"Half Brazilian, half English (metade brasileiros, metade ingleses)”.
É como os gêmeos de 6 anos, Maya e Luca se definiram
quando questionados pela reportagem da Real sobre suas
origens. Eles nasceram na Inglaterra, filhos de pai inglês e mãe
brasileira. Desde cedo tiveram contato com o Brasil e com a língua
portuguesa. “Quando eles nasceram eu decidi criá-los bilíngües”,
conta a mãe, Iane Curi, 40, que é de Florianópolis (SC). Segundo
ela, os gêmeos chegaram a morar durante um tempo no Brasil e até
freqüentaram a pré-escola durante um mês, mas os pais optaram por
criá-los na Inglaterra.
“No Brasil é muito quente, tem praias, sol, sorvete”, escreveram
Maya e Luca. Eles já visitaram o país cinco vezes e contaram que
sentem saudades dos primos e amigos que fizeram por lá. Apesar de
saberem falar português, as crianças quiseram dar entrevista em inglês.
“Eles tiveram uma babá brasileira, que não falava inglês, durante
quatro anos. Então a Maya e o Luca eram fluentes no português.
Mas depois que ela foi embora, em maio desse ano, eles não querem
mais falar português. Acho que pode ser algum trauma emocional,
eles sentem muita falta dela”, explica a mãe.
“Já faz um ano que não vamos ao Brasil. Geralmente vamos de
férias e passamos cerca de seis semanas lá”, diz Iane. Segundo ela, os
gêmeos nunca freqüentaram aulas de português, mas ela tem muita
vontade que eles estudem. “Eu estou sempre viajando por causa do
meu trabalho, então dificulta um pouco”, justifica. Apesar do esforço
da mãe para preservar a língua e a cultura brasileira, as crianças
se mostram cada vez mais distantes. “Eu os acordo todos os dias em
português, mas eles só respondem em inglês. Quando encontram
com outras crianças brasileiras aqui em Londres, eles também não
falam português”, lamenta Iane (foto acima, com a família).
Boas lembranças do Brasil
Praia, mar, calor, água de coco, biscoito de polvilho e paçoca.
É o que Jasmin, 6, e Camila, 3, lembram quando pensam no
Brasil. A mãe das meninas, a brasileira Adriana Rouanet (foto
acima), também quis que elas aprendessem português e inglês.
“O pai delas é indiano, nascido na Inglaterra, e, diferente de
mim, não estimula muito a sua cultura”, contou. Segundo ela,
Jasmin já foi ao Brasil oito vezes, mas nunca visitou a Índia.
Adriana disse que a filha mais velha já sabe distinguir quando
encontra um brasileiro em Londres. “Quando isso acontece,
ela começa a falar em português, quer se exibir e mostrar que
ela sabe falar a língua. Mas no dia-a-dia a tendência é as duas
conversarem em inglês”, afirma. Para a mãe, é muito importante
insistir para que a criança fale português. “Eu penso que se eu
não insistir para que elas aprendam a língua e a cultura, talvez
elas não procurem o Brasil no futuro”, explica.
Jasmin já freqüentou uma escolinha para brasileiros em
Londres que oferecia aulas de português. “Ela adorava a
escolinha, eles faziam teatro, contavam histórias do folclore,
cantavam músicas. Mas a escola fechou esse ano”, conta
Adriana. Mas para não perderem o ritmo, todos os domingos
Adriana e as crianças dão aulas de português para o
pai. “As meninas o ensinam e, com isso, praticam também.
É uma brincadeira, um joguinho. Tem que ser feito com naturalidade,
não adianta forçar para que elas aprendam, basta
incentivar”. Além das aulas em casa, Adriana disse que
procura ler histórias em português para as filhas e as leva a
espetáculos brasileiros aqui na Inglaterra.
De pele morena e traços marcantes, Jasmin reconhece que é
diferente das amiguinhas inglesas da escola. “Sou indiana e brasileira”,
diz a pequena, quando questionada sobre sua nacionalidade.
Além das guloseimas tipicamente brasileiras e das boas recordações
dos dias ensolarados de praia, Jasmin afirmou ter saudades dos avós
e primos, diz que gosta de ser brasileira e que “ficaria contente de
morar na terra da mamãe”.
Português em casa
Num papo informal, chá das cinco, Janaína Vieira, mãe de Arthur,
6 anos, e Simone Giorgio, mãe de Ambrosio, 5, contaram um
pouco de sua experiência por aqui. Elas moram no norte de Londres
há anos e não têm fácil acesso à escola de português. Por isso, os
meninos não estudam a língua. “Desde que ele nasceu, eu falo só
português. A assimilação da língua para ele foi difícil, ele demorou
um pouco para falar, porque são três línguas. Ele entende português,
mas responde em inglês”, conta Simone sobre a dificuldade de Ambrosio
(na foto ao lado com a irmã Vitória), nascido na Inglaterra,
filho de pai grego e que frequenta a escola grega.
