Sábado, 31 de Julho de 2010







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O cinema na visão do morro
Projeto “Cinco Vezes Favela, agora por eles mesmos”, do diretor Cacá Diegues, vai ser realizado por jovens cineastas moradores de favelas cariocas
Entrevista concedida no Rio de Janeiro ao ator e diretor, Luciano
Vidigal, e ao diretor e produtor de cinema, Cavi Borges.
Fotos: Luz Mágica
Jovens de comunidades do Rio de Janeiro estão aprendendo a fazer cinema com mestres como Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Fernando Meirelles, Walter Salles, Daniel Filho, João Moreira Salles e Cesar
Charlone.

O projeto “Cinco vezes favela, agora por eles mesmos” vai resultar
no primeiro filme totalmente escrito, dirigido e realizado por cineastas
moradores de favelas cariocas. Idealizado por Cacá Diegues, o projeto é inspirado no longametragem “Cinco Vezes Favela”, de 1961, um dos marcos inaugurais do Cinema Novo Brasileiro,
dirigido por Cacá, Pedro Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e
Miguel Borges. Em 2007, Cacá Diegues, o único diretor do filme original ainda em atividade, e a produtora Renata Magalhães, sócios da Luz Mágica Produções, deram início às oficinas de roteiro. Foram quase três meses de trabalho com 150 jovens para escrever os episódios do filme, que será realizado pela Globo Filmes, Sony e Rio Filmes.

“Cinco vezes favela, agora por eles mesmos” conta com o apoio de organizações sócio-culturais de moradores, como a
CUFA (Centra Única das Favelas, em Cidade de Deus), Nós do Morro (Vidigal), Observatório de Favelas (Complexo da Maré), AfroReggae (Parada de Lucas) e Cinemaneiro (Lapa).
Os alunos que se destacaram nas oficinas de fotografia, som, direção de arte, edição e elenco participarão do filme, que começou a ser rodado no final de junho.

A Real conversou com Cacá Diegues sobre o revolucionário projeto que vai proporcionar um novo foco ao cinema brasileiro.

Real - Qual foi o ponto de partida para o projeto “Cinco Vezes Favela”?
Cacá Diegues - Depois de mais de uma década de contatos com organizações culturais de favelas cariocas, iniciados com o filme “Veja esta Canção” (1993), tive a idéia de produzir uma nova versão do “Cinco Vezes Favela”, de 1961, um formato criado pelo Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes), sob inspiração de Leon Hirszman. Só
que, agora, em vez dos cinco universitários de classe média que o fizeram no passado, os cinco episódios seriam escritos e totalmente realizados por jovens cineastas moradores de favelas cariocas. Dessa vez, o filme se chamaria “Cinco vezes favela, agora por eles mesmos”.
Assim que tive a idéia, eu e Renata Magalhães, minha sócia na produtora Luz Mágica, montamos cinco oficinas de roteiro em cinco comunidades do Rio, com o apoio de organizações locais: em Cidade de Deus, Vidigal, Complexo da Maré, Parada de Lucas e na Linha Amarela, com o patrocínio da Globofilmes. Os alunos de cada oficina escolheram
os argumentos pelo voto e depois desenvolveram coletivamente os roteiros.


Real - Cacá, fale um pouco sobre o processo das oficinas de preparação técnica.
Cacá Diegues - As oficinas de preparação técnica duraram sete semanas, com uma aula inaugural do mestre Nelson Pereira dos Santos. No total, 603 jovens moradores de favelas se inscreveram para essas oficinas, mas só foi possível atender a 208, devido aos recursos disponíveis e à viabilidade prática das aulas. Os selecionados escolheram as áreas
de sua preferência (produção, direção, fotografia, arte, edição, finalização, interpretação) e começaram a ter aulas diárias com professores como Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Dib Lutfi, Camila Amado, Guto Graça Mello, Lauro Escorel, Marcos Flaksman e muitos outros.
Além das aulas regulares, os alunos tiveram à sua disposição uma sala de projeção e computadores
para que vissem os filmes indicados pelos professores e outros de seu interesse pessoal, de um acervo que pusemos a
seu alcance, através de acordo com a Cavídeo.
Toda segunda-feira, os alunos se reuniam para uma palestra coletiva, uma troca de experiências com algum profissional
do cinema brasileiro. Eles ouviram Manoel Rangel (presidente da Ancine, sobre “A gestão do cinema brasileiro”); Cesar
Charlone (diretor de fotografia de “Cidade de Deus” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, a propósito de “A imagem cinematográfica”); Daniel Filho (diretor de cinema e TV, com o tema “Cinema e televisão”), João Moreira Salles (o mais importante documentarista brasileiro, falando sobre “Técnica e ética do documentário”), Fernando Meirelles (diretor de “Cidade de Deus” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, abordando “A ficção cinematográfica”) e Walter Salles (diretor de “Central
do Brasil”, analisando o “Cinema contemporâneo”).


