
Ânsia por arrumar emprego e fazer o pé de meia para voltar para casa faz com que muitos brasileiros que vivem em situação ilegal no Reino Unido compliquem ainda mais sua situação perante a lei. É o caso de quem compra documentos falsos, que chegam a custar entre £40 e £80. O fundador da Casa do Brasil em Londres, entidade de apoio e orientação aos brasileiros, Carlos Mellinger, soube da “tabela de preços” em 2008, através de denúncias de brasileiros que teriam feito contato com “Alexandre”, um brasileiro que oferecia carteira de motorista espanhola a £40 e identidade, também espanhol, a £80.
A Real tentou contato com “Alexandre” através de um número de celular, mas não teve sucesso, já que o abutre, para se precaver, deve mudar o número de telefone de tempos em tempos. A prática de comprar um documento falso tem geralmente um desfecho nada feliz: além da deportação, quem vende ou porta documento falso é punido com seis meses de cadeia, podendo cumprir três deles.
Há ainda aqueles que decidem procurar casamento com um cidadão europeu – e acham quem cobre dinheiro para assinar os papéis do matrimônio. A dica é não gastar o suado dinheirinho. Casamento com europeu realizado em Londres tem de ter a autorização do Home Office, a obtenção do direito para ficar não é instantânea e os oficiais de imigração realmente investigam se os pombinhos são um casal.
Aluguel
Outra das grandes causas de dor de cabeça para os brasileiros em Londres são os problemas com o aluguel. Casas com dezenas de pessoas e a verdade é que ninguém se preocupa em saber se aquela residência pode realmente ser alugada pelo ‘landlord’ (locatário). “
Todo aluguel informal é de risco”, aponta Carlos Mellinger.
Feliz por ter conseguido um quarto por £50 a semana no início da zona 2, a cearense Taciana Alves não pensou duas vezes e fez as malas para a casa nova. Um mês depois, começaram os problemas. “
A pessoa de quem eu alugava a casa, que era brasileira, me mandou sair e eu nunca recebi o dinheiro do depósito de volta.”
O depósito é uma constante dos ‘landlords’ de Londres: a quantia referente a algumas semanas de aluguel que fica em poder do proprietário até a pessoa sair da casa, geralmente com aviso prévio. O problema é que na maioria dos casos não há nenhum tiplo de contrato ou de recibo de pagamento.
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Outro problema é que como muitas vezes o brasileiro vem para cá sem falar inglês, não tem como se defender na Justiça”, explica Mellinger. A dica é nunca dar qualquer quantia em dinheiro sem exigir um comprovante e procurar sempre ter consigo indícios de que morava na casa, como comprovantes de pagamento de aluguel feitos por depósito bancário.
Procurar com cuidado o lugar para morar é essencial. Pode parecer mais simples conseguir um quarto com qualquer conhecido, mas é sempre bom lembrar que existem agências especializadas no assunto. E embora em muitas delas problemas também existam, é sempre bom saber que, no caso de alguma coisa dar errado, os responsáveis não podem simplesmente sumir do mapa.
Venda de contatos de trabalho
Entre as roubadas que os brasileiros caem ao chegar a Londres, o pior é que em muitos casos os que passam a perna são outros brasileiros querendo se dar bem em cima de quem ainda não conhece as coisas por aqui. Giselle Coutinho veio de Minas e, ao chegar, viu o anúncio de alguém que vendia, por £150, os contatos para fazer faxina – com a promessa de ganhar mais que o dobro do valor apenas com os tais clientes. Ávida por começar a trabalhar, raspou boa parte das economias para investir no “retorno garantido”.
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A maioria dos contatos era falsa, consegui um ou dois pela lista dela e perdi o meu dinheiro”, conta, frustrada. Depois dos períodos de dificuldade, Giselle deu a volta por cima, mas aprendeu que o jeito mais garantido é conhecer primeiro como tudo funciona à volta antes de se precipitar.
Abrir conta em banco
Uma outra modalidade de exploração é a dos que cobram para “ajudar a abrir conta em banco”. Como muitos brasileiros chegam aqui sem falar inglês e, ao mesmo tempo, precisam de uma conta bancária para receber o pagamento, há aqueles ‘muy amigos’ que oferecem uma “ajudinha”: prometem conta aberta sem sair de casa, sem precisar ter passaporte válido e com direito até a cartão de crédito. Todo o “serviço” pode custar mais de £100 para os desavisados.
Carlos Mellinger alerta: “Esse tipo de serviço é crime.” As contas bancárias, a não ser aquelas com alguns privilégios, são gratuitas, e qualquer um que queira abrí-las precisa ir até a instituição financeira assinar os papéis.
Jeitinho brasileiro
A famosa tendência por achar um caminho mais fácil para tudo nem sempre funciona em Londres – e, a bem da verdade, nem mesmo no Brasil. O Reino Unido oferece várias oportunidades, mas a falta de informação de quem sai do Brasil e a falta de preparo são os principais impecilhos para juntar dinheiro para melhorar a vida da família que ficou por lá. “Procurar se informar ao máximo antes de vir é a melhor opção”, diz Carlos Mellinger. “Muita gente vem sem dinheiro para sobreviver e às vezes demora um pouco até conseguir um emprego. Nesse tempo, muitos acabam caindo em negócios ilegais ou na prostituição”, alerta.