Há algumas semanas, fiz uma participação numa novela da Rede Globo. Fui convidado para interpretar uma cena da vida real. A personagem da atriz Marília Pera passeava pela orla do Rio de Janeiro e sua bolsa era roubada por mim. Marília conquistou respeito e fama através dos trabalhos em que desenvolveu ao longo de sua carreira. Trabalhos estes como “Pixote”, de Hector Babenco, e “Central do Brasil”, de Walter Salles, filmes de importância para a história do cinema brasileiro.

Antes mesmo de gravar a tal cena, lá estava ela em seu camarim. Minha musa, minha diva do teatro, cinema e TV brasileiros, fonte inspiradora de talento para minha geração e mentora maior do meu grande mestre, fundador do grupo Nós do Morro, Guti Fraga. Lembrei-me da época em que estudava teatro e me deparava com o abismo que existia entre alguns monstros sagrados e os meros mortais, o conflito do questionamento sobre a imagem de alguns artistas comparada à imagem sagrada de uma santidade.
Gravando! - grita a figura autoritária do diretor. Não consigo olhar nos olhos. Busco um esforço para contracenar com uma das maiores atrizes brasileiras. Com a força do deus maior das artes, Dionísio, a cena acontece de uma forma mágica e verdadeira, que inconscientemente Pêra me acerta uma bolsada verdadeira.
Corta! - finaliza o diretor, satisfeito com a realidade cênica.
Lembro-me da realidade da cena através de uma dor de cabeça que transparece na minha expressão facial. Pêra percebe e demonstra uma preocupação com o meu incômodo. Ela aproxima-se em silêncio, leva suas mãos à minha cabeça e inicia um carinho, levando minha cabeça sobre os seus peitos. Os figurantes presentes, que interpretavam passantes na cena, trocavam olhares, sorrisos, curiosidades e despertavam interesses pelo privilégio humano que eu estava recebendo naquele momento.
Esse foi o meu maior momento de ápice emocional. Lembrei-me de uma cena antológica do cinema brasileiro, no filme “Pixote”, em que uma prostituta, interpretada por Marília Pêra oferece seu seios, sob uma atitude matriarcal, para um menino de rua, interpretado por Fernando Ramos, um ex- menino de rua na vida real. Na cena, Pixote necessitava finalizar o seu sofrimento de fome como se fosse um bebê que depende do leite da mãe. Pixote mama nos seios da prostituta em silêncio. “Pixote” foi o primeiro filme que despertou a minha paixão pelo cinema brasileiro.
Volto à realidade e Marília Pêra continua acariciando minha cabeça. Confesso que não imagino a emoção que o ator Fernando Ramos sentiu no momento da cena, mas me igualei a ele, me lembrei dele, me senti como ele. Eu era o “Pixote”, obra marcante na filmografia da minha vida. A vida e a arte não se separam. O vigor do acaso se encontra de forma impressível. O carinho da atriz Marília Pêra, diva ou santa, permanecerá gravado na eternidade do meu inconsciente.