"Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor
Vertigem visionária que não carece de seguidor."
Caetano Veloso
"Brasil amado não porque seja a minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas, amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir"
Mário de Andrade
O Brasil – apesar do montante de problemas acumulados ao longo da história e jamais "resolvidos", em especial a extrema desigualdade e o baixo nível educacional – mudou de patamar nos últimos 20 anos. Hoje, o país é reconhecido internacionalmente como uma vibrante democracia, com instituições sólidas, estabilidade política e desenvolvimento econômico. O que atesta essa vitalidade é justamente a capacidade de gerarmos riqueza e (termos começado a) distribuí-la, através de políticas públicas implantadas a partir da Constituição de 1988 e aprofundadas nas gestões FHC e principalmente Lula.
A Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 demonstram o reconhecimento internacional do novo patamar que o Brasil alcançou. Ter melhorado as condições de vida, internamente, e ganhado prestígio internacional, não significa que realizamos o futuro. Basta ver os estragos materiais e humanos ocasionados pelas águas de janeiro, cuja responsável, além da fúria da natureza, é a caótica ocupação do solo, marcada pela pobreza e a falta de planejamento (falta de Estado democrático, no seu sentido concreto, poderíamos dizer). Mas, apesar dos pesares, o país, em 2010, cresceu mais 7%, criando quase dois milhões e meio de empregos formais.
A sensação de realização, por um lado, e a consciência de nosso atraso, por outro, criam uma atmosfera na qual cabem imagens ufanistas ou o velho complexo de vira-latas. Duas misérias tolas e preguiçosas. A sociedade brasileira precisa assumir que há uma janela de oportunidades, que pode nos levar ao hall dos grandes países do mundo ou podemos simplesmente ficar para trás, o que aumenta a responsabilidade dos atores políticos, no governo e na oposição, nas empresas, nas universidades, nas associações de classes, em toda a sociedade civil.
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Podemos apontar três tendências de longo prazo que mudaram para melhor nos últimos anos e sugerem perspectivas promissoras, que serão ou não aproveitadas pelo país.
Demografia. O fim da explosão demográfica é um bônus que o país está colhendo, na medida em que a população economicamente ativa é percentualmente maior do que no passado. Se o número de alunos, por exemplo, não aumenta dramaticamente, torna-se possível aumentar os investimentos em educação, em termos per capita. Também se pode citar a queda vertiginosa no crescimento das grandes cidades como outro crédito importante, pois, se uma favela for urbanizada, não vai surgir outra ao lado, uma vez que a população já não cresce mais de modo explosivo, nem há mais estoques de população rural disposta a emigrar aos centros urbanos. De acordo com dados do último censo do IBGE, são as cidades médias as que mais crescem. O Nordeste deixou de ser um doador de migrantes, ao contrário, começa a atraí-los.
Energia. Não é possível o desenvolvimento – e, no limite, a própria vida – sem energia. Sob esse aspecto, o Brasil está em posição privilegiada. As descobertas do pré-sal, a estrutura e a pesquisa já desenvolvida em torno dos biocombustíveis (etanol de primeira e segunda geração, biodiesel de mamona, etc.) são apenas alguns exemplos que se podem citar. No Nordeste, a geração de energia eólica está se tornando realidade. No Norte, o potencial hídrico, ainda não desenvolvido ou em desenvolvimento (vide as duas grandes usinas em construção no Rio Madeira, em Rondônia) traz perspectivas animadoras, ao menos do ponto de vista econômico. A usina nuclear Angra III foi retomada (outra obra polêmica, pois ecologicamente problemática). Do ponto de vista ambiental é necessário equilíbrio e sustentabilidade. O que é fácil de dizer e difícil de fazer. O certo é que não faltará energia para o Brasil crescer, como já aconteceu no passado.
Alimentos. A abundância de água, sol e terras agricultáveis; a capacidade empreendedora dos agricultores brasileiros sejam pequenos ou grandes; a oferta de tecnologia para a agricultura tropical produzida pela Embrapa; mais a fome insaciável da China e da Índia, tornam o Brasil um grande produtor de grãos, carnes, açúcar e frutas. Mas temos problemas nessa área. O agronegócio é importante para o país, mas deve respeitar o meio ambiente e os direitos humanos. Foram representantes do agronegócio que assassinaram Chico Mendes e, mais recentemente, a irmã Dorothy, além de centenas de outros líderes populares, não só na Amazônia, mas no Brasil inteiro. O agronegócio é estratégico ao país, mas não podemos esquecer a pequena propriedade familiar, que produz comida e não commodities. De qualquer modo, o país vai continuar a bater recordes na produção agrícola, num mundo onde falta comida. Em função do enorme superávit comercial brasileiro nessa área (de modo relevante importamos apenas trigo), sobrarão dólares na economia.
