Na terceira semana de fevereiro, durante evento bancado por um de seus patrocinadores oficiais, Pelé surpreendeu a muitos no mundo inteiro – e, vamos combinar, como repercute o que o Negão fala, hein! – ao declarar que o Brasil corre sério risco de passar vergonha por conta da Copa de 2014.
Mas surpreendeu por que, se tal risco sempre pareceu tão óbvio, dados o histórico e o nível, digamos, humanístico do pessoal que comanda as coisas do fut nacional? A surpresa se deu por conta do palco das declarações – presume-se que notícias negativas não são lá cereja de nenhum bolo, principalmente no mundo do marketing corportivo – e das pessoas que, supostamente, seriam atingidas por elas.
Pelé revelou que, numa dessas modernosas reuniões por telefone, o pessoal da Fifa se mostrou realmente preocupado com os atrasos no cronograma de obras, em especial quanto aos estádios e aeroportos. Daí o risco iminente de "o Brasil nos envergonhar".

Bem, quanto ao "Brasil nos envergonhar", deixemos isso por conta de mais uma das muitas pisadas na bola da infindável lista verborrágica de Edson Arantes do Nascimento. Como se o Brasil não fôssemos nós mesmos! Pelé e essa eterna mania de se distanciar da primeira pessoa...
A três anos e três meses do Mundial, Pelé falou como um político querendo atazanar um governo do qual é oposição. Em tese, suas declarações atingiram diretamente Ricardo Teixeira, o manda-chuva, do qual voltou a ficar amigo há tempos. As "acusações" nem coceira provocaram nele.
Teixeira anda mais preocupado em aumentar o rol das vergonhas nacionais. Responsável pela organização da maior competição esportiva do planeta, usa e abusa do poder para misturar interesses com política. No ano em que inicia o ciclo de organização de sua segunda Copa do Mundo, o Brasil vê seu futebol remoendo erros de 30 anos atrás.
Por conta da derrota de seu candidato na eleição do Clube dos 13, uniu-se ao corintiano Andres Sanches, eliminou o Morumbi do Mundial e transferiu a sede paulista da Copa a um estádio que não existe, em Itaquera. Lavou as mãos no caso das Taças das Bolinhas e a entregou para a Caixa Econômica, que a entregou para o São Paulo, que agora deve devolvê-la ao Flamengo devido ao título de 1987 que a CBF nunca reconhecera e que, de repente, passou a reconhecer, aceitando os mesmos argumentos que rejeitara durante 24 anos.
Cronograma da Copa em atraso, entidades que comandam o futebol em franca desarticulação, clubes como sempre falidos, jogadores como sempre à mercê de empresários: num país que, felizmente, parece ter alcançado estabilidade democrática, esse poderia ser um argumento para as pessoas saírem às ruas em protesto.
Mas esperar o que de entidades cujas lideranças estão cooptadas por cargos e benesses federais? A UNE (União Nacional dos Estudantes) não dá as caras desde o impeachment de Collor – mesmo que o presidente do Senado atenda pelo nome de José Sarney.
Diferentemente de outras épocas, quando incluíam bandeiras políticas em suas atividades de rotina, centrais sindicais e partidos supostamente de esquerda não têm mais tempo para manifestar apoio aos povos sofridos do mundo árabe, atualmente em clara insurreição.
O deputado-comunista de hoje é relator do projeto de renovação do Código Florestal que é aplaudido pelos ruralistas e condenado pelos ambientalistas. O ministro-comunista esparramou, em ano eleitoral, recursos públicos para ONGs comandadas por correligionários que deveriam ter tocado projetos que não saíram do papel.
Depois de um patético leilão por seu passe, Ronaldinho Gaúcho faz algumas partidas apenas razoáveis pelo Flamengo e passa a reivindicar volta à seleção por marcar um gol de falta na conquista do primeiro turno do Campeonato Carioca contra o... Boavista. Mas garantiu desfile em duas escolas do Rio.
A cidade do Rio ainda não sabe o que fazer com muitas das obras do Pan de 2007. A capital carioca tem apenas um grande estádio para os quatro clubes mandarem seus jogos em vários campeonatos até 2013 – nem grama sintética aguentaria tanto pisoteio.
A maior cidade do País é indicada para receber o jogo de abertura da Copa em um estádio que ainda não existe – e só os viciados em otimismo para acreditar que o campo do Corinthians, em Itaquera, ficará um brinco a tempo para o Mundial. O Inter já mandou dizer que não tem dinheiro para reformar o Beira-Rio. Várias capitais ainda nem licitaram obras e serviços. Talvez seja o caso da Copa sair da esfera esportiva e entrar de vez como tema central de todas as escolas de samba. Vai ser um samba-enredo melhor que o outro.