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| O cinema na visão do morro |
| Projeto “Cinco Vezes Favela, agora por
eles mesmos”, do diretor Cacá Diegues, vai
ser realizado por jovens cineastas moradores
de favelas cariocas |
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Entrevista concedida no Rio de
Janeiro ao ator e diretor, Luciano
Vidigal, e ao diretor e produtor de
cinema, Cavi Borges.
Fotos: Luz Mágica |
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 Jovens de comunidades do
Rio de Janeiro estão aprendendo
a fazer cinema com
mestres como Ruy Guerra,
Walter Lima Jr., Fernando Meirelles,
Walter Salles, Daniel Filho,
João Moreira Salles e Cesar
Charlone.
O projeto
“Cinco vezes
favela, agora
por eles
mesmos”
vai resultar
no primeiro
filme totalmente
escrito,
dirigido
e realizado
por cineastas
moradores de favelas cariocas.
Idealizado por Cacá Diegues,
o projeto é inspirado no longametragem
“Cinco Vezes Favela”,
de 1961, um dos marcos inaugurais
do Cinema Novo Brasileiro,
dirigido por Cacá, Pedro Andrade,
Leon Hirszman, Marcos Farias e
Miguel Borges.
Em 2007, Cacá Diegues, o
único diretor do filme original
ainda em atividade, e a produtora
Renata Magalhães, sócios da
Luz Mágica Produções, deram
início às oficinas de roteiro. Foram
quase três meses de trabalho
com 150 jovens para escrever
os episódios do filme, que será
realizado pela Globo Filmes, Sony
e Rio Filmes.
“Cinco vezes favela, agora
por eles mesmos” conta com o
apoio de organizações sócio-culturais de moradores, como a
CUFA (Centra Única das Favelas,
em Cidade de Deus), Nós
do Morro (Vidigal), Observatório
de Favelas (Complexo da Maré),
AfroReggae (Parada de Lucas) e
Cinemaneiro (Lapa).
Os alunos que se destacaram
nas oficinas de fotografia, som,
direção de arte, edição e elenco
participarão do filme, que começou
a ser rodado no final de junho.
A
Real conversou com Cacá Diegues
sobre o revolucionário projeto
que vai proporcionar um novo foco
ao cinema brasileiro.
Real - Qual foi o ponto de partida
para o projeto “Cinco Vezes
Favela”?
Cacá Diegues - Depois de mais
de uma década de contatos com
organizações culturais de favelas
cariocas, iniciados com o filme
“Veja esta Canção” (1993), tive a
idéia de produzir uma nova versão
do “Cinco Vezes Favela”, de 1961,
um formato criado pelo Centro
Popular de Cultura da UNE (União
Nacional dos Estudantes), sob
inspiração de Leon Hirszman. Só
que, agora, em vez dos cinco universitários
de classe média que o
fizeram no passado, os cinco episódios
seriam escritos e totalmente
realizados por jovens cineastas
moradores de favelas cariocas.
Dessa vez, o filme se chamaria
“Cinco vezes favela, agora por
eles mesmos”.
Assim que tive a idéia, eu e
Renata Magalhães, minha sócia
na produtora Luz Mágica, montamos
cinco oficinas de roteiro em
cinco comunidades do Rio, com
o apoio de organizações locais:
em Cidade de Deus, Vidigal,
Complexo da Maré, Parada de
Lucas e na Linha Amarela, com
o patrocínio da Globofilmes. Os
alunos de cada oficina escolheram
os argumentos pelo voto e
depois desenvolveram coletivamente
os roteiros.
Real - Cacá, fale um pouco sobre
o processo das oficinas de preparação
técnica.
Cacá Diegues - As oficinas de
preparação técnica duraram sete semanas, com uma aula inaugural
do mestre Nelson Pereira
dos Santos. No total, 603 jovens
moradores de favelas se inscreveram
para essas oficinas, mas
só foi possível atender a 208, devido
aos recursos disponíveis e à
viabilidade prática das aulas. Os
selecionados escolheram as áreas
de sua preferência (produção,
direção, fotografia, arte, edição,
finalização, interpretação) e começaram
a ter aulas diárias com
professores como Ruy Guerra,
Walter Lima Jr., Dib Lutfi, Camila
Amado, Guto Graça Mello, Lauro
Escorel, Marcos Flaksman e
muitos outros.
Além das aulas regulares, os
alunos tiveram à sua disposição
uma sala de projeção e computadores
para que vissem os filmes
indicados pelos professores e
outros de seu interesse pessoal,
de um acervo que pusemos a
seu alcance, através de acordo
com a Cavídeo.
