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Eu não sabia que, já adulta, poderia rir de mim mesma.” Mas riu muito e, definitivamente, não riu sozinha. Em menos de uma semana, a atriz Glória Pires levou, juntamente com Tony Ramos, mais de 1 milhão de espectadores às gargalhadas no Brasil. Era a estreia de “
Se Eu Fosse Você 2”, filme de Daniel Filho, que, recorde de público, atingiu a segunda maior arrecadação da história do cinema no país: R$ 49 milhões, perdendo apenas para “
Titanic”.
Mas não foi no Brasil que Glória Pires disse a frase acima. Foi em meio a um discurso despretensioso e cheio de emoção, após a exibição do filme na abertura do 1º Cine Fest Brasil Londres, realizado de 17 a 20 de setembro, no Riverside Studios, em Hammersmith. “
É complicado fazer um homem quando você é mulher. Eu não sabia que, já adulta, eu poderia rir de mim mesma,” disse Glória.
A edição londrina foi a grande novidade da versão 2009 do Circuito Inffinito de Festivais, que este ano passou por Canudos (Bahia), Buenos Aires, Miami, Vancouver, Nova York e, em Londres, deu a largada à temporada europeia, tendo Roma e Madri como próximos destinos.
Para Adriana Dutra, produtora do festival e uma das fundadoras da Inffinito, a versão inglesa veio com expectativas que foram além da exibição de filmes. “
Queremos criar uma plataforma de comunicação, co-produção e difusão de audiovisual entre Brasil e Inglaterra e estabelecer um mercado para o filme brasileiro,” disse Adriana, que também dirigiu um dos documentários apresentados no festival, “Fumando Espero”, que este mês vira uma série de cinco episódios na TV Globo.
Diversidade brasileira
Durante quatro dias, o público riu e se emocionou com vinte produções. Dentre curtas-metragens, longas e documentários, comédia, drama e ficção, o I Cine Fest Brasil Londres trouxe ao público a mais recente safra do cinema brasileiro, na qual a temática ‘violência urbana’, tão explorada no início deste milênio, dividiu tela com estórias diversas de um Brasil ainda mais variado.
Foram diferentes personagens, lugares, costumes e classes sociais. A simplicidade da favela e a complexidade da burguesia; o canto de Chico Buarque, em “Palavra (En) cantada” e o conto de MC Serginho, em “Favela On Blast”; a dramática adolescência, de “Antes que o Mundo Acabe”, e os dramas da fase adulta, retratada em “Chega de Saudade”. Enfim, mais do que nunca, foi um prazer conferir a multicultural, heterogênea e deliciosa ‘new wave’ do cinema brasileiro.
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Nós estamos fazendo entre 80 e 100 filmes por ano e tem ainda a enorme quantidade de produções caseiras, ou seja, o Brasil está num bom momento e esse tipo de festival é extremamente importante, porque traz a variedade da nossa produção, o que outros festivais não trazem,” avaliou o diretor Bruno Barreto, um dos convidados especiais do festival.
Ele também acompanhou a exibição de seu mais recente trabalho, “Última Parada 174”, que, usando da ficção, conta a história verídica de Sandro Barbosa do Nascimento, que fez um grupo de reféns num ônibus urbano, no Rio de Janeiro, em 2000, e chocou o país com o desfecho trágico do sequestro, transmitido ao vivo pelas televisões do país.
Questionado sobre a escolha da temática ‘violência urbana’, Barreto falou do chamado fator de interesse pela ordem do dia. “Nos anos 60, as pessoas esperavam ver o cangaço, o Nordeste, depois foi uma coisa mais política, com a ditadura, os desaparecidos na Argentina e por aí vai. E já há algum tempo é a violência urbana. Quer dizer, o que é esperado de países como Brasil, Argentina, México, dentre outros, é o que está na ordem do dia, o que sai nos jornais. Mas no caso do ‘Última Parada 174’, eu quis contar essa estória porque é uma grande estória, talvez uma das melhores que já vi na minha vida!”, explicou.
Valorização do cinema nacional
Para Glória Pires, toda a mudança de gênero pela qual o cinema passou e mesmo o período em que praticamente não se produziu filmes no país, tiveram seu lado bom. “Tudo contribuiu para um amadurecimento, valorização e confiança, tanto por parte dos diretores ao contar uma história, quanto por parte do público com relação ao filme nacional. O cinema está retomando um papel que já teve e para nós que estávamos no jejum, essa variedade é simplesmente uma delícia”, opinou.
Ainda novo na área, o ator Murilo Rosa, que também veio conferir e participar do festival, falou da paixão que nasceu pelo cinema após protagonizar o maestro Mozart Vieira em “Orquestra dos Meninos”. O filme, de Paulo Thiago, narra o drama real do maestro que lutou contra o preconceito, corrupção e violência numa cidade do Nordeste do Brasil, ao criar uma orquestra com jovens filhos de lavradores. “Já tinha feito cinema, mas meu foco inicialmente foi o teatro e depois a televisão. Após ‘Orquestra de Meninos’ eu disse pra mim mesmo: ‘Quero fazer parte desse bolo.’”
“Orquestra dos Meninos” foi escolhido pelo público como melhor produção do festival e ganhou o troféu Lente de Cristal, que Murilo prometeu repassar ao maestro Mozart Vieira assim que chegasse no Brasil. “
Tenho certeza que ele vai ficar muito honrado com a premiação,” disse.
O I Cine Fest Brasil Londres terminou deixando um gostinho de quero mais. Para quem perdeu, Adriana Dutra deu o recado. “Quem perdeu, perdeu, mas, não se desespere porque esta foi apenas a primeira de muitas outras edições.” Se a safra de 2010 for tão boa como a de 2009, vale a pena já reservar o ingresso e a pipoca.