
O estrondoso silêncio imperava
dentro da pequena
casa da família
Conceição. O som
estéreo da rajada de uma
metralhadora acordou
o caçula de dez anos
que tinha esquecido
de colocar o despertador
para tocar.
Ele olhou para o
relógio pendurado
na parede mal
pintada e o ponteiro
marcava
cinco e quinze
da manhã,
trinta e cinco
minutos depois
do horário programado.
Um outro
som estéreo da
metralhadora
volta a assustar
o caçula, que
olha para o lado
da cama e observa
a matriarca da
família Conceição
dormindo. O irmão
mais velho também
dormia sob um grave
e pesado som de um
ronco. O medo
transpareceu
nos olhos arregalados
do menino e a coragem criou
uma dúvida no seu inconsciente.
O caçula tinha que ir trabalhar,
pois juntava dinheiro que ganhava
das “madames” pelo seu trabalho
como carregador de bolsas
de compras nas feiras do Rio de
Janeiro, para realizar seu sonho de
comprar uma nova bicicleta.
Diferentes tipos de sons de
rajadas de metralhadoras acordaram
a matriarca da família. Ela
procurou com o olhar o caçula,
que já tinha batido a porta da
casa. Balançou o corpo do fi
lho mais velho que continuava a
roncar, estabelecido dentro do
seu sono. O silêncio aparece e os
sons estéreos desaparecem.
A mão da matriarca treme
prendendo seu cabelo. A coragem
faz ela abrir a porta e sair à
procura do caçula. Ao final de um
longo e silencioso beco, surge a
vizinha da família Conceição, que
anuncia a morte de uma pessoa
na parte baixa da favela. Sons
de fortes pesadas aproximam-se
do beco, eram os homens de
preto com suas metralhadoras.
A matriarca sussurra
uma oração descendo a
ladeira.
O irmão mais velho
sente o frio, se esquenta
na escuridão
de um cobertor e
solta um agudo
som de um bochecho.
Na parte
baixa da favela,
dentro de uma
escola abandonada,
dentre
os vinte e cinco
vizinhos, o olhar
da matriarca procura
o caçula. A
mão de um antigo
vizinho conduz
o encontro das
mãos da família
Conceição. O caçula
abraça com força
as pernas da matriarca.
O menino triste e
preocupado pergunta
se um dia ele vai conseguir
comprar sua bicicleta
nova. Ela responde que sim,
que um dia ele consegue. A
matriarca coloca o filho no colo,
junta-se aos vizinhos para esperar
os homens de preto passarem.
O irmão mais velho acorda e
estranha o estéreo som do silêncio
dentro da casa da família
Conceição.