
Carlos Alberto sai de casa na hora certa para encontrar seu irmão, Augusto, no lugar certo. O local citado é conhecido como o conjunto de favelas do Complexo do Alemão. O que separava os irmãos eram as favelas onde ambos moravam. Carlos Alberto pagava aluguel numa casa no morro do Cantagalo mas, agora, com o dinheiro da moto que havia vendido, iria comprar uma quitinete e juntar-se ao irmão no Complexo do Alemão. Augusto estava no horário marcado no ponto dos moto-táxis da favela segurando uma gaiola com passarinho, esperando o irmão.
Escuta-se um barulho estrondoso. Um menino de onze anos abre a porta de uma van, de onde desce Carlos Alberto. Os irmãos cumprimentam-se cordialmente dentro dos costumes da juventude brasileira. Entre escadas, ladeiras e becos, Carlos Alberto e Augusto caminham em direção à quitinete do Complexo do Alemão. Augusto resolve revelar um segredo para o irmão. Ele está analisando a proposta de trabalhar para Feijão, líder do tráfico, como tesoureiro do tráfico de drogas.
Augusto, recentemente, se formou como administrador de empresas. Ele afirma para o irmão que a função de tesoureiro é sigilosa, não tem perigo e é bem remunerada. Ele deixa claro que essa proposta é um segredo de estado. Carlos Alberto engole seco a notícia e o incômodo transparece na sua expressão facial.
Eles chegam na quitinete. Uma senhora gorda apresenta o imóvel e fala das condições de pagamento. A quitinete não agrada Carlos Alberto e os irmãos seguem as vielas atrás de uma nova moradia. Augusto resolve parar em frente a uma mansão com alguns traficantes armados na posição de vigia. Carlos Alberto espera o irmão e segura a gaiola com o passarinho.
Augusto conversa com um dos traficantes. As mãos de Carlos Alberto tremem segurando a gaiola. Ele observa um traficante alto e magro que abraça uma criança vestida com um uniforme escolar com muito carinho e um vigor paternal. Carlos Alberto entrega a gaiola para o irmão e resolve voltar para o morro do Cantagalo. No trajeto de volta pra casa, sentado no banco da frente da van, ele observa o horizonte. O silêncio é interrompido pelo barulho da hélice do helicóptero policial que sobrevoa o céu.
O telefone de Carlos Alberto toca. É o seu irmão do outro lado da linha avisando que chegou em casa depois de uma operação policial, onde morreram três traficantes. Carlos Alberto lembra do traficante alto e magro brincando com o filho. Ainda ao telefone, Augusto fala que eles estavam na hora certa, no lugar errado. Carlos Alberto pede, com cautela, para o irmão enxergar o acaso como um aviso. Ele desliga o telefone celular e continua olhando para o horizonte.
Luciano Vidigal é ator e diretor de cinema