Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Política Esporte Clube
E mais não digo porque não sei
Texto: Rogério Fischer
Ilustração: Edvaldo Jacinto
Dezembro 2010

Em pelo menos um aspecto Luiz Inácio Lula da Silva vai deixar o cargo na mesma situação em que assumiu: com o baixo clero – como é conhecida a turma que só faz número no Congresso – alvoroçado como um bando de marimbondos cuja caixa foi apedrejada. Ao assumir, em 2002, engoliu a seco a eleição do pernambucano Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara, numa trágica derrota de articulação política nas primeiras semanas de seu governo. Agora, tem de encarar o PMDB – principal aliado na campanha eleitoral – unindo forças com PP, PTB, PR e PSC (todos da base aliada) e anunciando a formação de um bloco com 202 deputados para disputar os principais cargos do Legislativo e, Dilma adentro, ter mais força para negociar postos do primeiro ao 99º escalão.

Ao ver anunciada a formação do “blocão”, a reação de Lula foi ligeiramente distinta de quando via 300 picaretas no Congresso. Recorreu, como sempre, à sua estratégia preferida, a metáfora, mas desta vez de forma bem mais sutil: para o presidente, a política deve seguir como a água no leito de um rio, sem grandes turbulências, para que cada coisa aconteça no seu devido momento. Se Lula, no alto de seus oitenta e tantos por cento de aprovação, não contiver nas próximas semanas a sanha fisiológica, enquanto ainda veste a faixa presidencial, terá, aí sim, legado para sua sucessora – criada à sua imagem e semelhança – uma verdadeira herança maldita. Dilma pode vir a ser até mais competente que ele, mas não tem uma unha da astúcia política de Lula.

Os últimos dias de Lula no poder têm sido um tanto prosaicos. Visita alguém ali, faz uma viagem acolá. Durante os oito anos de mandato, foi abraçando, conforme as contingências, antigos adversários, quase na mesma proporção em que perdia aliados históricos. Ao constatar que o PT já não era mais aquele, a turminha braba – Heloísa Helena, Luciana Genro, Chico Alencar – foi procurar novos ares. A amazônica Marina Silva deixou o governo e depois o partido após trombar de frente com a mãe do PAC, para depois enfrentá-la – com razoável performance – nas urnas.

Muy amigos

Os novos amigos foram se incorporando aos poucos. Primeiro, José Sarney, cujos fartos bigodes juntaram-se à barba grisalha do presidente por conta, em especial, do tratamento nada amigável que José Serra dera à filha dele, Roseana, na pré-campanha eleitoral de 2002 – atribuiu-se ao tucano a operação em que a Polícia Federal encontrou R$ 1,34 milhão, em espécie, não-declarados, na empresa dela e do marido, Jorge Murad. Depois, seja por conveniência política ou por afinidade mesmo, foram adentrando a festa Fernando Collor, Orestes Quércia, Paulo Maluf, Jáder Barbalho...

O último a ser abraçado, pelo menos até agora, coisa de uns dois ou três meses, foi o empresário Silvio Santos, que por muito pouco não disputou – com grandes chances – a primeira eleição presidencial pós-ditadura, em 1989, quando Lula, apesar da derrota no segundo turno para Collor, firmou-se como candidato prioritário da suposta esquerda nacional. Algumas semanas depois de divulgadas fotos em que ambos aparecerem se cumprimentando, cheios de dentes, o SBT preparou uma edição em que desqualificou sumariamente a agressão sofrida por Serra na última campanha. E, mais alguns dias depois, o país acordou com a notícia de que o Banco Central havia emprestado R$ 2,5 bilhões a Silvio Santos para cobrir um rombo fraudulento no banco Panamericano.

No episódio da agressão – muito leve, por sinal – a Serra num subúrbio carioca, em que militantes petistas atiraram objetos em direção ao ex-governador de São Paulo, o SBT ignorou o rolo de fita crepe (ou algo parecido) que atingiu a cabeça dele e mostrou um pedaço amassado de papel atingindo o candidato que, vinte minutos depois, aparece telefonando para alguém, como que forçando um pedido desnecessário de ajuda médica. Nos palanques, de onde nunca saiu, Lula tratou o fato com deslavada ironia.

