Terça-Feira, 07 de Fevereiro de 2012







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LOKI
Crítica do ator e diretor de cinema, Luciano Vidigal,
e do produtor e diretor Cavi Borges
Uma vez uma professora de teatro me explicou a diferença entre “arte e entretenimento”. Um faz pensar, é terapêutico, traz a
leveza para o inconsciente humano...
O outro toca,revoluciona, emociona, cria dúvidas, certezas, transforma... Esse é um tipo de assunto que pode ser relativo,
particular ou universal. Sem a pretensão de criar conceito para
qualquer tipo de manifestação, eu e meu parceiro Cavi Borges
resolvemos falar sobre “arte”. Seguem as nossas impressões
sobre o premiado filme “LOKI”, que estará em cartaz no Cine Fest Brasil - London. Desde que Robert Flaherty realizou, em 1922, o primeiro documentário da história cinematográfica, “Nannok, o Esquimó”, numa perdida aldeia do norte canadense e o termo foi cunhado nos principais dicionários franceses, este tipo de cinema cumpre o papel de registrar e perpetuar, ora a vida de famosos, ora a vida de ilustres desconhecidos. Contando e recontando passagens mais relevantes destes personagens, uns mais didaticamente, outros beirando a experimentação, o cinema documentário, no seu compromisso de explorar a realidade, é o gênero que mais nos tem surpreendido ultimamente pela capacidade de se superar a cada nova edição.

No caso específico do filme “LOKI”, ele veio para resgatar um dos nossos artistas mais instigantes, para não dizer fenomenal. Há muito não se via algo tão emocionante, arrebatador e definitivo no cinema brasileiro, sobretudo se
considerarmos que o excelente “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei”, foi lançado há menos de dois meses no circuito nacional. Mas, para compreendermos melhor o fenômeno “LOKI”, precisamos antes recorrer ao conceito aristotélico de catarse. Ou seja, o que experimentamos ao longo de quase duas horas nada mais é do que a purificação de nossas almas por intermédio de descargas emocionais provocadas por este sessentão senhor chamado Arnaldo Dias Baptista, músico fundador e integrante de Os Mutantes.

Quando menos percebemos, tudo à nossa volta se volatiliza. Nossas referências passam a ser as referências pertinentes à película. Se se droga no filme, nosso hálito logo se entorpece. Quando o perturbado e intergalático personagem Arnaldo Baptista se atira pela janela de um hospital psiquiátrico, fraturando sete costelas e provocando dois edemas, um cerebral e
outro pulmonar, metade da platéia se joga com ele no fosso sem fundo da trágica condição humana. E com ele, todos nós ressuscitamos ao cabo de alguns meses/minutos, agora expurgados, regenerados, com o espírito e a mente novinhos
em folha. Esta é a mágica do filme.

“Eu juro que é melhor não ser o normal.”
Arnaldo Baptista Beira o absurdo o que o jovem cineasta Paulo Henrique Fontenelle, (autor também do premiado curta “Mauro Shampoo”), consegue com esse filme no plano emocional. Nas primeiras sessões em que “LOKI” foi exibido, ninguém parecia querer deixar a sala de cinema. Aplausos.
Muitos aplausos. Filme e personagem foram ovacionados por quase trinta minutos. Trinta minutos! Repito. Ininterruptos! Imagino que nem Pelé, nem Santos Dumont, tampouco Guimarães Rosa (para citarmos apenas a santíssima trindade da genialidade brasileira) foram alvos de tal clamor.

Quem é Arnaldo? Que personagem é este nascido em São Paulo no remoto ano de 1948 e cuja mãe foi concertista e também a primeira mulher no mundo a escrever um concerto para piano e orquestra? Que personagem é este que antes de ingressar no meio acadêmico, onde estudou regência, canto orfeônico e teoria harmônica,já tinha estudado dança (balé clássico e moderno), violão, contrabaixo clássico e se aventurado no campo das línguas: inglês, alemão, esperanto e russo? Que personagem é este cuja carreira musical se iniciou em 1962, no grupo The Thunders, formado com o irmão Cláudio César e depois, junto com o outro irmão, Sérgio Dias, formaram o grupo Six Sided Rockers? Terá sido aí que
ele e Rita Lee se conheceram? Terá sido a partir desta formação que se originou “Os Mutantes”, a mais genial formação de rock do lado de baixo do Equador, do qual Arnaldo era o principal mentor e do qual se desligou no início da década de setenta?

