
Uma vez uma professora
de teatro me explicou
a diferença entre “arte
e entretenimento”. Um
faz pensar, é terapêutico, traz a
leveza para o inconsciente humano...
O outro toca,revoluciona,
emociona, cria dúvidas, certezas,
transforma... Esse é um tipo de
assunto que pode ser relativo,
particular ou universal. Sem a
pretensão de criar conceito para
qualquer tipo de manifestação,
eu e meu parceiro Cavi Borges
resolvemos falar sobre “arte”.
Seguem as nossas impressões
sobre o premiado filme “LOKI”,
que estará em cartaz no Cine
Fest Brasil - London.
Desde que Robert Flaherty
realizou, em 1922, o primeiro
documentário da história cinematográfica,
“Nannok, o Esquimó”,
numa perdida aldeia do norte
canadense e o termo foi cunhado
nos principais dicionários franceses,
este tipo de cinema cumpre
o papel de registrar e perpetuar,
ora a vida de famosos, ora a vida
de ilustres desconhecidos. Contando
e recontando passagens
mais relevantes destes personagens,
uns mais didaticamente,
outros beirando a experimentação,
o cinema documentário, no
seu compromisso de explorar a
realidade, é o gênero que mais
nos tem surpreendido ultimamente
pela capacidade de se superar
a cada nova edição.
No caso específico do filme
“LOKI”, ele veio para resgatar um
dos nossos artistas mais instigantes,
para não dizer fenomenal. Há
muito não se via algo tão emocionante,
arrebatador e definitivo no
cinema brasileiro, sobretudo se
considerarmos que o excelente
“Simonal – Ninguém Sabe o Duro
Que Eu Dei”, foi lançado há menos
de dois meses no circuito nacional.
Mas, para compreendermos
melhor o fenômeno “LOKI”, precisamos
antes recorrer ao conceito
aristotélico de catarse. Ou seja,
o que experimentamos ao longo
de quase duas horas nada mais
é do que a purificação de nossas
almas por intermédio de descargas
emocionais provocadas por este
sessentão senhor chamado Arnaldo
Dias Baptista, músico fundador
e integrante de Os Mutantes.
Quando menos percebemos,
tudo à nossa volta se volatiliza.
Nossas referências passam a ser
as referências pertinentes à película.
Se se droga no filme, nosso
hálito logo se entorpece. Quando o
perturbado e intergalático personagem
Arnaldo Baptista se atira pela
janela de um hospital psiquiátrico,
fraturando sete costelas e provocando
dois edemas, um cerebral e
outro pulmonar, metade da platéia
se joga com ele no fosso sem fundo
da trágica condição humana. E
com ele, todos nós ressuscitamos
ao cabo de alguns meses/minutos,
agora expurgados, regenerados,
com o espírito e a mente novinhos
em folha. Esta é a mágica do filme.
“Eu juro que é
melhor não ser o
normal.”
Arnaldo
Baptista
Beira o absurdo o que o jovem
cineasta Paulo Henrique Fontenelle,
(autor também do premiado curta
“Mauro Shampoo”), consegue com
esse filme no plano emocional. Nas
primeiras sessões em que “LOKI”
foi exibido, ninguém parecia querer
deixar a sala de cinema. Aplausos.
Muitos aplausos. Filme e personagem
foram ovacionados por quase
trinta minutos. Trinta minutos! Repito.
Ininterruptos! Imagino que nem
Pelé, nem Santos Dumont, tampouco
Guimarães Rosa (para citarmos apenas a santíssima trindade da
genialidade brasileira) foram alvos
de tal clamor.
Quem é Arnaldo?
Que personagem é este nascido
em São Paulo no remoto ano
de 1948 e cuja mãe foi concertista
e também a primeira mulher no
mundo a escrever um concerto
para piano e orquestra? Que personagem
é este que antes de ingressar
no meio acadêmico, onde
estudou regência, canto orfeônico
e teoria harmônica,já tinha estudado
dança (balé clássico e moderno),
violão, contrabaixo clássico
e se aventurado no campo das
línguas: inglês, alemão, esperanto
e russo? Que personagem é este
cuja carreira musical se iniciou em
1962, no grupo The Thunders, formado
com o irmão Cláudio César
e depois, junto com o outro irmão,
Sérgio Dias, formaram o grupo Six
Sided Rockers? Terá sido aí que
ele e Rita Lee se conheceram?
Terá sido a partir desta formação
que se originou “Os Mutantes”, a
mais genial formação de rock do
lado de baixo do Equador, do qual
Arnaldo era o principal mentor e
do qual se desligou no início da
década de setenta?
“Agora você está
no fundo de nós!”
