Domingo, 05 de Setembro de 2010







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No apê de Luciana
Texto: Rogério Fisher
Julho 2010

Naquele 11 de setembro de 2001, uma segunda-feira, se não me falha a memória, cheguei para trabalhar pontualmente às oito da manhã e comecei a fazer o que sempre fazia havia meses: abria o escritório, ligava o computador, pegava a edição do dia e rumava para o Bar do Lema, a meia quadra da sucursal da Gazeta Mercantil, no centro de Londrina – assim chamada por ser filha de Londres.

E a rotina prosseguiria igualzinha a de muitos outros dias – eu voltaria ao escritório, olharia para o computador, jogaria o tronco para trás, colocaria as mãos na nuca e, absorto, pensaria nela, nos seus cabelos negros e no seu olhar fatal, um olhar que deixava sem respiração os malucos do Valentino e os boêmios do Bar Brasil com aquele jeitinho de quem não queria nada mais do que enlouquecer machos ao seu redor.

Sim, seria a mesmíssima rotina de sempre se, de repente, no último gole de café, servido naqueles copinhos de tomar pinga, a velha Telefunken atarrachada no alto da parede de azulejos azuis do bar não tivesse mostrado o segundo avião de Bin Laden penetrando sem dó nem piedade em uma das torres gêmeas do World Trade Center.

A primeira torre do WTC já havia sido atacada – mas, até então, Nova Iorque se perguntava se aquele primeiro impacto não tinha sido apenas barbeiragem de algum piloto estressado ou obra de algum maluco escorneado com duas doses de uísque a mais na cachola. A partir do segundo choque, caiu a ficha: todos, estupefatos, boquiabertos, desconfiavam, intuíam, imaginavam, enfim, sabiam que aquilo iria mudar o mundo.

Talvez fosse algo parecido de que eu precisava: algo que mudasse o panorama repentinamente, que desse uma guinada total, algo que mexesse com ela de tal forma que ela me desse bola, que me desse uma chance, e eu que só queria uma oportunidade de ficar sozinho com ela no apartamento dela, frequentado diuturnamente por um bando de gaviões, todos interessados na mesma presa, na mesma pele branca, nos mesmos seios fartos, nas mesmas curvas generosas de Luciana.

O fato é que, no início daquela manhã, antes de me preocupar com os destinos da humanidade e em elaborar mais um plano perfeito, a la Cebolinha, para conquistar Luciana, a meta mais imediata, antes mesmo de encontrar uma pauta que o agradasse, era convencer meu chefe, em Curitiba, de que não fora por mal que, na noite anterior, eu destruíra o telefone celular do jornal da maneira mais bisonha da paróquia – e que, por isso, ficaríamos algumas horas sem celular, até que eu conseguisse repor o patrimônio da empresa.

Que manezice! Debruçado na janela do apê de Luciana, no 13º andar, de cara para o cemitério, fumava um oreiúdo – como um amigo diagramador se referia ao Hollywood – com o bolso da camisa daquele jeito: um maço quase vazio, um maço cheio, isqueiro, pedaços de papel com anotações, caneta e, possivelmente, uma caixa de fósforo para esconder alguma ilicitude. Até que, num átimo de segundo, o celular do jornal – um tijolão de umas setecentas gramas, do tipo analógico, que ninguém mais usava – resolveu escorregar do bolso e se espatifar no chão da garagem. Sorte que ninguém passava por ali na hora – gente ou carro, porque daquela altura o estrago seria o mesmo.

Essa bronca eu equacionei mais rápido do que poderia imaginar. Uma amiga que trabalha na companhia telefônica local descolou um celular usado, desses que os clientes devolvem e ficam lá na empresa acumulando poeira. Na faixa, aliás. No fim das contas, acabei dando lucro à Gazeta: troquei o analógico por um digital e consegui manter o número original, mas para isso tive de dar um pulo no prédio onde morava Luciana para procurar o chip do bicho despedaçado. E, ao editor de Curitiba, antes desse golpe de sorte, fui logo contando a verdade: “Fica frio”, me disse ele, extraordinariamente compreensivo.

Se tivesse usado a mesma tática com a Luciana, falando assim, na lata, que não pensara em outra coisa nos últimos oito meses senão em tê-la, que no almoço passava intermináveis minutos em pé, empatando a fila do rango, imaginando tudo o que eu faria a partir do momento em que ela aceitasse, e quantas situações já imaginara com ela naquele sofá, entre almofadas puídas, xales indianos e pôsteres de Raul – enfim, se tivesse deixado de lado a timidez e partido logo para o ataque, talvez tivesse obtido sucesso com bastante antecedência.

Mas estava escrito nas estrelas que o dia seria aquele, 11 de setembro de 2001. Já passava das onze da noite quando ficamos só nós dois no apartamento. Ela anunciou que tomaria um banho, disse para eu ficar à vontade e, passados uns dez ou quinze segundos de catatonismo, perguntei, quando ela já ia fechar a porta do banheiro, o coração pulando pela boca, se poderíamos tomar banho juntos.

“Não, Roger, claro que não...”, respondeu a gata, do alto de seu 1,70m. “Querido, você sabe, eu não transo com amigos.” Insisti, mesmo me sentindo um boboca, com aquela cara de Bob Esponja contrariado, de coitadinho, de pidão, que, vim a descobrir depois, encanta certas mulheres. Até que, após uns dois ou três minutos, que pareceram uma eternidade e meia, nos quais me senti a mais rejeitada ameba do mundo, ela abriu e porta e disse: “Vem, então.”

Engraçado como pequenas coisas da vida podem nos resgatar do inferno. Deve ser sina de palmeirense. Certa vez, Ugo Giorgetti disse que o torcedor vai ao Palestra Itália preparado para uma vitória consagradora ou uma derrota acachapante, ou algo assim, e de repente estava ali, na frente daquela gata, pela qual eu trocaria a Libertadores de 1999 e a sagrada Taça Rio de 1951, mais uns 15 Campeonatos Paulistas de lambuja, e minha única preocupação, agora, era cuidar para que a adrenalina, a endorfina e as outras inas não colocassem tudo a perder.

Nem curto muito esse lance de sexo na água, prefiro o ambiente seco com lubrificação natural, acho aquele tchof-tchof nada a ver, mas a ocasião era especial, e eu trouxe o rosto dela com as duas mãos para baixo do chuveiro e a beijei lenta e vigorosamente, me sentindo o homem mais feliz do mundo, como se cada célula minha – em especial as dos países baixos – batesse palmas diante da maior conquista da paróquia.

Meus braços estavam enrolados no pescoço dela, e os dela abraçavam minha cintura, meio que uma inversão do que seria natural, mas a posição demonstrava o quanto a queria, e nos próximos 90 minutos ela não se livraria de mim, ali, nem se o avião que errou o Pentágono entrasse naquele cômodo sem pedir licença.


 


Rogério Fischer Jornalista, palmeirense e cronista do rico cotidiano nacional
www.fischer-blogdofischer.blogspot.com




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