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Temos, no entanto, um enorme problema a resolver. O fato de termos alimentos e minérios para vender – agora e ainda mais no futuro – contribui para o fortalecimento excessivo do real contra o dólar, dificultando as exportações industriais brasileiras. Países grandes, mas com população relativamente reduzida, como Argentina, Austrália e Canadá, não necessitam de uma cadeia industrial complexa para serem prósperos. Podem se especializar nos segmentos onde possuem vantagens comparativas. Não é o caso do Brasil. Com uma população de 195 milhões de habitantes, o que representa um contingente habitacional maior que a Argentina, a Austrália e o Canadá somados, estamos condenados a ter uma indústria complexa, que produza de aviões a produtos têxteis, de computadores a calçados, de plataformas petrolíferas a alimentos e bebidas. Isso não é uma imposição do orgulho nacional, ou qualquer veleidade dessa natureza, mas uma necessidade, na medida em que precisamos integrar ao mercado de trabalho uma legião de pessoas. Hoje o país precisa de trabalhadores qualificados – engenheiros, por exemplo –, e o índice de desemprego é o mais baixo da série histórica. Mas não podemos prescindir da indústria, uma das grandes conquistas ensejadas pela era Vargas, que contribuiu não apenas para o progresso material, mas também para a sofisticação política do país, na medida em que os trabalhadores urbanos entraram na cena política e social.
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O Brasil é um país de vocação planetária por múltiplas razões. Nossa população foi formada por europeus, africanos, ameríndios e asiáticos. Gente de todos os cantos da Terra convergiu para formar o Brasil. Tomando emprestada a expressão do mexicano José Vasconcelos Calderón, estamos formando uma "raça cósmica", orgulhosa de si, mas aberta ao mundo. Em termos econômicos e políticos, temos relações diplomáticas e comerciais com praticamente todos os países do mundo. Somos um global trader, pois mantemos fortes relações comerciais com as Américas, a União Europeia e a Ásia. Diferentemente do México, não somos dependentes do mercado norte-americano. Hoje, a China é o nosso maior parceiro comercial (o que demanda cuidados, pois quase só vendemos produtos primários – soja e minério de ferro, principalmente – e importamos produtos industriais), desbancando os Estados Unidos, que no começo do século desbancou a Inglaterra, que no começo do século XIX desbancou Portugal. Se sobrou iniqüidade e violência no processo de formação do Brasil, nunca nos faltou dinamismo econômico. A América portuguesa já era a maior produtora de açúcar do mundo em pleno século XVII, ainda nos primórdios do capitalismo.
No entanto, de todas as zonas do globo, a América do Sul é a área vital de nosso interesse, como o próprio Barão do Rio Branco, o fundador da moderna diplomacia brasileira, havia proposto. O Brasil, sozinho, representa em termos populacionais e territoriais, grosso modo, metade da América do Sul. Nosso PIB, não por coincidência, representa pouco mais de 50% da economia do subcontinente. Possuímos uma extensão territorial que nos garante fronteira com nove de nossos onze vizinhos.
A América do Sul é importante como consumidora de produtos industriais brasileiros, mas também como fornecedora de bens e serviços, e (dentro em breve) de trabalhadores. Países prósperos atraem pessoas e temos de estar prontos para isso, como já estivemos no passado, quando recebemos (entre 1880 e 1950) mais de 4,5 milhões de imigrantes. As plantas automobilistas argentinas e brasileiras já estão integradas. A Embraer tem parcerias com empresas argentinas e chilenas. Mas ainda falta muito, sobretudo em termos de integração física, econômica e cultural. Historicamente temos estado de costas para a América do Sul. Há mudanças em curso. Mas precisamos acelerar o movimento da história.
Por tudo isso, qualquer problema sul-americano é também um problema brasileiro. E não há qualquer possibilidade de integração cultural e econômica que não passe pelo Brasil, o que aumenta nossa responsabilidade com o continente. Temos de assumir nossa diferença cultural, linguística e histórica (para também respeitar a especificidade e diversidade alheia), bem como assumir nossa proximidade geográfica, cultural e emocional com o continente que nos hospeda.
Alberto L. Schneider é Doutor em História pela Unicamp. Foi Pesquisador Associado do Departamento de Português e Estudos Brasileiros do King’s College London. Atualmente é Professor de História do Brasil da Unicastelo (São Paulo)