
Foi o que decidi escrever.
Enquanto todos estavam
concentrados nos desenhos
de bonequinhas japonesas
ou auto-retratos estilizados, achei
melhor botar essa frase no muro
do Jockey Club do Rio de Janeiro.
Eu tinha levado o meu desenho na
cabeça, ia tentar fazer um campo
de futebol, mostrando um jogador
que cruzava a bola na linha de
fundo e saía correndo ele mesmo
para cabeceá-la, antes de ela tocar
no chão. Era uma história contada
pelo meu pai, fazia uns dez anos.
Uma história da qual eu sempre
desconfiei. Mas meu pai não era homem
de mentiras e jurando que era
verdade, me contou que o Jacaré,
o atacante do seu time de várzea
que ele mesmo montou, o São
Bento, tinha feito essa proeza. Se o
São Bento perdesse naquela noite,
meu pai perdia o seu Passat, que
ele tinha apostado antes do jogo
começar. Ele me disse com aquele
sorriso de sempre nos olhos. Minha
mãe não sabia dessas apostas.
O Jacaré era um negro que
vestia a camisa sete, época de
pontas-direitas. Lembro que ele era
forte e rápido, driblava longo pela
lateral. Merecia ter virado profissional.
Mesmo assim, eu sempre
ficava na dúvida quando olhava
para ele nos churrascos de final de
semana lá em casa, se ele realmente
tinha sido capaz de cobrar
um ‘corner’ e correr para a área
naquela velocidade, a ponto de
conseguir cabecear e fazer o gol.
Adiei esse grafite: o Jacaré
merecia o desenho, mas não seria
agora. Preferi escrever no muro “E
se a África fosse branca?” Escrevi
a palavra “branca” em cor amarela
e sombreei de vermelho. Pedro se
aproximou de mim. Ele havia feito
um desenho intrigante, pôs o dalailama
sentado no pico de uma pedra,
próximo a um abismo. O dalailama
lia um livro de capa preta.
O que eu achei curioso foram os
óculos que Pedro colocou no rosto
dele, de armação bem moderna,
daqueles que a gente costumava
usar quando queria aparecer ou ir
à praia em Ipanema.
- Você não vai desenhar?, ele
perguntou.
- Não, hoje não, respondi sério.
- Quis passar alguma mensagem
com essa frase? Qual foi?
Politizou? - Ele sorria, meio irônico.
- Não, não é nada disso. Até
pensei no que você está me falando,
que pode ter um conteúdo
político na frase, mas não é essa a
minha intenção. Foi uma coisa que
eu pensei de verdade, no inferno
que é a África. Mas se ela fosse branca, seria um inferno?
Pedro me olhou, tenso, por cima
dos ombros. Uma Kombi branca,
com adesivos vermelhos que não
consegui ler, parou na nossa frente.
Desceram quatro caras fortes e
brancos, de cabeça raspada e
camiseta preta apertada. Um estava
com a mão bem fechada e, com
ódio certeiro, veio correndo e me
acertou como uma pedrada na
maçã esquerda do rosto, bem abaixo
do olho, que na hora ficou cheio
de água. Pedro também ficou sem
ação, com as latas de tinta colorida
e importadas na mão.
Os outros grafiteiros que estavam
com a gente correram tudo o
que podiam. Nós não, nós não conseguimos
correr. O segundo dos
quatro que tinham vindo na Kombi
chutou Pedro na altura da dobra do
joelho, enquanto ele corria, e o derrubou.

Sem tempo de se proteger
do inesperado, Pedro bateu com
a cara no muro. Ele tinha um rosto
bem bonito, parecia um árabe com
espanhol. Os outros dois recolheram
as nossas latas de tinta e jogaram
tudo para dentro da Kombi. Fui
colocado de cara no chão, quase
embaixo do primeiro banco de trás,
e Pedro foi arremessado por cima
de mim. Ele também estava com a
mão cortada, provavelmente quando
tentou se proteger.
A Kombi virou na Lagoa Rodrigo
de Freitas acelerando tudo o que
podia, passou em frente ao Clube
de Regatas Flamengo e seguiu em
direção ao bairro do Leblon. Em
frente a danceteria Scala e a Décima
Quarta, a Kombi desacelerou.
Parecia que estava tudo bem. Os
rapazes de sorriso perfeito e bem
branco sorriram uns para os outros.
Eram risadas saudáveis e fortes.
Eles estavam felizes. A Kombi
seguiu em direção ao Canal do
Leblon, subiu rodopiando as curvas
em ziguezague da Rua Aperana. O
motorista trocou a marcha, diminuindo,
e parou em frente à sacada
do Mirante do alto Leblon. Acompanhei
tudo olhando para fora da
janela. Mesmo deitado eu reconhecia
os lugares daquela área, pelas
árvores ou pelo topo dos prédios.
- Sai do carro, vambora, ouvi.
Vi o rosto dos rapazes, todos
pareciam bem nascidos, com cara
de bem-criados da zona sul, mas
eles eram os revoltados da área,
os filhos que nasceram com ódio.
Procuravam alguma coisa e encontraram,
eu entendi tudo. Mas nada
tinha sentido.
- Chega de sujeira e vagabundagem
por aqui, nós estamos
atrás de vocês há um tempo, seus
pichadores, disse um deles.
Pedro ainda tentou argumentar:
- Nós somos grafiteiros, a gente
não suja, aquilo é arte.
Era tarde demais, o terceiro rapaz,
o de cabelo moicano e orelha
em forma de repolho, pulou com
os dois pés no peito de Pedro,
gritando, com raiva:
- Grafite de cu é rola!
Ao cair no chão, quando Pedro
tentou se apoiar, a mão dele virou
inteira para trás. Vi meu amigo se
machucar e lamentei. Aquilo estava
ficando sério, mas eu não sabia o
que fazer, não via como conseguir
ajuda, a cidade estava lá embaixo,
o mar estava próximo e era de um
azul-marinho único, a brisa refrescava
a mata pequena embaixo do
morro Dois Irmãos. E foi para eles
que eu resolvi pedir ajuda. Quando
os quatro vieram na minha direção
com os punhos e os dentes fechados,
olhei firme para aquelas duas
rochas imensas e pedi:
- Venham, desabem, por favor,
caiam em cima de todos nós e nos
salvem.
Fechei os olhos e não vi mais
nada. Só senti a pancada no alto
da cabeça. Era a pedra. Era a rocha.
Era o mundo se acabando.