Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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O Brasil do AfroReggae
Mais do que ritmos, o grupo carioca compartilhou uma experiência de transformação social que deu certo
Texto: Carol Morandini
Fotos: Ratão Diniz
Agosto 2010

O Brasil tem ganhado cada vez mais espaço no cenário internacional, os jornais dizem que a economia está crescendo, o desemprego caindo e a desigualdade está menor. Regras não existem, mas nas últimas décadas foi possível perceber que para que aconteça uma melhora na economia e na vida das pessoas, o incentivo à cultura é fundamental.

A cultura não é algo fixo, ela muda constantemente, proporciona mais igualdade entre as pessoas, representa mais vozes, experiências e realidades. A cultura fala por todos”, afirma Jude Kelly, diretora artística do Southbank Centre, durante o debate “The Edge of the Future: Renegotiating Power”, que teve entre os participantes membros do AfroReggae, grupo carioca que há 17 anos trabalha a arte como forma de transformação social.

Paul Heritage, produtor, diretor, escritor e considerado “informalmente” o Embaixador Cultural do grupo, trabalha há 13 anos com o AfroReggae e abriu o debate resumindo o espírito do grupo. “É um exercício de cidadania. Eles promovem oficinas, treinamentos, projetos sociais, shows, apresentações, criam artistas, fazem filmes, publicações e recentemente construíram o Centro Cultural Wally Salomão dentro da favela de Vigário Geral. Eles constróem “pontes” de acesso às favelas”, conta.

Inspiração na tragédia

Com muita confiança no trabalho que faz, o coordenador executivo do AfroReggae, José Júnior, disse que tudo o que sabe aprendeu na rua, entre traficantes, prostitutas e assaltantes, mas que nunca se envolveu em nada disso pelo amor que tinha por sua mãe. A inspiração, segundo ele, veio da morte de muitos de seus amigos. “Estranho dizer que a morte traz mais inspiração do que a vida, mas eu crio quando estou triste, na tragédia, no caos. Tudo o que fiz na vida deu errado, o AfroReggae deu certo, por isso não podemos parar”, afirma.

Júnior conta que no começo foi muito desencorajado a continuar o projeto. “Todos me diziam que não daria certo, que era perda de tempo, mas uma das minhas maiores qualidades é que, felizmente, eu não escuto as pessoas”, conta sorrindo. Quase duas décadas depois, o AfroReggae é uma das iniciativas sociais de maior sucesso no Brasil.

Hoje nós passamos a dar lucro para os business não só economicamente, mas na parte de responsabilidade social. Não aceitamos filantropia, nós criamos o primeiro banco dentro de uma favela. Quando levamos grandes empresas para a favela para que eles ganhem dinheiro também, exigimos que deixem um legado social. O empreendedor tem que ser da favela e os lucros divididos. Tudo é muito bom quando todo mundo ganha, a favela, o AfroReggae e a corporação”, reforça Júnior.

O grupo tem inúmeros projetos em cinco favelas do Rio de Janeiro, além de percorrer o mundo com apresentações. Empregando mais de 170 pessoas, o AfroReggae já ganhou mais de 40 prêmios. “Quando o Júnior me convidou para trabalhar com ele como uma espécie de consultor em relação aos business e a favela, fui procurar o que significava a palavra “companhia”, que vem do latim e quer dizer compartilhar o pão. Então porque não dividir os lucros com a favela de forma a gerar emprego e tecnologia?”, indaga o ex-catador de lixo e atual coordenador do grupo, Reginaldo de Lima.

Filosofia do sucesso

Para o AfroReggae, a filosofia do sucesso é a mistura da cultura, arte e economia, e a transformação da cultura em valor social, capital e dinheiro para a favela. “Todo mundo ganha com as favelas”, relembra Júnior. “Se você perguntar para qualquer estrangeiro o que ele sabe do Brasil, uma das primeiras coisas entre Carnaval e futebol é a favela. Sem dizer que os dois saíram de lá, além de ilustres jogadores. Todo mundo ganha com a favela, menos a favela. Portanto, fazemos com que os protagonistas, que são coadjuvantes neste caso, passem a ser realmente os protagonistas e que também ganhem com isso”, explica.

Outro fator importante que a arte proporcionou, segundo Júnior, se dá na mediação de conflitos. O AfroReggae é um dos poucos grupos que consegue entrar em qualquer favela sem ter problema com ninguém. “Em 2004 nós conseguimos parar por 18 dias a guerra mais antiga do narcotráfico através do espetáculo “Antônio e Cleópatra – Amor em Tempos de Guerra”, dirigida por Heritage, na fronteira entre Vigário Geral e Parada de Lucas. Foi o maior tempo sem guerra e com isso conseguimos tirar muita gente do narcotráfico”, conta Júnior.

Assim como para Reginaldo e Júnior, a arte de alguma forma os escolheu e mostrou que outros caminhos são possíveis fora do crime das ruas, ou da violência de grupos armados. Como disse Jude Kelly no debate: “Nós precisamos no mundo de muitos líderes que ainda não fazem ideia de que são líderes.” Promovendo e estimulando a cidadania para despertar novos talentos, o AfroReggae está colaborando nesse ideal.


 

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