Parlament Square, 9 de dezembro de 2010. Data marcada pela brutalidade da polícia e displicência da imprensa. Era mais um protesto dos estudantes contra as medidas do governo para aumentar o teto da anuidade universitária no Reino Unido. A manifestação, que havia começado com uma passeata pacífica pelo centro de Londres, acabou como uma das mais violentas dentro de uma série que vem ocorrendo desde que foi anunciado o corte de 40% no orçamento para a educação em 2011.

Neste dia, mais uma vez a polícia utilizou da tática “kettle”, que consiste basicamente na contenção dos protestos numa área limitada. Assim que os 20 mil manifestantes chegaram em Parlament Square, todas as ruas de acesso foram fechadas. Ninguém saía nem entrava. O resultado foi que, além dos manifestantes, turistas - incluindo crianças de colo e idosos - foram encurralados por horas e horas numa área sem banheiros e sem água. Gente inocente exposta à violência e ao risco de vida.
Apesar da gravidade do ocorrido, com 33 prisões e mais de 50 feridos entre manifestantes e policiais - incluindo um estudante que foi submetido a uma cirurgia de emergência com múltiplas lesões cerebrais -, a imprensa local e internacional deu maior destaque ao incidente ocorrido com o príncipe Charles e a mulher, Camila. O carro que transportava o casal foi atacado por manifestantes que voltavam de Parlament Square após o fim das manifestações. A limusine teve uma das janelas quebradas, mas ninguém ficou ferido.
Lendo as notícias nos jornais do dia seguinte li frases do tipo:“E os manifestantes enfurecidos tomaram Parlament Sq”. Sensacionalismo? Acompanhei a passeata da área central até o Parlamento e não vi sequer um ato de hostilidade durante o trajeto. Lógico que sempre tem um grupo de crianças querendo se mostrar brincando com fogo e fazendo pose de revolucionários para as câmeras – mas completamente inofensíveis.
Os verdadeiros manifestantes se enfureceram quando se deram conta que mais uma vez estavam confinados na ‘kettle’, o que motivou o enfrentamento com a polícia. Eles apenas exigiam o direito de ir e vir assegurado por lei. Mas parece que nada disso foi mais importante do que as caras e bocas de Charles e Camila, imagem estampada nas primeira páginas do mundo. Ficam aí as imagens para reflexão.
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