Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Universo Paralelo
O diretor português Mário Patrocínio fala sobre o documentário que retrata o dia-a-dia dos moradores no Complexo do Alemão
Texto: Graham Douglas
Tradução: Adriana Martins
Fotos: Mário Patrocínio

Um dos locais mais violentos do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão ganhou as manchetes mundiais com a operação de guerra montada pelas polícias e as forças armadas brasileiras para a tomada do morro em novembro. Conhecida pela violência dos traficantes, a área onde vivem mais de 400 mil pessoas chamou a atenção do diretor português Mário Patrocínio. Durante anos, entre idas e vindas, ele e o irmão, Pedro, retrataram a vida dos moradores e produziram “Complexo: Universo Paralelo”, que ganhou o prêmio de melhor documentário na categoria de direitos humanos no festival Artivist, em Los Angeles, em dezembro.

Mário Patrocínio chegou ao Brasil em 2001, quando tinha 21 anos, para estudar arte dramática com o diretor da Rede Globo, Wolf Maya. Naquele momento, ele sentiu que o Brasil “estava sedento por mudanças”. Essa percepção o impulsionou a voltar depois ao país para viver uma experiência de imersão total. Em 2004, quando seu irmão, Pedro, iniciava a universidade no Rio, Mário chegou à cidade vindo de Paris, tendo estudado com Jack Waltzer, membro do The Actors Studio, que conviveu por muitos anos com os mais proeminentes diretores do Stanislavsky System nos Estados Unidos, incluindo Lee Strasberg, Stella Adler e Elia Kazan. (www.Jackwaltzer.com/about.html).


Nessa entrevista, Mário fala sobre sua fascinação pelo Brasil, que o levou a deixar a Europa para entrar nesse “universo paralelo”, onde a violência e o crime são presenças constantes. Mas também onde, em compensação, há mais calor humano e solidariedade do que em seu continente de origem. Sua formação e sua intensa curiosidade a respeito da vida lhe possibilitaram superar muitos obstáculos cinematográficos e o conduziram a algumas reflexões pessoais importantes.


O filme “Complexo: Universo Paralelo” foi exibido em outubro no festival anual de documentários Doc Lisboa (www.DocLisboa.org), pré-exibido em Los Angeles no dia 3 de dezembro, em Nova Iorque no dia 11 e em Londres no mesmo mês. A seguir, confira um resumo da entrevista exclusiva publicada no jornal bilíngue online The Prisma (www.theprisma.co.uk).



O que inicialmente o levou ao Brasil?

Mário Patrocínio - Todo português sonha um pouco com o Brasil. Nós estudamos muito sobre ele nas aulas de História, ouvimos música brasileira, assistimos novelas brasileiras.

Um local onde as regras são diferentes.

Patrocínio - OK, imagine que eu tenha vivido em Lisboa, Japão, Paris, Los Angeles e depois Rio ... o Rio maravilhoso .... E então você vai para o Complexo do Alemão, dentro de onde há um universo paralelo, onde os policiais não entram e dotado de uma economia também paralela. Então eu me perguntava: “Como isso é possível?” Se você for ao sul da cidade, vê a parte supostamente normal do Rio, onde as pessoas vivem como nós vivemos na Europa, ou melhor.

Tudo começou quando um ator amigo meu me chamou e disse: “Nós vamos dirigir um vídeo clipe para um cara no Complexo do Alemão, vamos todos juntos, o nome dele é MC Playboy.” Ele foi a pessoa que abriu as portas para a gente. Em 2004, depois de muitas pesquisa, estava me perguntando “O que eu vou dizer a respeito desse lugar? Como eu vou mostrá-lo em termos de fotografia, de movimentos de câmera? Eu não entendia muito de documentários, então tive que aprender sozinho. Em 2005 meu irmão e eu decidimos passar o Natal lá. Aqueles 5 dias representaram a experiência mais inacreditável justamente porque vivemos o período de festas natalinas. Eu sabia então que tudo que nós tínhamos experimentado no local não representava quase nada. Porque viver, dormir e acordar lá por alguns dias é que fariam a diferença.

Você pediu alguma proteção policial?

Patrocínio - Não, nós queríamos mostrar a visão interna da favela e ninguém vê a polícia dentro dela, a não ser que haja uma operação especial. Quando, ao término da mesma, ela se retira imediatamente.


Estou imaginando você tentando escapar dos tiroteios.

Patrocínio - Bem, quando uma operação se iniciava, a primeira coisa que fazíamos era nos deitarmos rapidamente no chão e depois levantávamos e corríamos.


Com a filmadora a postos?

Patrocínio - Filmadora? Nem passava pelas nossas cabeças filmar nada em momentos desses!


Não, OK. Mas e em relação a correr com equipamentos pesados durante os tiroteios?

Patrocínio - Ah, com a filmadora, com o tripé e iluminação, você se sente como um soldado com 20 quilos nas costas.


A mudança sempre vem de dentro.

Patrocínio - Não importa se você estiver no Complexo do Alemão ou em Tóquio, eu acredito que mudanças vêm de dentro. Mas o governo tem que agir ...


Não simplesmente entrando e matando pessoas.


Patrocínio - Exatamente. Nesse ano eu me senti diferente, porque eles estão fazendo esse Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o que tem representado muitas diferenças, que estão mudando a face das favelas. Tem muito trabalho sendo feito, então as pessoas têm tido a chance de ganhar seu próprio dinheiro. Mas... ainda existe a situação em que muitos estão ainda instalando TVs a cabo, enquanto que Dona Célia não tem nada para comer. Você tem que agir na educação, é a única solução.

Leia a entrevista completa no site www.theprisma.co.uk


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