Sábado, 31 de Julho de 2010







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Turquia morro acima
Em suas andanças por Kusadasi, o repórter fotográfico Rafael Reina descobriu a Villa Konak, reduto que revelou um país não visto nos cartões postais
Texto e fotos: Rafael Reina

Eram 9 horas da manhã de um domingo, faltavam apenas algumas horas para o check-out do hotel onde estava hospedado. Naquela noite já estaria de volta a Londres, depois de uma semana em terras turcas. Estava, na verdade, um pouco frustrado e, apesar de ter ido a trabalho, esperava curtir um pouco mais da cultura local. Nos dias em que estive em Kusadasi, litoral oeste do país, o que encontrei foi uma cidade organizada para receber turistas do Reino Unido – com pubs passando futebol inglês num telão durante a noite e garçons nas portas dos restaurantes te convidando para o english breakfest a cada passo pela manhã.

Enfim, como já estava conformado que partiria sem muito para contar sobre os turcos , no último dia acordei mais cedo, peguei minha câmera e fui para o centro de Kusadasi no intuito de comprar algumas lembranças. Chegando lá, me dei conta que era muito cedo para fazer compras, já que era domingo e as lojas abririam um pouco mais tarde. Como as barracas ainda não estavam montadas, tive a oportunidade de avistar uma longa escadaria que levava morro acima e que antes estava encoberta por prateleiras de badulaques à venda. Resolvi subir e, ao chegar ao topo, percebi que eram os degraus que levavam ao mundo pelo qual eu procurei encontrar a semana toda.

Era como se eu tivesse subido o morro no Rio, a diferença era que ali não havia nada que pudesse oferecer perigo; pelo contrário, a atmosfera era de total tranquilidade e harmonia. Nas duas horas que estive ali consegui interagir com gente que, apesar de não falar outra língua, a não ser o turco, me permitiu retratar momentos singelos e únicos de um cotidiano fora do cartão postal.

As crianças
Num primeiro momento passei despercebido em meio à comunidade. Mesmo porque não tenho cara de estrangeiro europeu e, na verdade, poderia facilmente ser mais um rosto turco pelo bairro. Mas o tamanho da câmera acabou chamando a atenção da molecada que brincava pelas ruas. Por onde eu passava era assediado com pedidos de crianças querendo ser fotografadas, o que acabou rendendo algumas boas imagens.

O engraxate
Depois de meia hora fotografando pelo bairro, cheguei num pequeno centro onde os homens bebiam e conversavam nas calçadas. Ali encontrei esse senhor engraxando sapatos com extremo profissionalismo e dedicação. Aproveitei uma pausa, enquanto ele alcançava outro par de sapatos, e através de gestos pedi autorização para fotografá-lo enquanto trabalhava. Ele fez um pequeno movimento com a cabeça e continuou concentrado no ofício enquanto eu clicava.

A padaria
Como tudo ia acontecendo a cada esquina que eu virava, dessa vez percebi vozes e risadas altas que vinham da pequena padaria, do outro lado da rua que acabara de entrar. Eram homens que trabalhavam falando e rindo alto em meio a nuvens de farinha de trigo. Entrei e me identifiquei como fotógrafo brasileiro, o que acabou sendo motivo de festa - quando é que eles iam imaginar que algum dia iria aparecer um brasileiro querendo fotografá-los na padaria?

Pedi para acompanhar a manufatura e acabei passando mais de meia hora capturando todo o processo. O pão saía literalmente da boca do forno direto para uma janela, onde era vendido fresco para os locais. No final, super orgulhosos, me deram um pão e agradeceram pelas fotos, que mais tarde seriam mandadas para o endereço de email do filho do primo do fulano que morava na vila.

O ancião
No caminho de volta para o hotel, já quase na saída da vila, me deparei com um senhor sentado na porta da sua casa caçando moscas, literalmente. No momento em que ia me aproximando pra fazer o primeiro contato, vi uma garota descendo a rua em sua direção. Ela se curvou, pediu benção e antes de partir ganhou uma bala do senhor – não tive dúvida e registrei o momento.

Antes de tentar me comunicar fui presenteado com um caramelo também. Sempre sorridente, ele tentava me dizer alguma coisa, até que tirou a meia e mostrou a cicatriz de uma operação recente no tornozelo. Aí percebi que seu passatempo era assistir a rua empunhando seu mata-mosca e interagir com as pessoas que passavam enquanto se recuperava.

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