Acredito que cada país recebe, de uma forma abençoada, para o seu povo, um determinado talento, um dom, um presente para superar os problemas que cada nação irá recebendo com o passar dos anos. O povo brasileiro teve as misturas perfeitas para receber no corpo todas as habilidades físicas e mentais para se movimentar em perfeita harmonia e gingado. Levar uma bola correndo nos pés, possuir todas as qualidades para chegar mais perto da perfeição ou ser a perfeição: no esporte mais popular do planeta, orgulho de todos os brasileiros, índios, negros, mulatos e brancos, Pelé pode ser considerado o melhor, o mais popular brasileiro em todos os tempos.
Num país que samba, dança, faz música e canta como nenhum outro, o saber jogar bola nada mais é que a reunião de todos esses dons, e jogar futebol é o dom mais agraciado que uma nação como o Brasil poderia receber. O Brasil é o único país pentacampeão mundial. Mas alguma coisa não está certa. Perguntas, algumas sem respostas, circulam pelo imaginário do povo. Ainda podemos dizer batendo no peito com orgulho que somos o país do futebol?
Especialistas no assunto e nostálgicos começaram uma espécie de campanha nos rádios, na TV e nos livros dizendo que o futebol brasileiro mudou...e para pior. Não é mais o mesmo. Alguma coisa preciosa havia morrido. Acabara a ginga, a vontade de jogar com amor pela camisa, a poesia da genialidade dos dribles, toques e lançamentos estavam velados. Os gols não eram mais inesquecíveis. O futebol brasileiro está morto e enterrado para sempre.
Então a pergunta. De que futebol eles estão falando? De dentro ou de fora de um estádio de futebol? O futebol jogado no campo, por times e jogadores profissionais, de salários astronômicos, com as propagandas coloridas metro a metro do campo, com regras, cambalachos e falcatruas. O futebol dominado pelos cartolas inescrupulosos e finalmente a CPI do governo, este sim pode estar se acabando, estar com problemas na sua estrutura e organização.
O futebol brasileiro sempre foi algo sagrado. Não se podia mexer. Tinha que ter respeito. Não podia ser confundido e alterado pela política. Era algo grandioso, um mundo fascinante onde glória e tragédia caminham juntos. Dentro do estádio, sentado na arquibancada ou vendo das cadeiras, o torcedor percebe que o futebol jogado no campo gramado a bola não rola mais como antigamente, mas e fora dele? A poesia continua?
O futebol é o meio de ascensão social mais entranhado no imaginário popular do país. Existe uma homenagem ao povo brasileiro através do futebol e sua importância na cultura brasileira. Ainda é possível encontrar a poesia da genialidade, a verdadeira ginga despreocupada do futebol jogado pelo brasileiro. O Brasil é o único país em que os jogadores inventam jogadas, uma maneira especial de se bater na bola, criando o chute de “três dedos” e o chute "folha seca", o “drible da vaca” e a mais genial, a bicicleta de Leônidas da Silva.
Registro de Documentários sobre Futebol no Brasil:
“Garrincha, Alegria do Povo” (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, foi o primeiro documentário a enfocar um esportista brasileiro.
“Isto é Pelé” (1974), de Eduardo Escorel, cobre a carreira do maior jogador de futebol de todos os tempos.
“Tostão”, realizado no auge da popularidade do atleta.
As imagens do “Canal 100”, que renderam um documentário lançado há dois anos nos cinemas.
“Flamengo 100 anos” e “Futebol” (1997/98), de João Moreira Salles, Arthur Fontes e Rudi Lagemann, série de três programas de 90 minutos cada um sobre a importância do futebol na sociedade brasileira.
“Todos os Corações do Mundo”, de Murilo Salles, sobre a copa do Mundo de 1994.
Na ficção, o curta-metragem “Uma História de Futebol”, do cineasta Paulo Machline, foi indicado na categoria de melhor curta-metragem de ficção no Oscar de 2001.
Se formos refletir sobre o que é o futebol nas palavras de Tostão: “...essa coisa de que o Brasil é um país inferior aos outros, que é um país que tem tudo para ser o melhor país do mundo, o mais rico e não é e não consegue. Isso é uma frustração que eu acho que a gente leva para o futebol. O futebol é a nossa vingança. Eles são melhores do que a gente em tudo, mas no futebol nós ganhamos, porque ali em campo se joga toda a nossa vida, nossa esperança de auto-afirmação. Isso, esse sentimento está no futebol.”
O que nós queremos descobrir é o motivo pelo qual essas pessoas jogam bola nos campinhos de terra, compram tênis e chuteiras caras, mandam fazer por encomenda uniformes de camisa, organizam campeonatos, muitas vezes colocando dinheiro do próprio bolso, brigam e choram. Com vitória ou derrota saem para comemorar, porque essas pessoas continuam a jogar bola, o que as motiva, jogam sem receber os salários milionários que seus ídolos recebem mensalmente, jogam jogadas geniais mesmo sabendo que seus jogos não estão sendo televisionados para todo o Brasil. Jogam um futebol despreocupado, com leveza e sem compromisso de ganhar muito dinheiro.