O filme “Jean Charles” terá exibição única em Londres nesta quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 20h30, no Tricyle Cinema, em Kilburn (veja o quadro serviço no final da matéria). Após a apresentação, o diretor Henrique Goldman participa de uma sessão de perguntas e respostas com o público. Na oportunidade, ele vai falar a respeito da produção e das dificuldades de distribuição que o longa vem enfrentando no Reino Unido, já que o filme relata o trágico desfecho da desastrosa operação da polícia britânica que culminou com a morte do eletricista no dia 22 de julho de 2005.
Em novembro, a Real esteve presente na premiere do filme em Londres, apresentado dentro da programação do London World Film Festival, no Bloomsbury Theatre. Antes da apresentação de “Jean Charles”, foi exibido o curta-metragem “A Vida no Ritmo”, que em 15 minutos captura a importância da música na vida de moradores de bairros pobres do Rio de Janeiro. Dirigido por Desislava Kadra, Hannah Combs e Calum Farmer, estudantes da Rio Film School (escola carioca de cinema em inglês), em parceria com o Cinema Nosso, o filme começa no ritmo do funk e passa pela roda de samba, o soul na Cidade de Deus, o hip hop e o Afro Reggae em Vigário Geral.
“Este filme é resultado de um treinamento pelo qual eles passaram no Cinema Nosso, no Rio”, conta Dorian Needs, diretor da Rio Film School, enfatizando que projetos como esse dão acesso a lugares em que pessoas de fora normalmente não poderiam ir, como as favelas. Num piscar de olhos, o espectador visita diferentes estilos musicais e interage com seus participantes, que cantam, dançam e confraternizam, esquecendo ou extravazando suas angústias.
Jean Charles
A sala lotou para a apresentação do filme que retrata um pouco do que foi a vida de Jean Charles de Menezes, morto pela polícia britânica em 2005 na estação de metrô de Stockwell, no sul de Londres, ao ser confundido com um terrorista. A produção mostra o lado humano de Jean Charles, que ajudou amigos e parentes, como os seus primos Patrícia Armani (que interpreta ela mesma no filme), Alessandro Pereira e Vivian Figueiredo a virem para Londres, onde poderiam ter um futuro melhor.
Em conversa com o público após a exibição, o diretor Henrique Goldman destacou o ponto de vista da produção. “Era o único ponto de vista que me interessava (o de Jean), pois o resto já foi muito divulgado pela mídia. Além disso, achei interessante mostrar essa diáspora que não é só brasileira, mas de qualquer país que enfrenta graves problemas sociais”, afirma Goldman.
Talvez por isso o diretor tenha optado por abordar a falsificação de documentos no filme, que não necessariamente foi praticada por Jean. “Eu acho que o filme está parecido com a realidade em espírito. Nós criamos algumas situações que imaginamos como ocorreram e outras que já sabíamos, mas usamos muita ficção. A intenção não foi a de fazer um documentário”, afirma Goldman.
“O filme tem 60% de realidade, principalmente a partir das cenas de morte. O que o Henrique mostrou foi o suficiente para que as pessoas entendessem o que sentimos, mas é claro que nosso sofrimento na vida real não chegou nem perto do que passei no filme”, conta a prima de Jean, Patrícia Armani, presente na sessão.
Se a história retratada antes da morte de Jean poderia muito bem ser a de qualquer outro imigrante, as cenas do metrô mexeram com as emoções do público. Reproduzidas com certa veracidade, as cenas emocionam desde a descida de Jean Charles na escada rolante da estação de metrô até o desfecho da trágica operação policial britânica e a luta da família e amigos por justiça.
Houve muita comoção na sala e a plateia expressou isso entre palmas, perguntas e um enorme interesse após a sessão. A maioria se mostrou inconformada com o fato de que o filme dificilmente será exibido no Reino Unido, fazendo com que menos pessoas tenham acesso à obra e ao que de fato aconteceu em julho de 2005.
Luto Como Mãe
Não menos impactante, o documentário dirigido por Luis Carlos Nascimento retrata a luta de um grupo de mães contra a impunidade da polícia, acusada de envolvimento em massacres no Rio de Janeiro. Entre outros crimes, a produção relembra a chacina na Baixada Fluminense, em 2005, quando um grupo de supostos policiais matou aleatoriamente 29 pessoas.
“Existe uma linha muito fina entre documentário e ficção. Da maneira que fiz, tentei me aproximar o mais que pude da realidade, tanto que 30% da filmagem foi feita pelas mães, que tinham acesso a lugares que eu não podia entrar. Elas filmaram da maneira delas, do olhar delas”, conta Nascimento, que começou a produzir o documentário em 2005.
“Os homens praticamente não participam, e por isso, se torna uma luta mais pacífica e muito longa, diferente do que aconteceu na Grécia, em 2008, quando um jovem foi morto pela polícia, desencadeando uma onda de protestos violentos na cidade”, compara Nascimento. “Isso não acontece lá (no Rio). As mulheres gostariam que todos tivessem mais participação, pois assim a impunidade diminuiria”, completa.
Poucos acusados foram presos e alguns aguardam julgamento, fatos que continuam a mobilizar as mães cariocas. “Quando se opta por fazer um documentário que trata de assuntos delicados, assassinatos e direitos humanos, sempre há um risco, mas um risco que eu senti obrigação de correr, pois elas não têm muito suporte”, aponta Nascimento.
Serviço
Jean Charles + Q&A com o diretor Henrique Goldman
Tricycle Cinema (269 Kilburn High Road, London NW6 7JR)
Quando: Quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 20h30
Ingresso: £10
Telefone: 020 7328 1000
www.tricycle.co.uk
Como chegar:
Metrô: Estação de Kilburn (Jubilee Line)
Ônibus: 16, 31, 32, 98, 189, 206, 316, 328
Trem: Estação de Brondesbury