Sábado, 31 de Julho de 2010







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Estéreos tipos de sons
Luciano Vidigal - ator e diretor de cinema
Ilustração: Edvaldo Jacinto
O estrondoso silêncio imperava dentro da pequena casa da família Conceição. O som estéreo da rajada de uma metralhadora acordou o caçula de dez anos que tinha esquecido de colocar o despertador para tocar.

Ele olhou para o relógio pendurado na parede mal pintada e o ponteiro marcava
cinco e quinze da manhã, trinta e cinco minutos depois do horário programado.
Um outro som estéreo da metralhadora volta a assustar o caçula, que olha para o lado da cama e observa a matriarca da família Conceição dormindo. O irmão mais velho também dormia sob um grave e pesado som de um ronco. O medo transpareceu nos olhos arregalados do menino e a coragem criou uma dúvida no seu inconsciente. O caçula tinha que ir trabalhar, pois juntava dinheiro que ganhava
das “madames” pelo seu trabalho como carregador de bolsas de compras nas feiras do Rio de Janeiro, para realizar seu sonho de comprar uma nova bicicleta.

Diferentes tipos de sons de rajadas de metralhadoras acordaram a matriarca da família. Ela procurou com o olhar o caçula, que já tinha batido a porta da casa. Balançou o corpo do fi lho mais velho que continuava a roncar, estabelecido dentro do
seu sono. O silêncio aparece e os sons estéreos desaparecem.

A mão da matriarca treme prendendo seu cabelo. A coragem faz ela abrir a porta e sair à procura do caçula. Ao final de um longo e silencioso beco, surge a vizinha da família Conceição, que anuncia a morte de uma pessoa na parte baixa da favela. Sons de fortes pesadas aproximam-se do beco, eram os homens de preto com suas metralhadoras.

A matriarca sussurra uma oração descendo a ladeira.

O irmão mais velho sente o frio, se esquenta na escuridão de um cobertor e solta um agudo som de um bochecho.
Na parte baixa da favela, dentro de uma escola abandonada, dentre os vinte e cinco vizinhos, o olhar da matriarca procura
o caçula. A mão de um antigo vizinho conduz o encontro das mãos da família Conceição. O caçula abraça com força as pernas da matriarca.

O menino triste e preocupado pergunta se um dia ele vai conseguir comprar sua bicicleta nova. Ela responde que sim, que um dia ele consegue. A matriarca coloca o filho no colo, junta-se aos vizinhos para esperar os homens de preto passarem.
O irmão mais velho acorda e estranha o estéreo som do silêncio dentro da casa da família Conceição.
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Jul/10
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