Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Eleições 2010: o avesso do avesso
Texto: Rogério Fischer
Ilustração: Edvaldo Jacinto
Outubro 2010

Serra LadrãoO Brasil acordou na segunda-feira, 4 de outubro, menos entorpecido. Pois a impressão é de que o País dormira e acordara assim, anestesiado, nos últimos dois meses, quando esteve em curso um fenômeno nunca antes visto por estas plagas: a extraordinária transferência de votos de um mandatário para um candidato. Do alto de seus 80% de aprovação popular, Luiz Inácio Lula da Silva por pouco, muito pouco, não conseguiu que sua ungida, a descendente de búlgaros Dilma Rousseff, vencesse a eleição presidencial já no primeiro turno. Até uma semana antes do pleito, essa era a expectativa. Dilma passava dos 50% de intenção de voto.

A pomada anestésica que Lula aplicou no eleitorado brasileiro tem nome e sobrenome: mercado interno e crédito. Ao universalizar a concessão do Bolsa-Família – sem as amarras que este mesmo benefício tinha no governo FHC – e alimentar o salário mínimo com reajustes anuais acima da inflação, o petista fortaleceu a economia popular, balançando o bambuzal da pirâmide social: milhões de pessoas que estavam na linha de pobreza foram alçados ao degrau de cima.

Só não vê quem não quer: os pequenos e médios supermercados de bairros periféricos andam abarrotados de gente que não passava pelos caixas. Moro, aqui na “pequena Londres”, Londrina, bem próximo à parte mais pobre do Jardim Califórnia, ali nos fundos da antiga fábrica Carambeí, e sou testemunha desse fenômeno: gente pobre, moradora de barracos à margem do fundo de vale, ainda mal vestida, a maioria negra, desfila cuidadosamente pelos corredores com carrinhos lotados de gêneros de primeira necessidade.

Às sextas e sábados, quando o estabelecimento oferece carne e hortifruti a preços promocionais, é praticamente impossível a quem tem pouca paciência suportar as filas no sacolão e no açougue.

Essa gente mais simples, que de maneira geral nunca havia votado no PT, seja por mera despolitização ou por puro preconceito contra comunistas comedores de criancinhas, hoje vota em Lula – e em quem ele indicar – até a morte. Vá tentar explicar a esse pessoal, que não consumia quase nada e agora come carne toda semana, que é preciso mudar o governo. É dar murro em ponta de faca. Entra por um ouvido e sai pelo outro.

Catapulta eleitoral

Além de catapultar cerca de 20 milhões de pessoas da Classe E para a classe média, amplificando um carisma de berço, Lula também mexeu com a classe imediatamente superior àquela, com crédito, muito crédito. Quem já estava na Classe C, e também na D, em especial os que têm o privilégio de receber um holerite no fim do mês, de repente se viu na condição de comprar uma casa própria, novinha em folha, com subsídio governamental de R$ 17 mil e juros civilizados de 4,5% ao ano.

Esse juro civilizado também foi oferecido, via BNDES, a pequenos e médios empresários, que seguraram as pontas do emprego em tempos de crise mundial. A redução ou isenção de impostos federais para os produtos da linha branca manteve o fôlego da indústria e do consumo e, com isso, atravessamos sem maiores sobressaltos a recessão global que deixou os EUA grogues e quase levou metade da Europa a nocaute.

Por outro lado, ao chegar ao poder, o PT reproduziu práticas políticas absolutamente detestáveis – às vezes, com assustadora inovação. Vamos lidar com um Congresso de picaretas? Então, paguemos uma propina ordinária à banda fisiológica dos deputados que sai mais barato – e dá-lhe mensalão! Tráfico de influência, presentinhos na garagem de casa, dólares na cueca: de repente, o Brasil se assustou com a ganância dos novos donos do poder.

Efeito colateral imediato: parte da classe média, que sempre votou, como simpatizante, no Partido dos Trabalhadores, o partido que chegaria ao poder com orçamento participativo e, sobretudo, probidade à toda prova, sentiu-se traída. Viu que gente combativa, que abominava corrupção, lobbies e favores, e que preconizava um outro trato com a coisa pública, na verdade era o mesmo do mesmo.

Com isso, Lula conseguiu um feito extraordinário: a grosso modo, quem sempre votou no PT passou a odiá-lo e quem nunca havia votado no PT virou petê de carteirinha. O outro lado da mesma moeda. O avesso do avesso.

