Ano novo, vida nova, casa nova. Comecei 2010 me mudando pra Vila Esperança, parte baixa da favela onde sou nascido e criado há trinta anos, no Rio de Janeiro. A casa nova é grande e espaçosa. O silêncio e o ronco dos moto-táxis sublinham a trilha sonora do meu novo ambiente. Sinto uma saudade profunda da minha mãe e meus irmãos, minha estrutura na guerra e na paz. Mas como diz o poeta: filhos são como flechas que atiramos para o mundo. Lembro-me também do meu avô, que antes de morrer, me aconselhou a não desistir de alcançar o progresso e o acesso.
Escuto um barulho estranho. Parece que alguém invadiu o quintal da minha nova casa. Realmente era alguém: a mudinha, uma adolescente franzina, que estava brincando com as plantas no meu quintal e demonstrou curiosidade com o novo morador da Vila Esperança. Confesso que no primeiro momento fiquei com medo. Mas, rapidamente, a mudinha sorriu e saiu correndo batendo o portão. Ela vive num conjugado com o irmão, de aproximadamente dez anos, e sua mãe, que tem a fama de trabalhar como prostituta na Vila Esperança para sustentar os dois filhos.
Aos poucos vou me sentindo sozinho. Tenho vontade de telefonar para minha mãe, mas sinto medo de chorar. Algumas vezes, chorar dói... Olho pela janela e fico impressionado com a imensidão da favela e o mar ao seu lado.
A movimentação dos moto-táxis me hipnotiza. Algo me chama a atenção numa janela no aglomerado de casas: no meio da minha solidão, enxergo um rapaz sem braços dançando feliz na laje da sua casa. Apesar da distância, ele olha em minha direção e continua dançando feliz.
Batem no meu portão. A mudinha está de mãos dadas com sua mãe.
- Seja bem-vindo à Vila Esperança, meu filho! - me dá as boas vindas a mãe da mudinha. - Dizem que aqui o acesso é bem melhor - respondo cordialmente.
Nós não recebemos algumas correspondências. Para eles, aqui ainda é área de risco. A mudinha e sua mãe se despedem batendo o portão. Resolvo molhar as plantas. Elas dançam felizes...