A onda migratória brasileira continua chegando ao Reino Unido
e é comum que os novos moradores passem por um período
de adaptação. Aos casais que se mudam com filhos ou decidem
aumentar a família depois de se estabelecer por aqui, surgem novos
desafios. Como conciliar os afazeres diários sem deixar de dar atenção
às questões fundamentais relacionadas às crianças, que têm que
aprender desde cedo a ser bilíngües? Como manter as raízes com o
Brasil? E o ensino da língua portuguesa aos pequenos? A Real ouviu
pessoas ligadas a instituições que ensinam a língua pátria ou que
prestam serviços à comunidade, conversou com pais e crianças e
aborda os diferentes aspectos do tema nessa matéria especial.
De acordo com estatísticas do Consulado Brasileiro e da Metropolitan
Police, de 160 mil a 200 mil brasileiros moram em Londres.
Se é possível estimar um número aproximado da população
brasileira na capital londrina, é impossível saber quantas crianças
vivem aqui ou quantas delas vão à escola. Primeiro porque os
brasileiros que se mudam para cá geralmente não se cadastram no
Consulado, e, segundo, uma grande parte tenta viver no anonimato
por estar em situação ilegal no país.
Aos pais que ficam perdidos em meio às questões educacionais
dos filhos, independentemente de sua situação imigratória,
o importante é, assim que surgir uma dúvida, procurar umas
das instituições brasileiras em Londres que fornecem auxílio e
acompanhamento. São os casos da ABRAS (Associação Brasileira
no Reino Unido), da ABRIR (Associação Brasileira de Iniciativas
Educacionais no Reino Unido) e do BrEACC (Brazilian Educational
and Cultural Centre).
Apesar do tema imigração ser o carro-chefe das procuras pela
ABRAS, assuntos relacionados às crianças também constam dos
serviços prestados pela associação: problemas educacionais, benefícios,
assistência social, saúde, bullying (intimidação e humilhação
provocadas por outros), diferenças culturais e auxílio psicológico,
quando se julga necessário.
Segundo o presidente da ABRAS, Carlos Mellinger, é importante
que os pais cultuem, junto aos filhos, os laços com o Brasil. “É
importantíssimo, porque eu tenho certeza que a maioria ainda tem o
coração verde e amarelo, e as crianças de certa forma são contagiadas
por isso. Se a gente considerar que o Brasil é um país emergente, e
que um dia pode oferecer melhores condições, existe a possibilidade
da volta. Por isso, o aprendizado em português é essencial, não só
pelas razões culturais e emocionais, mas pelas questões práticas de
futuro que podem ser benéficas.”
BrEACC é referência
Fundado em 1997 por um grupo de mães, o BrEACC é a única
instituição que continua em atividade em Londres trabalhando no
ensino da língua portuguesa aos filhos de brasileiros. Como conta
Regina Mester Martins da Rosa, presidente do BrEACC, “a instituição
passou por inúmeras dificuldades, mas sempre foi mantida com
amor por todos os voluntários”. A escola está dividida em três classes:
Cante e Brinque – para crianças de 2 a 5 anos, Estágio 1 – para
crianças de 5 a 8 anos, e Estágio 2 – para alunos de 8 a 12 anos. As
aulas são ministradas aos sábados de manhã na St. James Catholic
Primary School, em Twickenham, e contam com cerca de 40 alunos.
Lá as crianças cantam, contam histórias, conhecem a cultura
do Brasil, desenham e aprendem a ler e escrever em português.
“Queremos montar mais salas de aula em outras partes
de Londres, mas a gente precisa realmente de voluntários, com
um comitê firme, que se comprometa a trabalhar. É preciso de
alguém que tome conta do local, sem pagamento no início, e que
esteja sempre lá. A gente paga os professores, o aluguel da classe,
Library Insurance e o armazém do BrEACC. Tudo é muito difícil,
mas conseguimos”, salienta Regina.
O BrEACC recebe ajuda da ABRIR na formação de seu currículo
e do material didático usado nas aulas com a garotada. “Não existe
material específico para o ensino de português para as crianças de
famílias brasileiras/anglo-brasileiras que crescem no exterior. Existe
um material interessante produzido no Brasil, mas o público-alvo é
a faixa etária de 13 anos em diante. Já o material encontrado na Inglaterra
é produzido com o uso de português europeu”, afirma Ana
Souza, PhD em Sociolinguística e membro-fundadora da ABRIR. “Na
verdade, há necessidade de se criar material didático que responda às
necessidades das crianças expostas a pelo menos duas línguas e duas
culturas diferentes. O projeto sendo desenvolvido com o BrEACC
tem como objetivo lidar com este contexto”, complementa Ana
Souza.
Orientação sobre bilinguismo
Criada em 2006, a ABRIR é formada por colaboradores e voluntários
e surgiu como uma associação que oferece serviço, informação
e auxílio a escolas, grupos, professores e, principalmente,
orientação sobre bilingüismo. “A Abrir é virtual, nós temos uma
página na internet com dicas e orientações, estamos criando também
um banco de dados de professores de português e inglês. O registro
é gratuito e as pessoas podem esclarecer suas dúvidas mandando emails
ou participando do nosso fórum”, explica Ana Souza.
Todos os serviços são gratuitos e disponíveis virtualmente no
endereço www.abrir.org.uk. O acesso é gratuito, mas exige um
cadastro para que haja um controle sobre o número de usuários. No
dia 4 de novembro, a associação foi reconhecida oficialmente durante
a inauguração da nova sede do Consulado Brasileiro em Londres.
Para os brasileiros que têm cidadania européia, outra opção no
ensino da língua aos filhos é procurar o Consulado de Portugal, que
oferece cursos, gratuitamente, às crianças a partir de 7 anos. No próprio
site (www.consuladovirtual.pt/web/londres) é possível baixar
um formulário com o pedido de vaga. Após analisado, o Consulado
encaminha a criança à escola. Deve-se notar, no entanto, que o português
ensinado será o de Portugal.
O Consulado Brasileiro e a Embaixada Brasileira em Londres não
oferecem esse serviço, porque ele não está previsto na Constituição.
“Criar escolas não é função deles (Consulado e Embaixada), o que
deveria haver é um incentivo do Ministério de Educação brasileiro
em apoiar as organizações que trabalham em prol disso”, defende
Carlos Mellinger. “Está na hora do governo acordar e apoiar de fato
as organizações sérias, oferecendo condições para a gente crescer e
ajudar as crianças. Não tem sentido o nosso próprio governo não
apoiar”, opina.