Triste do país que precisa de heróis, disse o dramaturgo alemão Bertold Brecht em uma de suas peças teatrais em meados do século passado. Triste do país que precisa de oposição, deve estar pensando quem se preocupa minimamente com o Brasil, que vê lideranças hoje fora do poder se desmanchando como fumaça no ar.
O PSDB atualmente é apenas sombra do partido que dominou a cena política nacional durante o mandato tampão de Itamar Franco – após o impeachment de Collor – e nos oito anos de FHC. Ao ser derrotado por Lula em 2002, entrou – como se diz no jargão futebolístico – numa má fase. É derrota atrás de derrota.
Lula bateu Serra em 2002 e Alckmin em 2006. Agora, na eleição de 2010, além de novo revés de Serra frente a Lula, tucanos que lideraram a oposição durante os oito anos de governo petista simplesmente não se elegeram – entre eles, o então senador amazonense Arthur Virgílio. Agora, cai mais um cardeal do partido: o ainda senador Álvaro Dias.
Em trinta e tantos anos de vida pública, cujo auge foi a eleição para o governo do Paraná, em 1986, Álvaro, tirando uma coisinha aqui, outra ali, sempre teve o respeito dos próprios adversários. Cumpriu vários mandatos legislativos com relativo destaque, utilizando-se de sua experiência e, sobretudo, seu inegável poder de orador.
A grande mancha em seu currículo sempre foi a acusação – que ele nega peremptoriamente – de ter atiçado a polícia montada pra cima dos professores durante uma manifestação em Curitiba, em seu governo. Pois agora ele compromete a carreira ao entrar com pedido para receber aposentadoria como ex-governador. Pior: exigindo retroatividade, o que lhe renderia mais de R$ 1,4 milhão.
Claro que ele não é o único. Roberto Requião, que ficou no governo do Paraná nos últimos oito anos, embora tenha sido eleito senador, não perdeu tempo em requerer a aposentadoria, de R$ 24 mil. Orlando Pessuti, que o substituiu de abril a dezembro, fez o mesmo.
A diferença é que Álvaro sempre combatera essa mordomia – e agora caiu na vala comum, mesmo sabendo que, em 2007, o Supremo Tribunal Federal cassou privilégio de Zeca do PT no Mato Grosso do Sul.
Álvaro alegou que doaria o dinheiro para instituições de caridade – o que soou patético.
A própria Procuradoria-Geral do Paraná tratou de podar a pretensão dele: deu parecer para que a aposentadoria vitalícia de Álvaro seja cancelada. O argumento é de que o pedido foi feito fora do prazo legal de cinco após o término do mandato.
Ano passado, Álvaro forçou a barra para ser o candidato tucano ao governo do Paraná. Perdeu a indicação para Beto Richa, o vencedor, filho de José Richa, a quem sucedeu em 1986. Depois, forçou a barra para ser vice de José Serra na corrida presidencial. Perdeu novamente. Agora, com esse pedido de mordomia, que deve ser derrubado no STF, em ação proposta pela OAB, Álvaro Dias perde muito de seu cacife político.
Essa é a oposição que Dilma Rousseff pediria a Deus – se em Deus ela acreditasse. Com o consórcio DEM-PSDB enfraquecido, o único perigo para a presidente recém-empossada é o fogo amigo do PMDB, o partido que faz agora, no regime democrático, o papel adesista e fisiológico que a Arena desempenhou no regime militar.
No dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, Dilma aproveitou homenagem do Estado ao ex-vice José Alencar, que luta bravamente contra um câncer há 13 anos, para tecer loas ao prefeito Gilberto Kassab (DEM). A rasgação de seda foi interpretada como uma manobra da presidente para atrair Kassab – aliado dos tucanos – ao PMDB, carente de lideranças, em São Paulo, após a morte de Orestes Quércia.
Há quem diga que o PT apoiaria Kassab para o governo em 2014 para, enfim, arrancar o Palácio dos Bandeirantes do PSDB, que o governa há 16 anos – completará 20, com o mandato recém-adquirido por Geraldo Alckmin.
Pendurados na teta do Estado
Em todo o Brasil, mais de 60 ex-governadores estão pendurados na folha de pagamento dos Estados. Entre eles, o mineiro Aécio Neves – grande esperança tucana após as derrotas de Serra e Alckmin para Dilma e Lula – e dois políticos que foram cassados: Jackson Lago no Maranhão e Cássio Cunha Lima na Paraíba. Lago perdeu o mandato em 2009 por compra de votos – recebe atualmente R$ 24 mil de pensão. Cunha Lima deixou o governo no mesmo ano, sob acusação de abuso de poder político e econômico – leva, todo mês, R$ 12,8 mil dos cofres públicos.
E querem mais
No Piauí, são dez os ex-governadores que recebem pensão vitalícia. Além de Cássio Cunha Lima, o pai dele, Ronaldo, acusado de tentar matar um adversário político, também recebe. O grupo entrou com ação judicial para equiparar a benesse de R$ 12 mil ao salário de desembargadores, de R$ 26 mil.
Questão é o valor
Ex-ministro da Justiça, o novo governador gaúcho, Tarso Genro (PT), se diz a favor da pensão a ex-governadores, mas em patamares financeiros menores. Genro vai encaminhar projeto de lei à Assembleia estipulando um valor. Ele alega que ex-governadores têm direito a viver em "estatuto de classe média", sem depender de favores de ninguém. Diante de tanta polêmica, a OAB entrou com ação no STF, que dará a palavra final.