“Salve Geral”, do diretor Sérgio Rezende, foi escolhido para representar o Brasil na disputa a uma indicação ao Oscar 2010. O filme estreou em circuito nacional no dia 2 de outubro e concorrerá com produções de 95 países para disputar a cobiçada estatueta. A produção retrata “o dia em que São Paulo parou”, em maio de 2006, quando o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa paulista, fez uma série de ataques coordenados contra alvos do Estado, levando pânico a diversos pontos da metrópole e deixando dezenas de mortos.
O filme conta a história de Lúcia (Andrea Beltrão), uma viúva de classe média que sonha em tirar o filho Rafal (Lee Thalor) da prisão e se vê envolvida com o PCC depois de conhecer a advogada de um dos líderes do grupo. Expondo novamente o lado violento do Brasil, o filme, segundo o distribuidor Bruno Wainer, traz às telas um tema que interessa ao público. "Uma pesquisa mostrou que o filme baseado em fatos reais é um dos gêneros preferidos do brasileiro", disse Wainer à ‘Folha de São Paulo’.
Em entrevista exclusiva à Real, no Rio de Janeiro, o diretor de “Salve Geral”, Sérgio Rezende, falou sobre a produção do longa e dos motivos que o levaram a contar esse capítulo violento da história da metrópole paulista.
Real - Fale um pouco sobre o processo de produção do seu novo filme, "Salve Geral". Como surgiu a ideia e como se desenvolveram as filmagens?
Sério Rezende - Gosto de colocar pessoas comuns em situações incomuns. Alguém que de repente se vê no meio de uma tempestade e reage como pode, no instinto. E os acontecimentos em São Paulo, em maio de 2006, foram mais que uma tempestade,
quase um furacão na vida da cidade. Daí me veio de estalo a ideia desse filme,
três meses depois dos episódios: colocar uma professora de piano, da classe
média, sensível, meio fora da realidade, na realidade brutal da vida nas
prisões brasileiras e na onda de ataques contra as instituições do Estado. Falei da ideia com o Joaquim Carvalho, que tinha produzido Zuzu, e ele gostou. Rodrigo Saturnino, da Sony/Columbia, sempre achou que aqueles fatos davam um
filme. Quando soube que eu tinha projeto, propôs parceria e as coisas começaram
a andar. Depois Bruno Wainer se associou e foi com essa turma que o filme foi
feito.
Real - Como foi filmar no Rio de Janeiro e em São Paulo?
Sério Rezende- Filmar em São Paulo é muito complicado, trânsito, engarrafamentos, essas coisas. Daí montamos nossa base em Paulínia, onde construímos vários cenários em estúdio. Cenas de rua fizemos muitas em Campinas, cidade com ares de São Paulo. Mas não pudemos deixar de filmar na capital, por dez dias, na Paulista e outras avenidas insubstituíveis. E um presídio desativado só achamos no Rio, o da Frei Caneca, onde rodamos duas semanas. No total foram onze semanas de filmagem, incluindo cenas em Foz de Iguaçu.
Real - Com o sucesso de público nos cinemas com comédias, o que você espera
do seu novo filme, que, acreditamos, seja um drama com situações e cenas
violentas?
Sério Rezende- Nada de novo nisso. Comédias sempre fizeram sucesso, desde Oscarito, Mazzaropi, sempre, sempre, em todas as épocas. Mas cinema é como sorveteria, tem que ter vários sabores...
Real - O filme é uma ficção com um contexto real ou é totalmente baseado em
fatos reais?
Sério Rezende - A estrutura dramática é ficcional, os personagens de Lúcia e seu filho Rafa, a advogada do crime, Ruiva. Mas são os fatos reais que de um modo ou de outro definem suas ações.
Real - Porque a Andrea Beltrão para o papel pricipal?
Sérgio Rezende- Sonho antigo trabalhar com a Andrea. Acompanho o trabalho dela no teatro há muitos anos, ela arrebenta. Escrevi o roteiro pensando nela, atrasei as filmagens para que ela pudesse fazer o papel. Hoje tenho certeza de que estava certo, Andrea fez umas maiores interpretações do cinema brasileiro, em todos os tempos.
Real - Qual o seu ponto de vista sobre o cinema brasileiro atual?
Sério Rezende- Acho que vai bem. Há diversidade, há força criativa, o público vai reagindo bem às diferentes propostas, acolhendo dramas, comédias, documentários. Achar dinheiro para fazer os filmes é difícil, mas isso não é privilégio nosso, é mais ou menos assim em qualquer lugar do mundo.
Real - Quais são as suas principais referências artísticas?
Sério Rezende- Faço filmes porque escrevo. Gosto de histórias, de ouvir e de contar. Admiro os grandes narradores, os romancistas russos, Jorge Amado, Guimarães Rosa e o mestre Euclydes, que me inspirou a rodar Guerra de Canudos.
Real - Já tem algum novo projeto em mente?
Sério Rezende - Nem pensar. O momento é de botar “Salve Geral” no mundo, vai levar um tempo até desmamá-lo...
Raio X de Sérgio Rezende
Sérgio Rezende nasceu em 1951, no Rio de Janeiro, e começou sua carreira dirigindo curtas-metragens, com destaques para "P. S. Te Amo" e "Leila Para Sempre Diniz". Em 1980, realizou seu primeiro longa-metragem, o documentário "Até a Última Gota". Ao longo de três décadas, dirigiu vários filmes biográficos de personalidades brasileiras, como “Lamarca”, “Mauá - O Imperador e o Rei” e “Zuzu Angel”.
Sérgio Rezende filmou, em 1986, um de seus mais ambiciosos projetos, "O Homem da Capa Preta", que foi uma das maiores bilheterias da década, além de ser aclamado pela crítica e de ter ganho vários prêmios. Em 1994, realizou o filme "Lamarca", que se tornou um dos grandes responsáveis pela "retomada" do cinema brasileiro.
Filmografia
2009 - Salve Geral
2006 - Zuzu Angel
2004 - O Cinema É Meu Jardim
2004 - Onde Anda Você
2000 - Quase nada
1999 - Mauá - O Imperador e o Rei
1997 - Guerra de Canudos
1994 - Lamarca
1991 - A Children From The South (TV)
1989 - Doida Demais
1986 - O Homem da Capa Preta
1982 - O Sonho Não Acabou
1980 - Até A Última Gota