Toda segunda-feira, os alunos
se reuniam para uma palestra
coletiva, uma troca de experiências
com algum profissional
do cinema brasileiro. Eles ouviram
Manoel Rangel (presidente
da Ancine, sobre “A gestão
do cinema brasileiro”); Cesar
Charlone (diretor de fotografia
de “Cidade de Deus” e “Ensaio
Sobre a Cegueira”, a propósito
de “A imagem cinematográfica”);
Daniel Filho (diretor de cinema
e TV, com o tema “Cinema e
televisão”), João Moreira Salles
(o mais importante documentarista
brasileiro, falando sobre
“Técnica e ética do documentário”),
Fernando Meirelles (diretor
de “Cidade de Deus” e “Ensaio
Sobre a Cegueira”, abordando
“A ficção cinematográfica”) e
Walter Salles (diretor de “Central
do Brasil”, analisando o “Cinema
contemporâneo”).
Real - Quando começaram as
filmagens?
Cacá Diegues - No dia 29 de
junho. Os cinco episódios serão
realizados em seis semanas. A
produtora do filme é a Luz Mágica,
com produção de Renata
Magalhães, coordenação geral de
Carlos Diegues, co-produção da
Rio Filmes e Globofilmes, apoio da
TeleImage, Videofilmes e Quanta,
e patrocínio, através das leis
de incentivo, do BNDES, Light,
LAMSA (Linhas Amarelas) e MMX
(Eike Batista). O filme deve estrear
no fim do ano, em todo o Brasil,
distribuído pela Sony/Columbia.
Real - Qual a finalidade destes
jovens envolvidos nas oficinas?
Cacá Diegues - Não estamos
preparando apenas mão-deobra
para o mercado de trabalho
formal do cinema brasileiro, mas
também treinando esses jovens
cineastas para que se tornem
porta-vozes deles mesmos, como
agentes e testemunhas da vida
em suas comunidades. O que
eles têm a dizer e o modo de
dizê-lo devem ter uma grande contribuição à linha evolutiva do
cinema brasileiro.
Real - Você acredita que essa galera
proveniente de comunidades e
favelas pode trazer algo novo para
o nosso cinema?
Cacá Diegues - Se não acreditasse
nisso, não estaria promovendo
esse projeto. Esse é o ponto central
de “Cinco vezes favela, agora
por eles mesmos”: se integrar à
economia formal do cinema brasileiro,
trazendo com ele uma contribuição
transformadora.
Real - Que critério você usou
para escolher os diretores dos
episódios?
Cacá Diegues - Os diretores
foram escolhidos ao final das
oficinas de roteiro, em função
de seu aproveitamento nelas e
do currículo de cada um em seu
trabalho audiovisual. Eu já estava
acostumado a ver os filmes deles
e sabia o que cada um poderia
realizar neste novo projeto. Procuramos
também entregar a direção
de cada filme, na medida do
possível, àqueles que estivessem
de algum modo ligados ao roteiro
escolhido e desenvolvido em cada
comunidade.
Real - Qual a importância da favela
no cinema?
Cacá Diegues - Acho que a
pergunta mais correta seria a
inversão dessa: qual a importância
do cinema na favela? Acho
que é antes de tudo a integração
de seus moradores na sociedade
brasileira, gozando de todos os
seus direitos de cidadão, inclusive
a oportunidade que o resto da
população possa ter. Uma integração
a partir da interpretação
da favela pelos seus próprios
moradores, capazes de olhar para
essas comunidades com um olhar
original e pertinente, livre dos
preconceitos do resto da sociedade.
“Cinco vezes favela, agora por
eles mesmos” é um assalto, uma
invasão do centro pela margem
através do cinema.
Real - Você acredita que um dia o
cinema se torne uma arte popular
e de acesso para todos?
Cacá Diegues - Acho que, com
as novas tecnologias, estamos
caminhando cada vez mais rapidamente
para isso. Lembro-me
de Francis Ford Coppola afirmando,
na época de “Apocalipse
Now”, que o cinema só seria
uma grande arte, merecedora
do respeito que as outras têm,
no dia em que um jovem filho de
operário fizer um filme, desses
realizados no fim de semana, e
descobrirmos que ele é um Giotto
ou um Mozart.
Real - Quais são suas expectativas
com o projeto?
Cacá Diegues - Completar a
produção de “Cinco vezes favela,
agora por eles mesmos”, ajudando
a cada um de seus realizadores a
fazer, da melhor maneira possível,
aquilo que eles desejam expressar.
O filme é deles.
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