“Agora você está no fundo de nós!”
O documentário começa e termina com Arnaldo pintando um quadro. É a evolução deste quadro que conduz o filme. Nele podemos ler palavras soltas, mas cheias de significados, tais como: “mutantes, sinto muito e psicodelismo”. Os depoimentos começam com Raphael Villardi, amigo de escola, relembrando o dia em que Arnaldo comprou um baixo e decidiu formar um grupo de rock. Nascia ali o grupo O’Seis, mais um dos galhos que originou Os Mutantes.
O sucesso imediato fica evidente na medida em que o grupo se apresenta em vários programas de tvs e festivais pelo país afora, além de turnês internacionais.

Título do primeiro disco solo de Arnaldo Baptista, Loki é também aquele que na mitologia nórdica pode assumir muitas formas. Ou seja, mutante, assim como o próprio Arnaldo. O Loki mitológico é considerado um símbolo de maldade.
Figura traiçoeira, nunca se sabe quando se pode confiar nele. É o senhor dos truques, da trapaça e do sexo. Está ligado ao fogo e à magia e o seu poder de mutação o leva ora a ser um cavalo, ora um falcão e, vez por outra, uma mosca.
Muitas de suas proezas causaram grandes danos ou ferimentos, mas geralmente ele era rápido o bastante para restaurar a ordem e evitar o desastre completo.

O limite entre a vida e a morte, a experiência suicida, o coma e o recolhimento posterior são tratados por ele como uma espécie de poda, que no outono se faz nas árvores, para que dali em diante nasçam folhas novas. Esta imagem poética, inclusive, é uma das partes mais tocantes do documentário, pois soa como uma confissão de alguém que retornava do inferno, trazido e salvo pelas mãos de um anjo da guarda chamado Lucinha Barbosa. A terceira parte diz respeito à recente
retomada do grupo, agora com Zélia Ducan substituindo Rita.
E a mais redentora de todas as cenas: Arnaldo sendo veneradona terra de seus ídolos, depois de um show apoteótico que virou de ponta cabeça a platéia geralmente bem comportada do Centro Cultural Barbican, em Londres. É de lavar a alma!

“Teu castigo será a tua glória!”
“LOKI” é filme de um homem só, embora o mais prudente seria dizer que a equipe toda não passa de três ou quatro cabeças. A trilha musical original era composta por 45 músicas. E ela representou, por algum tempo, o maior entrave para
que o longa ganhasse as salas de cinema, em circuito nacional, devido ao alto custo dos direitos autorais. A solução encontrada foi reduzí-la, assim como certas cenas foram suprimidas, às quais sugeriam que Rita Lee era a principal
responsável pela tentativa de suicído do ex-marido.

Ela, que a princípio havia se recusado a dar entrevista para o filme, mas foi muito cordial, não impondo nenhuma restrição e liberando sua imagem e seu acervo, parece ter se arrependido.
Vale conferir se essas mudanças tão significativas não comprometeram o filme. Os mais críticos apontam a ausência de depoimentos de Rita Lee como o principal calcanhar de aquiles do documentário. Penso que eles têm razão. Mas, ao final,
pouco nos importa. Como pouco nos importa saber se Simonal agiu certo ou errado durante o episódio do contador. O artista sempre sobreviverá ao homem. Talvez a família Castro precise deste atestado de inocência. Talvez o contador
precise de sua verdade para continuar vivendo em paz com a própria consciência. Mas para o público e para a história recente da música popular brasileira, o que interessa neste momento é o resgate que se faz tanto do artista Simonal quanto do gênio Arnaldo.

Da mesma forma, não nos interessa agora saber o que a Rita Lee acha ou deixa de achar do comportamento juvenil de seu ex-marido. O filme o consagrará. O público o consagrará. A história o consagrará. Em ambos os casos, o veredicto do filósofo: “Teu castigo será a tua glória!” O filme traz o sopro das obras-primas, tem a delicadeza translúcida dos objetos
raros, vem chancelado pelo crivo das coisas duradouras.

Arnaldo se enquadra na categoria de artistas como Artaud, Van Gogh, Bosch, Bispo do Rosário, Fernando Diniz e Camile Claudel, dentre outros. Artistas que sovaram na massa fértil de seus corpos o estigma da loucura, e fundiram homem e artista, vida e arte, sofrimento e inspiração numa só obra, deixando-nos um legado sem precedentes.
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