No escurinho do cinema, burburinhos, gargalhadas e lágrimas. A plateia, formada por brasileiros, ingleses e estrangeiros de vários países que vivem em Londres, se emocionou com os filmes apresentados no 2o Brazilian Film Festival of London. Entre os dias 1º e 5 de setembro foram exibidos 10 longas-metragens no Apollo Cinemas, em Picadilly Circus, e sete documentários no Southbank Centre, além da abertura na British Academy of Film and Television Arts (Bafta), que contou com a presença ilustre do ator britânico, Sir Ben Kingsley.
O filme “Salve Geral”, de Sérgio Rezende, e o documentário “Dzi Croquettes”, de Tatiana Issa e Raphael Álvares, foram os grandes vencedores da mostra e levaram o prêmio “Lente de Cristal”, mas as demais produções também agradaram. A estudante brasileira Márcia Lomba, que mora há quatro anos em Londres, se surpreendeu com “Olhos Azuis”, de José Joffily. “Adorei, fantástico, bem forte e chocante. Eu e meu amigo inglês, que fez questão de vir comigo ao festival, ficamos encantados”, disse.
A garçonete Roseli da Silva assistiu a quatro filmes no festival e o favorito foi “O Contador de Histórias”, de Luiz Villaça. “Eu chorei muito, gostei muito da forma como retrataram, no filme, a história da Febem e do menino Roberto”, contou. Roseli, que há sete anos trocou o Brasil pelo Reino Unido, já garantiu presença no festival do ano que vem. “Eu acho maravilhoso poder seguir daqui , de Londres, o que o Brasil está produzindo. Estou orgulhosa do nosso cinema”, destacou.
Adriana Dutra, uma das diretoras e fundadoras do Circuito Inffinito de Festivais, que realiza o Brazilian Film Festival of London, ficou entusiasmada com a receptividade do público e dos produtores de cinema no Reino Unido. “Foi muito bom ver as salas de cinema lotadas, e, melhor ainda, saber que mais da metade do público era de ingleses. Isso mostra o interesse pelo cinema produzido no nosso país. Não tenho dúvidas de que o terceiro festival de Londres, no ano que vem, vai ser ainda maior”, ressaltou confiante.
O Circuito Inffinito promove e difunde o cinema brasileiro fora do país desde 1997. Longas-metragens, curtas e documentários produzidos no Brasil são exibidos em 10 cidades pelo mundo, como Roma, Nova Iorque, Miami e Barcelona. Uma curadoria, formada por especialistas em cinema, é responsável pela escolha dos filmes, de diferentes gêneros, que melhor representam o que diretores e produtores vem fazendo no Brasil. E o resultado que se viu em Londres foi sucesso de público, com sessões lotadas e uma média geral de quase 80% de
ocupação das salas durante as exibições.
Marketplace: os desafios do cinema brasileiro
Pipoca e aplausos à parte, o Brazilian Film Festival também foi palco de debates importantes sobre os rumos do cinema brasileiro no mercado estrangeiro. Pela primeira vez foi realizado no Bafta o Marketplace, espaço para discutir políticas públicas e privadas de financiamento das produções brasileiras e acordos de co-produção com outros países, no caso, o Reino Unido. Entre os participantes, Alberto Flaksman, assessor internacional da Ancine (Agência Nacional do Cinema), apresentou dados importantes sobre a produção cinematográfica no Brasil, que vem retomando os rumos.
Por ano são produzidos, em média, 75 filmes, entre longas-metragens, curtas e documentários. E, segundo Flaksman, a maioria financiada com o dinheiro público. A lei do Audiovisual, lei federal 8.625/93, tem sido fundamental para a captação destes recursos. Através da lei, pessoas físicas e empresas podem abater até 3% do imposto de renda investindo em cinema. Nos últimos cinco anos foram mais de 450 milhões de dólares (R$
773 milhões) distribuídos. Uma quantia expressiva, mas que ainda não é suficiente para atender a demanda, alertaram as produtoras Lucy e Paula Barreto, que também estavam no debate.
Mãe e filha, sócias de uma das mais importantes e sólidas companhias produtoras de cinema do país, a LC Barreto, explicaram que é sempre um processo difícil captar recursos para fazer filme no Brasil. Segundo Paula, que produziu “Lula, o filho do Brasil”, filme que abriu o festival londrino, muitos empresários ainda não se conscientizaram que cinema pode ser um negócio lucrativo. “Eles ainda têm uma visão muito fechada. Então, mesmo que a gente consiga patrocínios de empresas privadas, sempre temos que recorrrer à Ancine, e enfrentar todos os trâmites burocráticos necessários para se conseguir dinheiro público”, lamentou.
Co-Produção viabiliza projetos
Um dos caminhos para driblar a verba apertada é a co-produção com países mais ricos, ou com uma indústria cinematográfica mais sólida. Estes países financiam, em média, 60% do projeto. O Brasil já tem acordos de co-produção assinados pelo mundo. Os tratados facilitam os trâmites durante as filmagens e na pós-produção, mas não são suficientes para que as parcerias aconteçam. É preciso que os filmes sejam interessantes do ponto de vista comercial no estrangeiro, o que nem sempre ocorre. “Os produtores e diretores brasileiros são maravilhosos, mas eles ainda não enxergaram que os nossos filmes precisam ‘viajar’”, enfatizou o assessor da Ancine. Samantha Horley, produtora de cinema inglesa , concordou .“Venho tentando filmar em co-produção com o Brasil há tempos, mas não encontro filmes que se encaixem, que funcionem comercialmente fora do país. É preciso pensar nisso na hora de investir num roteiro.”