Já para Arthur as coisas foram um pouco mais fáceis. Ele fala
português e inglês muito bem, conta histórias divertidas e aventuras
da escola, mas diz não querer estudar português e lembra-se muito
pouco do Brasil, país que deixou há dois anos. “Tento ensinar o
máximo da cultura, minha mãe também fala muito com ele por telefone
e explica sobre os feriados, o que está acontecendo. Músicas,
brincadeiras, tentamos aproximar tudo dele. Ele só fala português,
não é alfabetizado, mas não quero que perca a raiz. Um dia será
natural, pois todos somos brasileiros”, afirma Janaína (foto acima).
Pai brasileiro e mãe inglesa
Júlio faz parte do percentual de 1% a 2% de homens brasileiros
casados com inglesas, pois a gritante maioria dos casais binacionais
envolvendo brasileiros é de mulher brasileira casada com estrangeiro.
Pai de Elis, 10, e Sophia, 6, ele mora há 20 anos na Inglaterra,
leva as filhas regularmente no BrEACC e fala da importância do
aprendizado da língua portuguesa.
“Desde que nasceram eu não falo nenhuma palavra em inglês,
mas elas respondem em inglês. Há algum tempo começaram a
vir para o BrEACC e aprendem muitas coisas, que sozinho eu não
lembraria. A Elis, até 5 anos, falava comigo só em português, mas
quando começa ir à escola, o inglês fica mais importante. Quando
vinha da escola, ela contava tudo à mãe em inglês e quando virava
para mim, falava muito mais resumido, porque faltava vocabulário.
Já a Sophia faz seis meses que decidiu responder em português. Ela
adora vir para cá (BrEACC), mas a maior já reluta um pouco, talvez
pela idade.”
"Eles serão bilíngues sem perceber"
Carlos e Carla Silveira são brasileiros, mas tiveram os dois
filhos, Luisa, 8, e Pedro, 3 anos e meio, na Inglaterra. A mãe
conta a experiência do pequeno mundo bilíngüe de sua casa.
“Para a Luisa o inglês é mais fácil, porque ela vai à escola,
mas ela é muito orgulhosa de ser brasileira, fica até brava
quando dizem que é inglesa. A gente tem um pouco de dificuldade
para manter (o português em casa), porque tudo em
volta é em inglês. Eu mesma cometo o grande erro de misturar
as línguas. O Pedro, no entanto, ficou um bom tempo no
Brasil, desenvolveu muito mais (a língua) e mistura menos.
Se ele está falando com a gente em português, ele responde
em português, mas talvez porque ainda não vá à escola. E é
muito interessante como ele troca de uma língua para outra
sem problemas. Eu acho que no começo pode surgir uma
confusão na cabeça deles, mas a longo prazo será fantástico,
eles serão bilíngües sem perceber.”
Mães inglesas, filhas brasileiras
Louise McGratt, mãe de Sophia, 6, e Laura, mãe de Eva, 2 anos
e meio, são inglesas, talvez não se conheçam, mas têm algo em
comum: filhas brasileiras. Louise fala fluente português, pois morou
no Brasil com sua filha. Agora, na Inglaterra, tenta manter viva a
cultura brasileira e a língua na vida de Sophia. Já Laura, que não fala
português, teve sua filha e veio morar aqui. Começou a freqüentar o
BrEACC para adquirir o máximo possível da cultura brasileira, pois
está com as malas prontas para ir morar no Brasil.
“Eu amo a cultura brasileira e acho que ela terá um estilo de vida
muito melhor lá. A cultura de vocês é mais para criança, família, é
muito humana, e eu penso que este é o melhor para ela. Ela é pequena
e pode ter essa experiência maravilhosa. Agora ela fala inglês
e um pouco de português, por causa da escola. As mães daqui têm
sido tão formidáveis me dando conselhos sobre onde ir, o que fazer
no Brasil, porque eu sou européia. Eu sei que parece estranho, mas
quero que ela tenha liberdade com as outras pessoas e famílias, sair
para a rua. Não quero que ela fale só inglês, mas falarei com ela em
casa. Será o oposto das mães daqui”, explica Laura, que vai morar no
interior de São Paulo.
Português de Portugal
No caso de Marco, 7 anos, os pais Nara e Mauro Vettori optaram
por levá-lo à escola que ensina português europeu porque a escola
brasileira era muito longe e, de acordo com a família, caso voltem
ao Brasil a equivalência da língua portuguesa é garantida.
Nara explica que a família sempre falou português em casa,
mas quando o filho começou ir à escola, só queria falar inglês.
“Acho que vai dos pais, lá em casa eu e o Mauro não deixamos.
Com a gente tem que falar português e dessa forma ele manteve. Até
comentaram numa festa que fomos, que com todos ele falava inglês,
mas quando virava para mim falava em português. Esta é a língua
materna, ele tem que falar, pois é a forma como se comunicará com
a família ou comigo, é a minha língua.”
Muito articulado e com o português na ponta da língua, Marco
(foto acima) conta como é sua rotina na escola. “Eu vou duas vezes
por semana na escola de português lá em Camden Town. Eu aprendo
só português, leio e tenho dois livros de lição de casa. Português
é bem fácil, eu aprendi a escrever agora. Lá eles falam português
de Portugal, banheiro é casa de banho, mas eu sei os dois. Eu gosto
porque tem muitas coisas para fazer, mas não é difícil e eu quero
morar no Brasil, porque tem praia”, decreta.