Antônio Carlos é o personagem principal desta crônica. Ele ganhou este nome do seu pai, que era músico. Antônio foi batizado em homenagem ao mestre Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim). Antônio Carlos tem 24 anos e direcionou a sutileza do seu olhar para a arte da fotografia. Alessandro é o nosso segundo personagem, fotógrafo italiano, bem-sucedido e ousado nos limites do seu ofício. Os dois vão se encontrar na favela de nascença de Antônio Carlos.
Alessandro tem a missão de fotografar alguns traficantes armados de fuzis para ilustrar uma matéria da famosa revista italiana onde trabalha.
Alexandre e Antônio Carlos apertam as mãos no alto de uma lage na favela, de onde se vê, ao fundo, o mar da cidade do Rio de Janeiro. Alessandro tira da bolsa duas garrafas de uísque e um envelope com dinheiro para oferecer aos traficantes. Antônio Carlos confere a quantia de três mil reais em dinheiro. Os dois esperam em silêncio a chegada dos traficantes. Sobre o ronco potente do motor de uma moto, entra em cena 3T, traficante poderoso e amigo de infância de Antônio Carlos. Ele caminha com seu fuzil AK 47 banhado a ouro que reluz sob o sol de quarenta graus do Rio de Janeiro. 3T cumprimenta Antônio Carlos com um forte abraço, demonstrando saudades do amigo de infância.
Através de assobios, códigos, granadas, coletes à prova de balas e mais dois fuzis, surgem Gilberto e Adaílton. Antônio Carlos tenta manter a naturalidade dentro da situação, mas não consegue esconder o nervosismo durante o processo de explicação para os traficantes sobre a sessão de fotos.
Com o capuz no rosto, armas em punhos, corpo sem camisa, os traficantes posam para as lentes do fotógrafo italiano.
Gilberto bebe uísque e resolve mostrar a cara para o mundo. Alessandro sente-se à vontade e agradece educadamente a liberdade com que Gilberto posa para as fotos. Cordialmente, Gilberto oferece seu fuzil a Alessandro. Antônio Carlos percebe que os moradores estão olhando-lhe com respeito e decepção. Ele se sente conivente dentro do miolo da criminalidade. Som de um tiro. Antônio Carlos se assusta e percebe que o fotógrafo italiano está empolgadamente dando tiro de fuzil para o céu.
3T liga sua moto e guia toda a equipe para uma segunda locação. Uma casa onde o tráfico industrializa as drogas. Uma mulher com uma criança de aproximadamente cinco anos recebe toda a equipe. Antônio Carlos troca olhares com a criança. Alessandro vira a lente da sua máquina para a criança. 3T impede o ímpeto de Alessandro e deixa claro as regras existentes dentro do crime. Os traficantes bebem uísque, usam drogas e são fotografados por Alessandro. 3T faz uma revelação para o amigo Antônio Carlos, afirmando que ele é referência artística e positiva da favela onde vive.
Todos comemoram bebendo uísque misturado com energéticos.
Adaílton tranquiliza Antônio Carlos, afirmando que eles estão seguros em relação à invasão policial. Antônio Carlos, sutilmente, divide a euforia com os traficantes brindando a realização do evento. Alessandro chama Antônio Carlos num canto e fala da diferença do ponto de vista da mídia sobre os traficantes e sua experiência de estar dentro do miolo do tráfico.
- Eu percebi que vocês são seres humanos – diz ele.
Os traficantes acham graça. Adailton propõe trazer mulheres bonitas para dar continuidade à comemoração. Antônio Carlos percebe a empolgação, a embriaguês, o status e resolve negar a proposta de Adaílton. Alessandro consome drogas, bebe uísque e tira fotos. Antônio Carlos divide a quantia de três mil reais com 3T, olha no relógio e avisa que tem que ir embora.
Alessandro agradece Antônio Carlos e diz que vai continuar comemorando com os traficantes. 3T diz que Alessandro vai embora junto com Antônio Carlos e deixa claro a diferença entre a comemoração da vida real com a comemoração da vida do crime. Alessandro pega um táxi e desaparece no final de uma ladeira da favela. Antônio Carlos volta para sua casa refletindo dentro de um longo beco sobre os sentimentos de estar dentro do miolo do crime e os motivos que separaram a amizade com o traficante 3T.