Caldeirão eleitoral

Daí o entorpecimento a que o País foi submetido: as classes mais populares agarrados à figura messiânica de Lula, enquanto a parte pretensamente mais politizada ficou se digladiando, nos bares, nas faculdades, nas barbearias e nos shopping centers, sobre a trajetória agora tortuosa do partido que nasceu para implementar novas práticas políticas e que, nesse campo, fizera gol contra.

Nesse caldeirão, em que petistas aninhados na máquina viravam a cara para os ex-simpatizantes, e vice-versa, em que UNE e centrais sindicais abandonaram as ruas e se trancaram na sala, Lula escolheu para sucedê-lo a pessoa-forte de seu governo, a ex-militante de esquerda Dilma Rousseff, que ocupara um cargo estratégico no governo – Minas e Energia, numa época em que só se falava de etanol e, depois, de pré-sal – e outro ainda mais forte, a Casa Civil, parede-e-meia com o gabinete presidencial.

Nessa condição, foi eleita por Lula para tocar o PAC. Nada melhor para propagandear alguém do que colocá-la sob os holofotes de um Programa de Aceleração do Crescimento despejando bilhões de reais em obras de grande porte, com inaugurações suntuosas. “Votem nela e estarão votando em mim”, anunciou o presidente. E a candidatura Dilma crescia de forma geométrica. Em poucas semanas o favorito José Serra – principal líder do grupo tucano que comanda a oposição – ficou a ver navios.

O fator Marina

E assim ficaria, se não tivesse pintado na parada uma tal de Marina Silva. Acreana, petista desde criancinha, filha da floresta, legítima herdeira do legado de Chico Mendes, ela ocupou o Ministério do Meio Ambiente em todo o primeiro mandato de Lula e um pedaço do segundo. Foi substituída justamente depois que bateu de frente com o trator Dilma: as obras do PAC, em especial as hidrelétricas, não podiam esperar os rigorosos estudos de impacto ambiental então exigidos pela pasta.

Defenestrada do governo, Marina levou a bandeira da sustentabilidade para a sigla que, em tese, é seu campo mais fértil: o Partido Verde. Colocou-se para o eleitorado como alternativa diante do embate que se pretendia plebiscitário entre Dilma e Serra. Não por acaso Lula martelou anos a fio a tecla pela qual quis comparar seu governo com o de FHC. E assim a eleição estava caminhando, até a última semana, quando Marina, que se arrastava em décimos percentuais, cresceu vigorosamente. Nos últimos dias disparou um torpedo marquetólogo: segundo ela, o País estava, enfim, preparado para ter uma mulher na presidência e só um segundo turno poderia mostrar ao eleitor as diferenças entre ambas.

O segundo turno

Marina quase conseguiu. Bateu na casa dos 20 milhões de votos e, com isso, deu a vaga no segundo turno de bandeja para Serra, que pouco fez para isso – a oposição tucano ao governo Lula foi risível e o carisma pessoal do candidato do PSDB fica pouco acima do rodapé. Foi a grande vencedora do primeiro turno – paradoxalmente, foi a que caiu fora da disputa. É, agora, o apoio desejado por ambos os candidatos. E Marina necessitará de muita convicção e jogo de cintura para portar-se com altivez e sem perder o amplo cacife que conquistou: por um lado, é oriunda do PT, participou efetivamente da construção do partido e do governo Lula; por outro, encabeçou uma chapa de oposição a esse mesmo governo. Ela que desembrulhe esse dilema perante o eleitor.

De resto, o primeiro turno da eleição presidencial mostrou que o eleitor continua o mesmo, produzindo líderes e piadas. No primeiro caso, encaixa-se Aécio Neves, que ocupou o governo de Minas por dois mandatos, elegeu-se senador com ampla votação, levou Itamar Franco junto e é, desde já, o principal líder da oposição, vitaminando um PSDB que perdeu Tasso Jereissati e Arthur Virgílio. Em caso de nova derrota de Serra, que perdeu para Lula em 2002, é o nome mais forte para enfrentar Dilma ou Lula em 2014.

No segundo caso, encaixa-se Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Tiririca, o humorista que arrebanhou 1.350.000 votos. Isso significa, em números redondos, que de cada 15 eleitores paulistas, um votou nele. Na impossibilidade de votar no rinoceronte Cacareco ou no macaco Tião, ou escrevendo qualquer outro nome na cédula de papel, que não existe mais, o brasileiro sempre encontra uma brecha para desafogar suas mágoas. Ou seu espírito zombeteiro.

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