Real - Quando começaram as filmagens?
Cacá Diegues - No dia 29 de junho. Os cinco episódios serão realizados em seis semanas. A produtora do filme é a Luz Mágica, com produção de Renata Magalhães, coordenação geral de Carlos Diegues, co-produção da Rio Filmes e Globofilmes, apoio da TeleImage, Videofilmes e Quanta, e patrocínio, através das leis de incentivo, do BNDES, Light,
LAMSA (Linhas Amarelas) e MMX (Eike Batista). O filme deve estrear no fim do ano, em todo o Brasil, distribuído pela Sony/Columbia.



Real
- Qual a finalidade destes jovens envolvidos nas oficinas?
Cacá Diegues - Não estamos preparando apenas mão-deobra para o mercado de trabalho formal do cinema brasileiro, mas também treinando esses jovens cineastas para que se tornem porta-vozes deles mesmos, como agentes e testemunhas da vida em suas comunidades. O que eles têm a dizer e o modo de dizê-lo devem ter uma grande contribuição à linha evolutiva do cinema brasileiro.

Real - Você acredita que essa galera proveniente de comunidades e favelas pode trazer algo novo para o nosso cinema?
Cacá Diegues - Se não acreditasse nisso, não estaria promovendo esse projeto. Esse é o ponto central de “Cinco vezes favela, agora por eles mesmos”: se integrar à economia formal do cinema brasileiro, trazendo com ele uma contribuição
transformadora.


Real - Que critério você usou para escolher os diretores dos episódios?
Cacá Diegues - Os diretores foram escolhidos ao final das oficinas de roteiro, em função de seu aproveitamento nelas e
do currículo de cada um em seu trabalho audiovisual. Eu já estava acostumado a ver os filmes deles e sabia o que cada um poderia realizar neste novo projeto. Procuramos também entregar a direção de cada filme, na medida do possível, àqueles que estivessem de algum modo ligados ao roteiro escolhido e desenvolvido em cada comunidade.

Real - Qual a importância da favela no cinema?
Cacá Diegues - Acho que a pergunta mais correta seria a inversão dessa: qual a importância do cinema na favela? Acho
que é antes de tudo a integração de seus moradores na sociedade brasileira, gozando de todos os seus direitos de cidadão, inclusive a oportunidade que o resto da população possa ter. Uma integração a partir da interpretação
da favela pelos seus próprios moradores, capazes de olhar para essas comunidades com um olhar original e pertinente, livre dos preconceitos do resto da sociedade. “Cinco vezes favela, agora por eles mesmos” é um assalto, uma invasão do centro pela margem através do cinema.


Real - Você acredita que um dia o cinema se torne uma arte popular e de acesso para todos?
Cacá Diegues - Acho que, com as novas tecnologias, estamos caminhando cada vez mais rapidamente para isso. Lembro-me de Francis Ford Coppola afirmando, na época de “Apocalipse Now”, que o cinema só seria uma grande arte, merecedora do respeito que as outras têm, no dia em que um jovem filho de operário fizer um filme, desses realizados no fim de semana, e descobrirmos que ele é um Giotto ou um Mozart.

Real - Quais são suas expectativas com o projeto?
Cacá Diegues - Completar a produção de “Cinco vezes favela, agora por eles mesmos”, ajudando a cada um de seus realizadores a fazer, da melhor maneira possível, aquilo que eles desejam expressar. O filme é deles.
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