Terça-Feira, 07 de Fevereiro de 2012







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InícioCrônicasO futebol e o Brasil  
Cara a cara com o Brasil
Texto: Rogério Fischer
Ilustração: Edvaldo Jacinto
Junho 2010

Não se iludam, não sofram por antecipação: Copa do Mundo é um campeonato tiro curto, resolvido, em parte, sim, pelo histórico dos últimos quatro anos, mas, sobretudo, resolvido ali, naqueles trinta dias em que a onça bebe água. Até porque chegar ao Mundial com timaço não é garantia de nada – a Hungria de 54 e o Brasil de 82 que o digam. Chegar desacreditado não é garantia de nada. A Itália de 82 que o diga. Chegar cheio de craque, mas com muita tranqueira em campo, não é garantia de nada – o Brasil de 90 que o diga.

Chegar superbadalado, com suposto Quarteto Mágico, não é garantia de nada – o Brasil de 2006 que o diga. Chegar com ou sem Neymar e Ganso não é garantia de nada. Dunga afogou as esperanças dos dois meninos da Vila e de boa parte da gritaria nacional. Muita gente qualificada, e de respeito, imaginava que Neymar e Ganso pudessem reeditar Pelé-Garrincha, que era apenas uma dupla promissora quando foi à Suécia, em 58. Bem, o destino tratou de colocar um técnico carrancudo no caminho deles. E a verdade é que, embora de imenso potencial, os garotos foram testados no time principal do Santos e em competições muito pouco globalizadas.

Temos time? Temos, pô. No fundo, melhor que aquele Quadrado Mágico mequetrefe de 2006. Dos quatro, só Kaká ficou – Ronaldo Gaúcho, Adriano e Ronaldo Gordo se perderam no caminho. Dunga é carrancudo, mas não é besta. Além de uma equipe que adquiriu credibilidade, o treinador tem experiência de três Mundiais, nos quais conviveu com ambientes absolutamente distintos – a “zona” de 1990, o grupo fechado e blindado de 1994 e o ufanismo zagallístico de 1998. Tem exemplos de sobra do que deve e o que não deve fazer, enquanto grupo, para não deixar que a moçada se perca em detalhes fúteis – para nós, torcedores – como premiação, privilégios, estrelismos.

O time

Nossa escalação começa com um trio que está vitaminado pela conquista da Copa dos Campeões da Europa com a Inter de Milão: Júlio César, Maicon e Lúcio. Juan, da Roma, amigo de infância de Júlio César e parceiro de Lúcio na seleção desde 2002, completa a zaga, o que confere segurança ao setor. A lateral esquerda, com Gilberto e Michel Bastos, talvez seja não o setor mais fraco, mas o menos brilhante. Em compensação, temos, na direita, um reserva que é o 12º titular. Daniel Alves pode substituir Maicon, pode preencher eventual lacuna na esquerda, pode até compor o meio-de-campo. É um jogador polivalente, com potencial de decisão elevadíssimo.

Aí vem o meio-de-campo. Setor que dominou a convocação, com oito jogadores, é justamente o mais incerto. Não por faltar qualidade, mas por não sabermos como ele chegará à Copa em cabeça e saúde. Gilberto Silva, se não se machucar, é certeza na escalação e no futebol limitado à proteção da zaga. Felipe Melo, para completar a cabeça-de-área, tem mais virtudes ofensivas, mas é demasiadamente esquentadinho – o que pode resolver ou pode complicar, na mesma proporção.

A primeira meia ofensiva vai ser disputada a tapa por três jogadores: Elano, Ramires e Kleberson. Elano parece ser o preferido do treinador – e fez história na seleção para isso. Kleberson, porém, é o mesmo que ajeitou o time de Felipão em 2002, agora oito anos mais experiente. Tem, no passe e nos lançamentos, a precisão de que talvez nossos atacantes precisem. E Kaká? É titular absoluto, mas precisa comprovar, nos treinos, que a pubalgia não o ameaça mais. De qualquer forma, Júlio Baptista estará lá, para qualquer eventualidade. Mas, sem Kaká, quem é que dará as ordens?

O ataque carrega um pouco das incertezas do meio. Tudo por conta de Luís Fabiano, que precisa sarar de uma contusão que o vem incomodando desde o início da temporada. É o tipo de jogador que, para brilhar, precisa estar voando, física e psicologicamente. Menos mal que terá como companhia Robinho – na real, o grande diferencial da seleção brasileira.

Todos podem ter um similar a Kaká. Todos podem ter um goleiraço como Júlio César. Todos podem ter uma meiúca e um ataque talentosos como o nosso. Mas ninguém tem um Robinho. Esse jogador reúne um conjunto de virtudes absolutamente ímpar. Domínio. Conclusão. Passe. E o diferencial: improviso. Está voando, como provam as partidas pelo Santos. De qualquer forma, as opções de Dunga são excelentes. Menos pelo Grafite, mais por Nilmar – um jogador leve, incisivo, cirúrgico.

Adversários?

Os favoritos são os de sempre. Mas, a priori, não acredito na Alemanha, nem na Itália, nem na Inglaterra, nem na França, recentemente alçada ao grupo dos grandes. Espanha e Portugal? Talvez possam se dar melhor que os tradicionais vizinhos europeus, mas nem tanto. Algum país africano? Também talvez ainda não tenha chegado a hora de avançarem muito, embora Turquia e Coreia tenham feito as semifinais de 2002. Ainda fico com a tese de que há um cheiro de Argentina no ar. E vamos combinar: se for para ser dos hermanos, que seja agora. Em 2014, não!


Rogério Fischer
www.fischer-blogdofischer.blogspot.com





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