Mancha no currículo

Esse episódio poderia ser atirado no embornal do folclore político brasileiro se não contivesse um ingrediente preocupante, que pode manchar a trajetória do presidente mais popular desde Getúlio: a maneira como Lula tratou, em seu governo, a imprensa. Mais do que isso, como Lula tratou a liberdade de expressão.

Muita pouca gente no Brasil, talvez apenas os mais taciturnos e sorumbáticos, não se rendeu ao jeitão simples, sincero, carismático de Lula. Encontra-se, é verdade, com certa facilidade, quem decepcionou-se com ele e o PT pelos episódios de corrupção, mas é muito menor a fatia dos que deixam de reconhecer em Lula um homem que parece ter ganhado a eleição na hora certa.

Também é verdade que a atuação da grande imprensa na última campanha eleitoral foi medonha. Os jornalões – com destaque para O Estado de S. Paulo – transformavam, ou tentavam transformar, qualquer fato menor em escândalo nacional. Mas a reação do presidente, ao desrespeitar frontalmente a liturgia do cargo e atacar a imprensa sem dar nomes, foi um desserviço do qual o Brasil talvez nunca se livre.

A cada cerimônia, em plena campanha, Lula dizia que os jornais atuavam como partidos políticos e que precisavam tirar a máscara. O Estadão até passou recibo, publicando editorial em defesa da candidatura de Serra. Em meio ao furdúncio, surgiam evidências de que o governo defenderia o controle social da mídia. Os ataques de Lula à imprensa abriram brechas para que uma onda de censura pudesse ser sentida, em conta gotas, aqui e ali.

O Estadão está sob censura judicial há quase dois anos, proibido de noticiar o andamento de uma operação federal contra a família Sarney. O governo alega que a grande imprensa, que supostamente forma a opinião nacional, está nas mãos de oito famílias. Talvez por isso, redirecionou parte da verba publicitária oficial para pequenos e médios jornais do interior – ao menos para aqueles que publicam uma coluna assinada pelo presidente e recebem, de bom grado, notas e sugestões de matérias enviadas diretamente pela assessoria de deputados e outros aspones.

O voto de Chico

Suposta – como tem suposta nesse texto, hein! – unanimidade nacional, Chico Buarque defendeu a candidatura Dilma às claras, reunindo artistas e declarando voto, como fez com Lula em 1989, aliás. Após as eleições, surgiu a notícia de que no início de 2011 a Caixa Econômica abrirá a comemoração pelos 150 anos de vida com uma série de apresentações culturais que vão render a Chico R$ 12,5 milhões. E a editora Record decidiu abandonar a disputa do prêmio Jabuti ( o Oscar da literatura nacional) após a vitória de Chico Buarque com “Leite Derramado”. Para a Record, o critério utilizado foi meramente político.

Até os mais incrédulos chegaram a suar frio com a notícia de que o Conselho Nacional de Educação (vai vendo!) aprovou parecer (oficial!) pedindo ao MEC que proíba a distribuição, para escolas públicas, do livro “Caçadas de Pedrinho”, escrito por Monteiro Lobato em 1933 (1933!) por suposto (suposto!) racismo contra a negra Tia Anastácia. O ministro Fernando Haddad, claro, ignorou.

Na segunda quinzena de novembro, no mesmo dia em que o diretório nacional do PT fazia sua última reunião do ano, Lula recebeu José Dirceu para um café da manhã no Palácio Alvorada. Saiu do encontro – segundo apuraram repórteres do Estadão – prometendo que, ao sair do governo, vai desmascarar a “farsa do mensalão”. E que trabalhará arduamente para aprovar a reforma política. Presidente, estamos torcendo por você. E deixe a imprensa em paz, presidente. Como já disse Élio Gaspari, a Constituição – que o senhor deve respeitar mais do que ninguém – não manda que a imprensa seja boa; ela manda que a imprensa seja livre. Até pra falar besteira, presidente.

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