Em abril, eles eram inimigos políticos. Na acirrada disputa pelo cargo de primeiro-ministro do país, o candidato do Partido Conservador, David Cameron, chegou a dizer que o liberal-democrata, Nick Clegg, era uma “piada política”. Uma vez que, segundo o conservador, os planos de governo de seu oponente eram inconsistentes. Já Clegg, sem se fazer de rogado, rebateu dizendo que Cameron era “arrogante”, pois discursava como se já tivesse ganhado as eleições.
Em maio, as farpas entre os dois políticos viraram coisa do passado. Tudo porque os conservadores não conseguiram obter uma vitória clara nas eleições gerais de 6 de maio - conquistaram 306 cadeiras no parlamento, mas precisavam de 326 para formar um governo – e tiveram que formar uma coalizão.
No caso, esta coalizão, após a renúncia do primeiro-ministro Gordon Brown, do Partido Trabalhista, foi formada com o Partido Liberal-Democrata de Nick Clegg, a terceira maior força política do país. É a primeira vez em 70 anos que a Grã-Bretanha tem um governo de coalizão e a primeira vez que estes dois partidos fecham um acordo para dividir o poder.
O líder conservador, David Cameron, lidera o novo governo, mas cargos importantes foram designados para parlamentares liberais-democratas, e Nick Clegg tornou-se vice-primeiro-ministro.
Acordo de cavalheiros
Para que essa coalizão denominada Lib-Con desse certo, os dois partidos tiveram que chegar a um consenso. O resultado está num documento de 34 páginas batizado de “A Coalizão: Nosso programa de Governo”. O documento detalha o pacto entre conservadores e liberais, que tinham pontos de vista diferentes sobre alguns temas no passado. Tanto Cameron como Clegg disseram que o acordo de coalizão é um "documento histórico na política britânica.”
Entre os tópicos registrados estão:
Economia – Na tentativa de diminuir o déficit orçamentário recorde na Grã-Bretanha, o novo governo pretende fazer um corte de £6 bilhões nos gastos públicos. Para servir de exemplo, já nos primeiros dias de mandato, o novo governo divulgou um corte de 5% no salário de todos os ministros, incluindo-se aí também os de Cameron e Clegg.
União Europeia – A Grã-Bretanha não irá aderir ao euro como moeda nacional, pelo menos nos próximos cinco anos.
Relações exteriores – O governo se compromete a apoiar as tropas britânicas no Afeganistão e em outros lugares do mundo, a manter uma relação "forte e franca" com os EUA e apoiar a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que inclui cinco novos assentos permanentes, um deles para o Brasil.
Imigração – Para consumar a aliança, os liberais-democratas tiveram que aceitar a proposta dos conservadores em limitar a entrada de imigrantes de países que não fazem parte da União Europeia. Antes do acordo, o partido de Clegg era a favor da anistia a alguns imigrantes ilegais.
Para os contribuintes singulares foi também confirmado que será elevado o montante pessoal que fica isento de imposto sobre os rendimentos. O objetivo a longo prazo é que o valor, atualmente de £6,475, passe gradualmente para £10 mil, uma promessa que fazia parte do programa eleitoral dos democratas- liberais.
Feitos da mesma massa?
Apesar das divergências políticas, David William Donald Cameron e Nicholas William Peter Clegg têm muito mais coisas em comum do que se pode imaginar. Os dois carregam William em seus sobrenomes. Além disso, nasceram com três meses de diferença, ambos têm 43 anos, são descendentes de aristocratas e têm o mesmo hobby: jogar tênis.
A dupla também estudou nas universidades de maior prestígio na Grã-Bretanha. Clegg em Cambridge, onde cursou antropologia social, e Cameron em Oxford, onde se formou em filosofia, política e economia. David Cameron é descendente direto do rei Willian IV com sua amante, Dorothea Jordan, e o tataravô de Clegg era procurador geral do Senado imperial russo e a avó paterna, uma baronesa russa. (B.K.) |