Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Os desafios de Dilma
A primeira mulher eleita para o Planalto precisará de muita habilidade para mostrar que será ela – e não Lula – o presidente de fato do Brasil
Texto: Rogério Fischer
Ilustração: Edvaldo Jacinto
Novembro 2010

O Brasil acordou na segunda-feira, 1º de novembro, mais pacificado, por conta do discurso sereno e conciliador feito por Dilma Vana Rousseff. Do auditório de um hotel na zona sul de São Paulo, a primeira presidente eleita da história do Brasil procurou colocar panos quentes sobre todas as mazelas da campanha eleitoral. Do alto de seus 55,7 milhões de votos, Dilma – mineira radicada em Porto Alegre, descendente de búlgaros – estendeu a mão ao lado derrotado, assegurando que, de sua parte, não haverá discriminação, privilégios ou compadrio. E estendeu a mão também a uma parte dos grandes veículos de comunicação que claramente apoiaram o tucano paulista José Serra, ao garantir que vai zelar pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

Um dos consensos desta eleição é o de que foi uma das campanhas mais sujas da história do Brasil. Até para isso foi importante a participação de Marina Silva (PV). Ao receber perto de 20 milhões de votos, a senadora amazônica provocou o segundo turno, que escancarou as vísceras de um embate político que ganhou ares de guerra declarada entre petistas e tucanos, que vem desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994.

Se Dilma tivesse ganhado a eleição no primeiro turno, muitas dessas mazelas ficariam incubadas e fatalmente eclodiriam em algum momento delicado da política nacional. Melhor que fossem manifestadas agora, em campanha. E o Brasil pôde, então, assistir a um festival de baixarias que envolveu duas candidaturas mais que rivais, quase inimigas, um presidente que ignorou a liturgia do cargo para transformar-se num cabo eleitoral descarado full time e uma imprensa que esbofeteou os pilares básicos de uma cobertura jornalística decente.

Resultado: uma disputa ferrenha que, resumidamente, colocou em lados opostos uma parcela da população entorpecida pelos acertos de Lula, disposta a defender o presidente, seu governo, sua candidata e, claro, os milhares de cargos federais a unhas e dentes. E, do outro lado, a parte da população formada basicamente por tucanos de carteirinha e neotucanos indignados com os erros do governo Lula – mensalão, tráfico de influência, aparelhamento do Estado – e com o comportamento dos novos ocupantes do poder, traduzido basicamente pelos metafóricos dólares na cueca.

Ânimos exaltados

Os ânimos se acirraram. Candidatos e seus staffs trocaram denúncias, acusações. Em um discurso particularmente mais agressivo, Lula sugeriu que se devesse extirpar o DEM, antigo PFL, antiga Arena. O acirramento da campanha chegou aos jornais e revistas. Amigos de longa data se estranharam nas ruas, nas barbearias, nos bares. Não raro, um mandava outro à pequepê. A política foi confundida com mera disputa pelo poder. Pouquíssimos conseguiram manter a compostura.

A imprensa saiu desta particularmente chamuscada. Os jornalões de São Paulo e as revistas semanais de tiragem nacional – Veja à frente – deixaram que a preferência por determinado candidato contaminasse a cobertura jornalística. No início do segundo turno, Lula pediu que tirassem a máscara. No dia seguinte, o Estadão e a Folha trouxeram editoriais. Fizeram certo, mas de maneira tardia. Deveriam ter manifestado a opinião no início da campanha e orientado a equipe de jornalistas a efetuar cobertura isenta. No fim, passaram recibo ao presidente.

Daí a importância do discurso conciliador proferido por Dilma. Nesses dois meses que a separam da faixa presidencial, a presidente eleita terá de ter muita habilidade para que as forças que se digladiaram agora estejam minimamente apaziguadas até 1º de janeiro, sob risco de iniciar seu governo em meio a uma fogueira. Vale lembrar que o homem cuja popularidade entorpecia a todos e era usada como escudo para atacar adversários estará bem distante do centro do poder e das decisões.

Ou não?

Em seu discurso da vitória, Dilma Rousseff, claro, agradeceu o presidente, seu criador – foi o único momento em que embargou a voz. E anunciou: “Presidente, baterei muito à sua porta, e tenho certeza e a confiança de que ela estará sempre aberta”. Ao forjar a candidatura de Dilma, sua ministra de Minas e Energia e, depois do escândalo que defenestrou José Dirceu, ministra-chefe da Casa Civil, Lula conseguiu o feito de fazer seu sucessor – o que não é comum, principalmente depois de dois mandatos consecutivos – e com um detalhe: fazendo vitoriosa uma pessoa que, embora tenha trabalhado em vários governos, jamais disputara uma eleição.

A encruzilhada de Lula

Dilma e Lula são a brasileiríssima representação daquela expressão de dois mil anos atrás: “Quem pariu Mateus que o embale”. Luiz Inácio Lula da Silva está numa situação delicada. A rigor, daqui a dois meses não pode ser responsabilizado por nada que o governo federal faz ou deixa de fazer. Na prática, como autor indiscutível da criatura, é possível que muitos peçam a ele explicações e justificativas para eventuais erros de Dilma. A petista deixou claro na campanha que seu governo seria a continuação do governo de Lula.

Aí é que mora o perigo. Se não trabalhar a nova situação com discernimento, corre o risco de se tornar refém de seu idolatrado. O perigo real da vitória de Dilma é o país ter no Planalto uma presidente de direito – e, em São Bernardo do Campo, um presidente de fato. Vislumbra-se uma divisão tênue entre esses dois campos. É preciso, portanto, que Dilma inicie seu governo sem sobressaltos – internos e externos. Que a economia global continue favorável. E que as forças internas se acomodem e pensem mais no país que em seus umbigos.

À primeira vista, Dilma tem tudo para começar bem. A coligação que encabeçou fez maioria na Câmara e no Senado. Engana-se, porém, quem acha que, por isso, esteja tudo resolvido. O maior aliado do PT é o PMDB, fisiológico como sempre. Outros, como o PP, são tão confiáveis quanto. A disputa pela presidência das duas Casas, na primeira semana de 2011, já dará o tom de como será a convivência naquele autêntico balaio de gatos. Foi justamente nessa questão que o governo Lula sofreu sua primeira derrota, algo vexatório para um partido que prezava pela qualidade na articulação política. A primeira eleição para a Câmara sob o novo governo resultou na vitória de Severino Cavalcanti, que o baixo clero impingiu a Lula goela abaixo.

Tudo indica que Dilma manterá o “núcleo duro” do atual governo, ou seja, Henrique Meirelles no Banco Cental, Guido Mantega no Ministério da Fazenda e Paulo Bernardo no Planejamento. Certo é o resgate de Antônio Palocci, que deixou o governo no último do primeiro mandato de Lula ao envolver-se com a quebra do sigilo fiscal do caseiro Francenildo Costa. Integrante do alto comando da campanha, Palocci é apontado como homem-forte do governo Dilma, na Casa Civil ou na Secretaria-Geral da Presidência.

Manter essa estrutura básica pode ser uma sinalização inequívoca para aliados e adversários, o que acalmaria os mercados e abafaria setores mais raivosos por causa da derrota de Serra. No mais, é torcer para que Dilma consiga concretizar a principal meta que ela própria traçou para seu governo: erradicar a miséria no Brasil. Boa sorte, presidente.

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