Terça-Feira, 07 de Fevereiro de 2012







Página inicial | Assine a REAL | Anuncie conosco | Receba a Newsletter   
InícioEspeciaisPersonagens de um mundo bilingüe (Parte 2)  
Personagens de um mundo bilíngue
Eles estão por toda a parte da cidade. E falam inglês. O português está presente de alguma forma em suas vidas, apesar de algumas crianças não conhecerem ou não lembrarem do Brasil. A Real ouviu filhos (e pais) que fazem parte desse universo anglo-brasileiro em Londres
Amanda de Santa e Carol Morandini
Fotos: Rafael Reina e arquivos pessoais
Dezembro - 08

"Half Brazilian, half English (metade brasileiros, metade ingleses)”.
É como os gêmeos de 6 anos, Maya e Luca se definiram
quando questionados pela reportagem da Real sobre suas
origens. Eles nasceram na Inglaterra, filhos de pai inglês e mãe brasileira. Desde cedo tiveram contato com o Brasil e com a língua portuguesa. “Quando eles nasceram eu decidi criá-los bilíngües”, conta a mãe, Iane Curi, 40, que é de Florianópolis (SC). Segundo ela, os gêmeos chegaram a morar durante um tempo no Brasil e até freqüentaram a pré-escola durante um mês, mas os pais optaram por criá-los na Inglaterra.
“No Brasil é muito quente, tem praias, sol, sorvete”, escreveram
Maya e Luca. Eles já visitaram o país cinco vezes e contaram que sentem saudades dos primos e amigos que fizeram por lá. Apesar de saberem falar português, as crianças quiseram dar entrevista em inglês.
“Eles tiveram uma babá brasileira, que não falava inglês, durante quatro anos. Então a Maya e o Luca eram fluentes no português.
Mas depois que ela foi embora, em maio desse ano, eles não querem mais falar português. Acho que pode ser algum trauma emocional, eles sentem muita falta dela”, explica a mãe.
“Já faz um ano que não vamos ao Brasil. Geralmente vamos de férias e passamos cerca de seis semanas lá”, diz Iane. Segundo ela, os gêmeos nunca freqüentaram aulas de português, mas ela tem muita vontade que eles estudem. “Eu estou sempre viajando por causa do meu trabalho, então dificulta um pouco”, justifica. Apesar do esforço da mãe para preservar a língua e a cultura brasileira, as crianças se mostram cada vez mais distantes. “Eu os acordo todos os dias em português, mas eles só respondem em inglês. Quando encontram com outras crianças brasileiras aqui em Londres, eles também não falam português”, lamenta Iane (foto acima, com a família).

Boas lembranças do Brasil
Praia, mar, calor, água de coco, biscoito de polvilho e paçoca. É o que Jasmin, 6, e Camila, 3, lembram quando pensam no
Brasil. A mãe das meninas, a brasileira Adriana Rouanet (foto acima), também quis que elas aprendessem português e inglês. “O pai delas é indiano, nascido na Inglaterra, e, diferente de mim, não estimula muito a sua cultura”, contou. Segundo ela, Jasmin já foi ao Brasil oito vezes, mas nunca visitou a Índia.

Adriana disse que a filha mais velha já sabe distinguir quando encontra um brasileiro em Londres. “Quando isso acontece,
ela começa a falar em português, quer se exibir e mostrar que ela sabe falar a língua. Mas no dia-a-dia a tendência é as duas conversarem em inglês”, afirma. Para a mãe, é muito importante insistir para que a criança fale português. “Eu penso que se eu não insistir para que elas aprendam a língua e a cultura, talvez elas não procurem o Brasil no futuro”, explica.
Jasmin já freqüentou uma escolinha para brasileiros em Londres que oferecia aulas de português. “Ela adorava a
escolinha, eles faziam teatro, contavam histórias do folclore, cantavam músicas. Mas a escola fechou esse ano”, conta
Adriana. Mas para não perderem o ritmo, todos os domingos Adriana e as crianças dão aulas de português para o
pai. “As meninas o ensinam e, com isso, praticam também.

É uma brincadeira, um joguinho. Tem que ser feito com naturalidade, não adianta forçar para que elas aprendam, basta
incentivar”. Além das aulas em casa, Adriana disse que procura ler histórias em português para as filhas e as leva a
espetáculos brasileiros aqui na Inglaterra.

De pele morena e traços marcantes, Jasmin reconhece que é diferente das amiguinhas inglesas da escola. “Sou indiana e brasileira”, diz a pequena, quando questionada sobre sua nacionalidade.
Além das guloseimas tipicamente brasileiras e das boas recordações dos dias ensolarados de praia, Jasmin afirmou ter saudades dos avós e primos, diz que gosta de ser brasileira e que “ficaria contente de morar na terra da mamãe”.

Português em casa
Num papo informal, chá das cinco, Janaína Vieira, mãe de Arthur, 6 anos, e Simone Giorgio, mãe de Ambrosio, 5, contaram um pouco de sua experiência por aqui. Elas moram no norte de Londres há anos e não têm fácil acesso à escola de português. Por isso, os meninos não estudam a língua. “Desde que ele nasceu, eu falo só
português. A assimilação da língua para ele foi difícil, ele demorou um pouco para falar, porque são três línguas. Ele entende português, mas responde em inglês”, conta Simone sobre a dificuldade de Ambrosio (na foto ao lado com a irmã Vitória), nascido na Inglaterra, filho de pai grego e que frequenta a escola grega.
Já para Arthur as coisas foram um pouco mais fáceis. Ele fala português e inglês muito bem, conta histórias divertidas e aventuras da escola, mas diz não querer estudar português e lembra-se muito pouco do Brasil, país que deixou há dois anos. “Tento ensinar o máximo da cultura, minha mãe também fala muito com ele por telefone e explica sobre os feriados, o que está acontecendo. Músicas, brincadeiras, tentamos aproximar tudo dele. Ele só fala português,
não é alfabetizado, mas não quero que perca a raiz. Um dia será natural, pois todos somos brasileiros”, afirma Janaína (foto acima).

