Terça-Feira, 07 de Fevereiro de 2012







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Educando a nova geração
Como manter a língua portuguesa viva na vida dos brasileirinhos que nasceram aqui ou se mudaram cedo para o país e crescem convivendo com a cultura inglesa? A Real mostra como os pais podem conservar as raízes brasileiras dessa garotada
Por Carol Morandini
Dezembro - 08

A onda migratória brasileira continua chegando ao Reino Unido
e é comum que os novos moradores passem por um período
de adaptação. Aos casais que se mudam com filhos ou decidem aumentar a família depois de se estabelecer por aqui, surgem novos desafios. Como conciliar os afazeres diários sem deixar de dar atenção às questões fundamentais relacionadas às crianças, que têm que aprender desde cedo a ser bilíngües? Como manter as raízes com o Brasil? E o ensino da língua portuguesa aos pequenos? A Real ouviu
pessoas ligadas a instituições que ensinam a língua pátria ou que prestam serviços à comunidade, conversou com pais e crianças e aborda os diferentes aspectos do tema nessa matéria especial.

De acordo com estatísticas do Consulado Brasileiro e da Metropolitan Police, de 160 mil a 200 mil brasileiros moram em Londres.
Se é possível estimar um número aproximado da população brasileira na capital londrina, é impossível saber quantas crianças vivem aqui ou quantas delas vão à escola. Primeiro porque os brasileiros que se mudam para cá geralmente não se cadastram no Consulado, e, segundo, uma grande parte tenta viver no anonimato por estar em situação ilegal no país.
Aos pais que ficam perdidos em meio às questões educacionais dos filhos, independentemente de sua situação imigratória, o importante é, assim que surgir uma dúvida, procurar umas das instituições brasileiras em Londres que fornecem auxílio e acompanhamento. São os casos da ABRAS (Associação Brasileira no Reino Unido), da ABRIR (Associação Brasileira de Iniciativas Educacionais no Reino Unido) e do BrEACC (Brazilian Educational and Cultural Centre).

Apesar do tema imigração ser o carro-chefe das procuras pela ABRAS, assuntos relacionados às crianças também constam dos serviços prestados pela associação: problemas educacionais, benefícios, assistência social, saúde, bullying (intimidação e humilhação provocadas por outros), diferenças culturais e auxílio psicológico, quando se julga necessário.

Segundo o presidente da ABRAS, Carlos Mellinger, é importante que os pais cultuem, junto aos filhos, os laços com o Brasil. “É importantíssimo, porque eu tenho certeza que a maioria ainda tem o coração verde e amarelo, e as crianças de certa forma são contagiadas por isso. Se a gente considerar que o Brasil é um país emergente, e que um dia pode oferecer melhores condições, existe a possibilidade da volta. Por isso, o aprendizado em português é essencial, não só pelas razões culturais e emocionais, mas pelas questões práticas de futuro que podem ser benéficas.”

BrEACC é referência
Fundado em 1997 por um grupo de mães, o BrEACC é a única instituição que continua em atividade em Londres trabalhando no ensino da língua portuguesa aos filhos de brasileiros. Como conta Regina Mester Martins da Rosa, presidente do BrEACC, “a instituição passou por inúmeras dificuldades, mas sempre foi mantida com amor por todos os voluntários”. A escola está dividida em três classes:
Cante e Brinque – para crianças de 2 a 5 anos, Estágio 1 – para crianças de 5 a 8 anos, e Estágio 2 – para alunos de 8 a 12 anos. As aulas são ministradas aos sábados de manhã na St. James Catholic Primary School, em Twickenham, e contam com cerca de 40 alunos.

Lá as crianças cantam, contam histórias, conhecem a cultura do Brasil, desenham e aprendem a ler e escrever em português.
“Queremos montar mais salas de aula em outras partes de Londres, mas a gente precisa realmente de voluntários, com
um comitê firme, que se comprometa a trabalhar. É preciso de alguém que tome conta do local, sem pagamento no início, e que esteja sempre lá. A gente paga os professores, o aluguel da classe, Library Insurance e o armazém do BrEACC. Tudo é muito difícil, mas conseguimos”, salienta Regina.

O BrEACC recebe ajuda da ABRIR na formação de seu currículo e do material didático usado nas aulas com a garotada. “Não existe material específico para o ensino de português para as crianças de famílias brasileiras/anglo-brasileiras que crescem no exterior. Existe um material interessante produzido no Brasil, mas o público-alvo é a faixa etária de 13 anos em diante. Já o material encontrado na Inglaterra é produzido com o uso de português europeu”, afirma Ana Souza, PhD em Sociolinguística e membro-fundadora da ABRIR. “Na verdade, há necessidade de se criar material didático que responda às necessidades das crianças expostas a pelo menos duas línguas e duas culturas diferentes. O projeto sendo desenvolvido com o BrEACC tem como objetivo lidar com este contexto”, complementa Ana Souza.

Orientação sobre bilinguismo
Criada em 2006, a ABRIR é formada por colaboradores e voluntários e surgiu como uma associação que oferece serviço, informação e auxílio a escolas, grupos, professores e, principalmente, orientação sobre bilingüismo. “A Abrir é virtual, nós temos uma página na internet com dicas e orientações, estamos criando também um banco de dados de professores de português e inglês. O registro é gratuito e as pessoas podem esclarecer suas dúvidas mandando emails ou participando do nosso fórum”, explica Ana Souza.

Todos os serviços são gratuitos e disponíveis virtualmente no endereço www.abrir.org.uk. O acesso é gratuito, mas exige um cadastro para que haja um controle sobre o número de usuários. No dia 4 de novembro, a associação foi reconhecida oficialmente durante a inauguração da nova sede do Consulado Brasileiro em Londres.

Para os brasileiros que têm cidadania européia, outra opção no ensino da língua aos filhos é procurar o Consulado de Portugal, que oferece cursos, gratuitamente, às crianças a partir de 7 anos. No próprio site (www.consuladovirtual.pt/web/londres) é possível baixar um formulário com o pedido de vaga. Após analisado, o Consulado encaminha a criança à escola. Deve-se notar, no entanto, que o português ensinado será o de Portugal.

O Consulado Brasileiro e a Embaixada Brasileira em Londres não oferecem esse serviço, porque ele não está previsto na Constituição. “Criar escolas não é função deles (Consulado e Embaixada), o que deveria haver é um incentivo do Ministério de Educação brasileiro em apoiar as organizações que trabalham em prol disso”, defende Carlos Mellinger. “Está na hora do governo acordar e apoiar de fato as organizações sérias, oferecendo condições para a gente crescer e ajudar as crianças. Não tem sentido o nosso próprio governo não apoiar”, opina.


Parte 1 - Educando a nova geração
Parte 2 - Personagens de um mundo bilíngue
Parte 3 - O desafio da integração
Parte 4 - Palavra da especialista 
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Jan /12
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