Existe muita confusão em relação ao
bilingüismo, mas isso não deve ser
encarado como um problema, pois
as crianças assimilam línguas de uma
forma natural e acabam por ser favorecidas
em relação àquelas que crescem
usando apenas uma língua materna.
Numa conversa interessante sobre este
mundo, a membro-fundadora da ABRIR,
Ana Souza, explicou o que muitos se
questionam: Meu filho terá problemas
de aprendizado? E como isso funciona na
cabecinha deles? É preciso encaminhálos
a uma psicóloga?
Com a palavra, Ana Souza:
“A mãe fala com a criança em
português, é a língua da mãe. O pai fala
diferente – inglês ou uma terceira língua
– é a língua do pai. Para a criança isso
tudo é normal, ela não sente como um
idioma só. Com menos de dois anos, ela
já sabe dizer que a mãe fala uma coisa e
o pai outra. Ela pode até não dizer que
isso é português ou inglês, mas sabe que
a mãe usa um código e o pai, outro. É
possível observar a criança falar uma
língua, virar para a outra pessoa e falar
a outra língua. Às vezes pode acontecer
da criança demorar mais para falar em
relação àquela que só fala um idioma,
mas isso também não é um problema. É
simplesmente que ela está processando
mais informações, mais códigos.
Outro momento importante ocorre
quando a criança começa a ir à escola.
Ela vai perceber que o inglês é mais falado,
então a importância da informação
dos pais em entender que ela precisará
de um esforço maior para continuar a
falar português. Portanto, os pais têm
que levá-los para conversar com outras
crianças em português, para festinhas,
para o Brasil com freqüência, assim
como ter livros em português em casa,
vídeo, tudo o que puderem para manter
a língua presente.
É preciso também entender que
a alfabetização em português é importante.
Alguns pais pensam que as
crianças aprenderão por osmose, e isso
não acontece. Eles podem até entender
o que você fala, mas aprender a falar
e a escrever é essencial para garantir o
acesso dessas crianças a vários aspectos
culturais, assim como para garantir
que o português não seja colocado em
segundo plano.
A alfabetização em português pode
ser feita ao mesmo tempo que em
inglês. Como falado acima, a criança
entende que os códigos são diferentes
desde muito cedo. A mistura das duas
línguas por vezes acontece, mas não é
um problema. Na verdade, toda criança
bilíngüe está em vantagem em relação às
monolíngües em termos cognitivos, de
criatividade e flexibilidade de adaptação
a culturas diferentes.
Nas atividades educativas da escola,
por exemplo, as crianças falam perfeitamente
o português, aí quando viram
para brincar com o colega, o fazem em
inglês, porque a identidade dela com
o amigo é a de fazer parte do grupo
dele, afinal eles falam inglês. A língua,
portanto, é mais uma coisa que entra
em negociação com a criança.
Algumas crianças podem precisar
de apoio psicológico por algum motivo
ou outro, mas não é o fato de falar duas
ou mais línguas que causa problemas.
Antigamente dizia-se que o bilíngüe ou
poliglota tinha dupla personalidade, mas
não é isso. Deve-se entender que a cultura
em que uma língua é usada difere
de outras. Às vezes a gente não percebe,
mas mudamos um pouco de comportamento
quando falamos uma língua
ou outra. “Você se adapta à cultura da
língua, e a criança também.”