Política e Futebol
O futebol, definitivamente, não deixa o Brasil em paz. À derrota na África seguiu-se uma maré infindável de lances desagradáveis. Bruno, goleiro do Flamengo, envolve-se num crime sinistro, que nem um ficcionista de primeiro escalão de Hollywood conseguiria roteirizar. Mal entrega a taça para a Espanha, a Fifa volta a artilharia pro lado de cá do Atlântico e azeda o clima geral. “Há tudo a se fazer para 2014”, vuvuzelou Blatter. “Pensam que somos idiotas a ponto de não sabermos conduzir nossas prioridades”, rebateu Lula.
Blatter, Lula, Ricardo Teixeira, Kassab, comitê paulista – todo mundo olhando torto pra todo mundo. Felipão é repatriado, mas o que poderia ser um oásis – a volta de um dos técnicos mais cobiçados do mundo – em meio a esse inferno acaba fazendo parte dele: a Via Láctea inteira o queria como técnico da seleção e todo mundo passou a olhar torto para qualquer palmeirense que atravesse a rua. Agora que a CBF definiu Mano Menezes como substituto de Dunga, a tendência é de que a mídia deixe o Palmeiras em paz a lamber suas próprias feridas e que “apenas” a próxima Copa, com seu interminável rol de pendências, rivalize, em polêmicas, com a campanha presidencial. Meu Deus, vamos eleger o próximo presidente daqui a três meses!
...
Em outubro, o País vai às urnas para fazer o que vem fazendo desde Fernando Collor: escolher entre um tucano e um petista. No caso, uma petista. Depois de oito anos de FHC, estamos completando oito anos de Lula. Chegou a hora do Brasil desempatar essa disputa. De um lado, o braço direito de Lula, desde que Zé Dirceu foi defenestrado pelo mensalão. De outro, Serra, o braço esquerdo de FHC, que apanhou de Lula em 2002 e, desde então, ganhou do eleitor, como compensação, a prefeitura e o governo de São Paulo.
...
Por fora, Marina Silva, a filha dos seringais amazônicos que, pressionada pelos lobbies hidrelétricos, abandonou o barco lulista e coloca-se, agora no PV, como alternativa à campanha plebiscitária sonhada pela situação. Todos no governo queriam um embate direto Dilma x Serra, porém Marina cooptou o presidente da Natura para vice e, com um discurso articulado, fará um favor ao País: arregimentará de 10% a 15% dos votos, o que forçará o segundo turno – essencial para o Brasil se entender um pouco mais.
...
Enquanto isso, o Congresso, como sempre, com suas idiossincrasias, dando uma no cravo e outra na ferradura. Aprova – para espanto geral da nação – a lei da Ficha Limpa, que barra a candidatura de quem estiver condenado em segunda instância e, por outro lado, sob a batuta do comunista Aldo Rebelo, anistia desmatamentos e suaviza exigências importantes do Código Florestal. Para muitos, mudanças inoportunas numa época em que começam a pegar novas legislações ambientais urbanas, que preconizam a destinação adequada de resíduos – nova denominação para o velho lixo – e a logística reversa, pela qual a responsabilidade pelo descarte dos produtos não é mais de quem consome e, sim, de quem fabrica, comercializa e distribui.
...
A questão do Morumbi merece um adendo. Do alto de sua popularidade magistral, que há anos orbita nos 80%, Lula entrou de vez na polêmica, com o argumento de que São Paulo não pode deixar de abrir o Mundial de 2014. Mas, nesse jogo de muitos interesses, há espaço também para rompantes passionais, próprios do mundo do futebol. Ao verem seu estádio naturalmente indicado para a festa, os dirigentes do São Paulo fizeram subir a níveis estratosféricos a já inflada prepotência tricolor. Propagandearam que, com os investimentos necessários para um evento desse porte no Morumbi, o clube daria um salto magistral. Ficaria 25 anos à frente de seus rivais. Pronto, eis a senha para a reação. E a rasteira foi imensa. A Fifa já anunciou um zilhão de vezes o veto ao Morumbi.
...
Mas, em se tratando dessa entidade, nada é irreversível. A palavra da Fifa – está historicamente provado – vale menos do que uma bala descascada. É uma entidade que reage prontamente a qualquer interferência estatal no esporte que comanda, porém não vive sem o Estado. Agarra-se a ele com unhas e dentes e, muitas vezes, faz dele o que quer. E, em outras, faz o que ele quer. No fim, o que vai dar? Morumbi? Piritubão? Arena Palestra? Pacaembu reformatado? O Estado de São Paulo fora da Copa? Com a palavra, o polvo vidente de Oberhausen.