Terça-Feira, 07 de Fevereiro de 2012







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Camden Town
Mergulhe no mundo sonoro e alternativo da capital, onde o excêntrico nunca está fora de moda

Texto e fotos: Rafael Bastos
Ilustrações: Patu Tifinger
Março 2010

Camden TownUm dos primeiros lugares que conheci quando cheguei a Londres há quatro anos foi Camden Town. Lembro que, assim como qualquer um que pisa ali pela primeira vez, fiquei embasbacado com a diversidade de estilos, comportamento e excentricidades multiculturais: do dark gótico ao colorido vintage anos 50; do punk sujo (e os de boutique) ao yuppie almofadinha; do indie grunge ao rockabilly de topete; estudantes se embriagando em frente aos pubs – aguardando a maior idade para poder entrar; traficantes nas esquinas oferecendo mercadoria aos turistas com cara de maluco... lojas, cafés, feiras, restaurantes, casas de shows, artigos natureba, ateliês, piercing, tatuagem, rock, jazz, indie, blues, eletrônico, brit pop, reggae, heavy metal, pop arte, bugigangas, gastronomia internacional, souvenirs e por aí vai... Eu sempre digo que se tem um lugar onde um alienígena andaria sem ser notado, esse lugar é Camden Town.

Primórdios

Até meados do século 19, a região onde hoje está Camden Town não passava de uma área rural nas cercanias de Londres, com algumas construções isoladas e uma ou duas tavernas entre lotes de terras. Tudo começou a mudar com a construção do Regents Canal, inaugurado em 1920, para facilitar o escoamento de mercadorias desde a área industrial, no centro da Inglaterra, para o rio Tâmisa, possibilitando o desenvolvimento da área com a construção de armazéns e diferentes negócios. Incluindo o grande estábulo para os cavalos, que eram usados para puxar as embarcações pelo pavimento às margens do canal.

O tráfego fluvial declinou com o desenvolvimento das vias urbanas em 1950. E no inicio da década de 70, as antigas construções da primeira fase do Regents Canal passaram a ser utilizadas como oficinas de arte e feiras aos finais de semana. Logo a área tornou-se popular, atraindo londrinos de outras partes da cidade e turistas do mundo inteiro.

Com a popularização da área, três novos mercados foram abertos em 1985 e desde então dezenas de outros estabelecimentos de diferentes setores proliferaram pela Camden High Street e imediações. O bairro tornou-se um ponto turístico obrigatório nos guias internacionais e atualmente atrai centenas de milhares de turistas todos os anos.

Os famosos mercados

Andar por Camden Town durante o dia exige muita disposição para percorrer as centenas de lojas e tendas, além de olhos preparados para experiências visuais, no mínimo, surreais. Não só pelos personagens que vivem e circulam por ali, mas pela diversidade de produtos para todos os fins e gostos.

Na Camden Hight street, do trecho entre a Camden Town Station e Chalk Farm station, é onde se concentra basicamente toda a zona comercial do bairro, com lojas, pubs, mercados, restaurantes e estúdios de tattoo e piercing.

Subindo a high street em direção ao Regents Canal, logo avista-se a fachada do Camden Lock Market, o primeiro da região, inaugurado em 1975. Com uma circulação média de 150 mil pessoas por dia, o estabelecimento oferece variadas seleções de artigos para casa, arte, bijuteria e roupas de designers independentes de diferentes nacionalidades e uma infinidade de outros produtos.

Indo um pouco mais adiante na rua principal está o Camden Stables Market, onde antigamente se localizava o estábulo. Para mim, o mais interessante de todos os mercados da região. Ali o decadente da arquitetura do início do século 19 e algumas tendas de aparência medieval se misturam com o moderno das lojas para clubbers e o retrô dos anos 60, 70 e 80. A sensação às vezes é de estar em cenas de filmes futuristas decadentes, como Blade Runner. Lugar ótimo para comprar roupa vintage - ou de segunda mão -, música, artigos asiáticos, livros usados; enfim, praticamente tudo o que você imaginar em termos de vestimenta alternativa, artigos cult e excentricidades diversas.

Pelos corredores e entranças do mercado encontram-se também as seções gastronômicas com comida de várias partes do mundo, principalmente asiática. Dica: depois das 5 da tarde, quando falta uma hora para fechar o mercado, o preço do take away cai para menos da metade, porém, o assédio dos chineses oferecendo amostra grátis duplica.

Outra opção para compras e entretenimento é o Camden Lock Village, do outro lado da rua. O espaço é como uma extensão do Stables, porém, com acesso às margens do Regents Canal.

Vibrações sonoras

Camden TownCom o fim do expediente dos mercados e a consequente debandada dos turistas, Camden passa a mostrar o seu lado genuinamente londrino, com pubs cheios e música acontecendo por todos os cantos durante as sete noites da semana. São dezenas de lugares para curtir bandas ao vivo e discotecagem para todos os gostos.

Camden é sem dúvida o coração da música alternativa do Reino Unido. Bandas como Oasis, Blur, Radioread, Cold Play e muitas outras passaram por ali no começo da carreira, sejam tocando no porão do Underworld, outro famoso espaço abaixo do mais antigo pub the Camden, o World’s End, que fica logo na saída da estação. Ou nas garagens do bairro, como faziam The Clash, Sidy Vicius e Madness na década de 70, época em que a cultura punk começou a tomar conta do lugar. Lembrando também um dos ícones contemporâneos de Camden, Amy Winehouse, que está sempre tomando umas (e outras) no pub Hawley Arms, que fica a alguns metros do Stables Market.

BarFly, com uma agenda mais alternativa; Camden Proud, de tendência maior para música eletrônica; The Electric Ballroom, com mais de 40 anos de história e um currículo de apresentações lendárias de bandas como The Smiths; Jazz Cafe e sua programação anual lotada de jazz, soul, funk, world music, dance e hip hop; Dingwals, mais eclético, localizado dentro de Camden Lock Market... Enfim, uma lista sem fim a ser desbravada.

A verve artística e musical de Camden vem de longa data. Isso pode ser constatado pela história de dois outros espaços culturais importantes e lendários: Koko e Roundhouse’s.

Inaugurado em 1900 com o nome de Camden Theatre, a atual Koko já foi teatro, cinema e auditório da BBC. Em 1970, com o nome de Music Machine, o espaço foi vitrine para a primeira onda punk com memoráveis apresentações do Sex Pistols e The Clash. Em 2004, a casa passou por reforma milionária, porém, as instalações de madeira do antigo teatro foram mantidas, preservando assim as características acústicas do lugar, o que a torna ainda mais fantástica pela qualidade sonora. Koko fica na saída da estação de Mornington Crescent.

Casa de máquinas construída em 1846, o Roundhouse passou a ser usado como espaço para artes na década de 60. Jimi Hendrix e Pink Floyd eram alguns dos nomes na agenda de shows da casa. O espaço também passou por uma grande reforma e hoje abriga um dos mais modernos sistemas acústicos da capital. O Roundhouse fica na Chalk Farm Rd , continuação da Camden Hight street em direção à Chalk Farm Station.

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