Sábado, 31 de Julho de 2010







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COMO SE LIVRAR DOS ABUTRES
A Real foi atrás de histórias de quem passou por apuros ao chegar a Londres e dá dicas de como se prevenir e não cair nas armadilhas dos aproveitadores de plantão
Por Marina Gaspar
Aluguéis de casas que não existem, compra e venda de documentos falsos, exploração do trabalho, prostituição. Esses são apenas quatro exemplos das “roubadas” em que muitos dos brasileiros que chegam a Londres com a bagagem cheia de expectativas se deparam. E, para cada desavisado que chega, tem sempre um abutre à espera do momento certo para atacar.

Além de dar nome à enorme ave de rapina, a palavra abutre é usada em várias partes do Brasil como gíria para definer alguém que se aproveita dos outros. Tanto que está lá nos dicionários: “indivíduo sem escrúpulos”, segundo o Michaelis;  “pessoa que visa o lucro exagerado”, diz o Priberam, ou “indivíduo que tira proveito da desgraça alheia”, aponta o dicionário de português on-line.

Algumas vítimas dos abutres dão a volta por cima; outras, desiludidas, acham que o melhor é afivelar as malas e pegar o avião de volta para o Brasil. A Real foi procurar as histórias de quem chegou ao Reino Unido e caiu na conversa de gente inescrupulosa e oferece um guia básico de sobrevivência na “selva londrina”.

As pessoas chegam aqui sem nenhuma informação e acabam caindo nas mãos de aproveitadores”, observa Carlos Mellinger, ex-presidente da Associação Brasileira no Reino Unido (Abras) e fundador de outra entidade de assistência aos brasileiros em Londres, a Casa do Brasil, inaugurada em setembro de 2009 na capital britânica.

Problemas de moradia
Foi exatamente a falta de informação o principal problema do professor Marcelo Souza. Formado em Letras e com carreira de 16 anos no sistema de ensino em Minas Gerais, ele resolveu, em um período de instabilidade na profissão, pegar o avião rumo a Londres. A esperança de emprego fácil e bons salários logo caíram por terra. “Quando você chega parece festa, mas depois vê que a realidade é outra”, conta.

Atraído para Londres pelas histórias contadas por um amigo, ele saiu do Brasil com visto de turista e, logo que chegou, os problemas começaram dentro da casa que dividia com mais sete pessoas, todas brasileiras. “Os responsáveis pelo pagamento superfaturavam o aluguel e as compras do mercado”, diz Souza.

A convivência tornou-se ainda pior porque o uso de drogas pelos outros moradores era constante. Para completar, o mito do emprego e do dinheiro fácil se desfez. O professor se dividiu entre os mais variados tipos de trabalho: motorista, segurança, faxineiro, entregador de jornal... Como a vida em Londres não é das mais baratas, percebeu que fazer o pé de meia para voltar para casa não era tarefa das mais simples.

A desilusão foi tanta que Souza começou a escrever as histórias de brasileiros que chegaram aqui e se depararam com as mais adversas situações. Ele planeja escrever um livro quando voltar ao Brasil. Com o título provisório de  “Brasileiros sem Brasil”, o livro teria dicas de como não viver em Londres,  com menção especial àqueles que chegam por aqui e, na preocupação de ganhar dinheiro, esquecem dos valores que prezavam ou se submetem aos mais variados tipos de humilhação por serem estrangeiros.

Exploração de trabalho
As situações que Marcelo Souza pretende retratar no livro acontecem por todo lugar e fizeram parte da história de muita gente que veio do Brasil para o Reino Unido. É o caso de Cláudio Fonseca (o nome foi trocado para preservar a identidade do entrevistado), que veio para Londres há um ano e meio, também atraído pelas chances de trabalho. Trabalhando  no setor de construção civil e sem permissão de trabalho no Reino Unido – o visto de turista expirou – ele recebia £5 por hora de trabalho, menos do que o estabelecido pela lei britânica, que é de £5,73. Mas não reclama. “Sei que é errado, mas pelo menos eles (os empregadores) pagam.

O conformismo de Fonseca tem seu motivo: ajudante de cozinha em restaurante quando chegou , não recebeu o salário acordado por não ter o visto de trabalho e depois de algum tempo se viu sem dinheiro para pagar o aluguel. “Tive a sorte de ter encontrado amigos para me ajudar.”

Situações como a de Cláudio Fonseca não são incomuns e, segundo Carlos Mellinger, constituem uma das maiores formas de exploração de brasileiros em Londres. E, mais uma vez, a falta de informação pode ser crucial: qualquer um que seja explorado pode denunciar o empregador, ainda que esteja em situação imigratória ilegal no país.

E com um argumento a mais na hora de exigir o dinheiro: contratar alguém sem visto de trabalho é tão fora da lei quanto burlar as normas de imigração. Desde fevereiro de 2007, os empregadores que se utilizam dessa prática ganharam mais um motivo para se preocupar: exploração de trabalho passou a ser considerado crime de tráfico humano e os responsáveis, além de pagarem uma pesada multa, podem amargar alguns dias atrás das grades.

Não caia nesses golpes!
Dicas para fugir dos aproveitadores
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