Pai brasileiro e mãe inglesa
Júlio faz parte do percentual de 1% a 2% de homens brasileiros casados com inglesas, pois a gritante maioria dos casais binacionais envolvendo brasileiros é de mulher brasileira casada com estrangeiro.
Pai de Elis, 10, e Sophia, 6, ele mora há 20 anos na Inglaterra, leva as filhas regularmente no BrEACC e fala da importância do aprendizado da língua portuguesa.
“Desde que nasceram eu não falo nenhuma palavra em inglês, mas elas respondem em inglês. Há algum tempo começaram a vir para o BrEACC e aprendem muitas coisas, que sozinho eu não lembraria. A Elis, até 5 anos, falava comigo só em português, mas quando começa ir à escola, o inglês fica mais importante. Quando vinha da escola, ela contava tudo à mãe em inglês e quando virava para mim, falava muito mais resumido, porque faltava vocabulário.
Já a Sophia faz seis meses que decidiu responder em português. Ela adora vir para cá (BrEACC), mas a maior já reluta um pouco, talvez pela idade.”

"Eles serão bilíngues sem perceber"
Carlos e Carla Silveira são brasileiros, mas tiveram os dois filhos, Luisa, 8, e Pedro, 3 anos e meio, na Inglaterra. A mãe
conta a experiência do pequeno mundo bilíngüe de sua casa. “Para a Luisa o inglês é mais fácil, porque ela vai à escola,
mas ela é muito orgulhosa de ser brasileira, fica até brava quando dizem que é inglesa. A gente tem um pouco de dificuldade para manter (o português em casa), porque tudo em volta é em inglês. Eu mesma cometo o grande erro de misturar as línguas. O Pedro, no entanto, ficou um bom tempo no Brasil, desenvolveu muito mais (a língua) e mistura menos.

Se ele está falando com a gente em português, ele responde em português, mas talvez porque ainda não vá à escola. E é
muito interessante como ele troca de uma língua para outra sem problemas. Eu acho que no começo pode surgir uma
confusão na cabeça deles, mas a longo prazo será fantástico, eles serão bilíngües sem perceber.”

Mães inglesas, filhas brasileiras
Louise McGratt, mãe de Sophia, 6, e Laura, mãe de Eva, 2 anos e meio, são inglesas, talvez não se conheçam, mas têm algo em comum: filhas brasileiras. Louise fala fluente português, pois morou no Brasil com sua filha. Agora, na Inglaterra, tenta manter viva a cultura brasileira e a língua na vida de Sophia. Já Laura, que não fala português, teve sua filha e veio morar aqui. Começou a freqüentar o BrEACC para adquirir o máximo possível da cultura brasileira, pois está com as malas prontas para ir morar no Brasil.

“Eu amo a cultura brasileira e acho que ela terá um estilo de vida muito melhor lá. A cultura de vocês é mais para criança, família, é muito humana, e eu penso que este é o melhor para ela. Ela é pequena e pode ter essa experiência maravilhosa. Agora ela fala inglês e um pouco de português, por causa da escola. As mães daqui têm sido tão formidáveis me dando conselhos sobre onde ir, o que fazer no Brasil, porque eu sou européia. Eu sei que parece estranho, mas quero que ela tenha liberdade com as outras pessoas e famílias, sair para a rua. Não quero que ela fale só inglês, mas falarei com ela em casa. Será o oposto das mães daqui”, explica Laura, que vai morar no interior de São Paulo.

Português de Portugal
No caso de Marco, 7 anos, os pais Nara e Mauro Vettori optaram por levá-lo à escola que ensina português europeu porque a escola brasileira era muito longe e, de acordo com a família, caso voltem
ao Brasil a equivalência da língua portuguesa é garantida.
Nara explica que a família sempre falou português em casa, mas quando o filho começou ir à escola, só queria falar inglês.
“Acho que vai dos pais, lá em casa eu e o Mauro não deixamos. Com a gente tem que falar português e dessa forma ele manteve. Até comentaram numa festa que fomos, que com todos ele falava inglês, mas quando virava para mim falava em português. Esta é a língua materna, ele tem que falar, pois é a forma como se comunicará com
a família ou comigo, é a minha língua.”

Muito articulado e com o português na ponta da língua, Marco (foto acima) conta como é sua rotina na escola. “Eu vou duas vezes por semana na escola de português lá em Camden Town. Eu aprendo só português, leio e tenho dois livros de lição de casa. Português é bem fácil, eu aprendi a escrever agora. Lá eles falam português de Portugal, banheiro é casa de banho, mas eu sei os dois. Eu gosto porque tem muitas coisas para fazer, mas não é difícil e eu quero morar no Brasil, porque tem praia”, decreta.


Parte 1 - Educando a nova geração
Parte 2 - Personagens de um mundo bilíngue
Parte 3 - O desafio da integração
Parte 4 - Palavra da especialista 
Edição
Jan /12
Clique aqui!








© Copyright 2009 Revista REAL. Todos os direitos reservados.