o centro administrativo e comercial da cidade construído durante o domínio francês, tem hotéis e restaurantes modernos, lojas de grife, casas noturnas (algumas não-oficialmente gays) e o estupendo jardim Majorelle. Cactus, vitórias-régias, bambus, palmeiras e 15 espécies de pássaros vivem no jardim criado pelo pintor Jacques Marjorelle, nos anos1920, e vendido em 1980 ao estilista francês Yves Saint Laurent.

Todavia, Guéliz não tem o mesmo charme da Medina. O espírito da cidade ainda se encontra entre os muros de pedra calcária cor de rosa, que cercam a parte medieval e seus ícones. O imponente minarete da Mesquita Koutobia, do alto de seus 70 metros, parece lembrar a todos, jovens e velhos, estejam em Guéliz ou na Medina, que o legado dos antigos desconhece o passar do tempo.

Como cartão postal oficial de Marrakech, Koutobia atrai visitantes e também guias indesejados, além de crianças que se divertem jogando futebol nas amplas calçadas que cercam o monumento. Às vezes, os meninos deixam a bola de lado e se oferecem para mostrar o caminho até a próxima atração ou restaurante. Logicamente, nada é de graça, e uma vez aceitada a companhia, fica difícil se livrar dela pelo resto do dia sem antes oferecer uma boa gorjeta. Adultos e crianças, os guias não-oficiais estão por todas as partes e não é difícil ser abordado por mais de uma dúzia deles, em apenas um dia. Ainda que seja difícil disfarçar a condição de turista num país como o Marrocos, vestir-se como os moradores pode ajudar a evitar aborrecimentos e companhias indesejadas.

Onde ficar

Riad Carina www.riadcarina.com

No estilo butique, tem cinco quartos, pátio com velas, uma pequena fonte e música relaxante. O terraço, onde é servido o café da manhã, é muito acolhedor, de onde se pode ver e ouvir as cegonhas nos muros do Palácio El Badi (€45 a €75).

Hotel Sherazade www.hotelsherazade.com

Apesar do título “hotel”, esse é na verdade um dos riads, casas tradicionais transformadas em hotéis, pioneiros em Marrakech. Oferece simplicidade e bons preços no coração da Medina (€30 a €50).

Relais de Marrakech www.lerelaisdemarrakech.com

Localizado a 10 km do centro, na estrada de Casablanca, Relais de Marrakech tem camping com piscina, restaurante e ótima infraestrutura, além de tendas nômades (€33) e quartos (€44) para alugar.

Como chegar

Ryanair (www.ryanair.com) é a opção mais em conta, com voos saindo de London Luton, Edinburgo, Bristol e East Midlands. Já a Easyjet (www.easyjet.com) tem voos de London Gatwick e Manchester.




www.visitmorocco.com
www.ilove-marrakesh.com
www.marrakechfestival.com
www.jardinmajorelle.com

Edição
Maio
2013
 








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