O documentário começa e
termina com Arnaldo pintando um
quadro. É a evolução deste quadro
que conduz o filme. Nele podemos
ler palavras soltas, mas cheias de
significados, tais como: “mutantes,
sinto muito e psicodelismo”.
Os depoimentos começam com
Raphael Villardi, amigo de escola,
relembrando o dia em que Arnaldo
comprou um baixo e decidiu
formar um grupo de rock. Nascia
ali o grupo O’Seis, mais um dos
galhos que originou Os Mutantes.
O sucesso imediato fica evidente
na medida em que o grupo se
apresenta em vários programas de
tvs e festivais pelo país afora, além
de turnês internacionais.
Título do primeiro disco solo de
Arnaldo Baptista, Loki é também
aquele que na mitologia nórdica
pode assumir muitas formas.
Ou seja, mutante, assim como o
próprio Arnaldo. O Loki mitológico
é considerado um símbolo de
maldade.
Figura traiçoeira, nunca se sabe
quando se pode confiar nele. É o
senhor dos truques, da trapaça e
do sexo. Está ligado ao fogo e à
magia e o seu poder de mutação
o leva ora a ser um cavalo, ora um
falcão e, vez por outra, uma mosca.
Muitas de suas proezas causaram
grandes danos ou ferimentos,
mas geralmente ele era rápido o
bastante para restaurar a ordem e
evitar o desastre completo.
O limite entre a vida e a morte,
a experiência suicida, o coma e o
recolhimento posterior são tratados
por ele como uma espécie de
poda, que no outono se faz nas
árvores, para que dali em diante
nasçam folhas novas. Esta imagem
poética, inclusive, é uma das
partes mais tocantes do documentário,
pois soa como uma
confissão de alguém que retornava
do inferno, trazido e salvo
pelas mãos de um anjo da guarda
chamado Lucinha Barbosa. A terceira
parte diz respeito à recente
retomada do grupo, agora com
Zélia Ducan substituindo Rita.
E a mais redentora de todas as
cenas: Arnaldo sendo veneradona terra de seus ídolos, depois de
um show apoteótico que virou de
ponta cabeça a platéia geralmente
bem comportada do Centro
Cultural Barbican, em Londres. É
de lavar a alma!
“Teu castigo será a
tua glória!”
“LOKI” é filme de um homem
só, embora o mais prudente seria
dizer que a equipe toda não passa
de três ou quatro cabeças. A trilha
musical original era composta por
45 músicas. E ela representou, por
algum tempo, o maior entrave para
que o longa ganhasse as salas
de cinema, em circuito nacional,
devido ao alto custo dos direitos
autorais. A solução encontrada
foi reduzí-la, assim como certas
cenas foram suprimidas, às quais
sugeriam que Rita Lee era a principal
responsável pela tentativa de
suicído do ex-marido.
Ela, que a
princípio havia se recusado a dar
entrevista para o filme, mas foi muito
cordial, não impondo nenhuma
restrição e liberando sua imagem
e seu acervo, parece ter se arrependido.
Vale conferir se essas
mudanças tão significativas não
comprometeram o filme.
Os mais críticos apontam a
ausência de depoimentos de Rita
Lee como o principal calcanhar de
aquiles do documentário. Penso
que eles têm razão. Mas, ao final,
pouco nos importa. Como pouco
nos importa saber se Simonal agiu
certo ou errado durante o episódio
do contador. O artista sempre
sobreviverá ao homem. Talvez a
família Castro precise deste atestado
de inocência. Talvez o contador
precise de sua verdade para continuar
vivendo em paz com a própria
consciência. Mas para o público e
para a história recente da música
popular brasileira, o que interessa
neste momento é o resgate que se
faz tanto do artista Simonal quanto
do gênio Arnaldo.
Da mesma forma, não nos
interessa agora saber o que a
Rita Lee acha ou deixa de achar
do comportamento juvenil de seu
ex-marido. O filme o consagrará. O
público o consagrará. A história o
consagrará. Em ambos os casos,
o veredicto do filósofo: “Teu castigo
será a tua glória!” O filme traz
o sopro das obras-primas, tem a
delicadeza translúcida dos objetos
raros, vem chancelado pelo crivo
das coisas duradouras.
Arnaldo se enquadra na categoria
de artistas como Artaud, Van
Gogh, Bosch, Bispo do Rosário,
Fernando Diniz e Camile Claudel,
dentre outros. Artistas que sovaram
na massa fértil de seus corpos
o estigma da loucura, e fundiram
homem e artista, vida e arte, sofrimento
e inspiração numa só obra,
deixando-nos um legado sem
precedentes.