Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Altivez
 
Texto:Rogério Fischer
Ilustração: Edvaldo Jacinto
Abril 2011

Independente da preferência ideológica ou da coloração partidária, não houve brasileiro que no dia 28 de março não rendeu, ainda que silenciosamente, homenagem ao ex-vice-presidente José Alencar, que morreu em São Paulo, aos 79 anos, 14 deles lutando contra um câncer no abdome que não lhe deu trégua: depois de 17 cirurgias e sessões de quimioterapia nos mais avançados centros de tratamento no Brasil e nos EUA, o tumor reagia, crescia, avançava, mais e mais. Alencar nunca se entregou. Enfrentou todo esse período com altivez. Nunca escondeu-se. Sempre tinha uma palavra de otimismo, a cada saída do hospital.

Natural de Muriaé, na divisa pobre com o Rio, tornou-se grande industrial. Presidiu a Federação das Indústrias de Minas, tomou gosto pela política, perdeu a eleição para o governo em 1994, ganhou a corrida para senador em 1998 e, em 2002 e 2006, foi eleito vice-presidente nos dois mandatos de Luiz Inácio da Silva. O homem rico e conservador ajudava o retirante metalúrgico a chegar ao poder.

Exerceu o cargo com firmeza. Tapou buracos nas muitas viagens de Lula ao exterior e chegou a assumir o Ministério da Defesa num momento delicado do primeiro mandato. Reconhecidamente leal, vociferava sem dó contra os altos juros – gostassem disso ou não o presidente do Banco Central, o ministro da Economia ou o próprio presidente. Despediu-se da vida com o respeito de todos.

“Não tenho medo da morte”, disse ele, certa vez, após a enésima internação. “Tenho medo da desonra.” Não é preciso ter nascido em Minas ou ter gostado do governo Lula para admirar Alencar. Exemplos de altivez servem para todos.

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Resquícios de altivez teve a Câmara dos Deputados, que indicará o nome da médica pediatra e sanitarista Zilda Arns para o Prêmio Nobel da Paz. Embora essa indicação devesse ter sido feita ano passado, e só não ocorreu porque a nobre Câmara perdeu o prazo para tal, antes tarde do que nunca. Ainda que de maneira póstuma, Zilda Arns merece esse prêmio.

Catarinense de Forquillhinha, Zilda Arns morreu dia 12 de janeiro de 2010, no Haiti, vítima do terremoto que devastou o país. Em 75 anos de vida, desenvolveu trabalhos que marcaram positivamente a história do Brasil. Fundou a Pastoral da Criança, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Iniciada no Paraná, a Pastoral salvou milhares de crianças da desnutrição.

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Altivez talvez não seja a maior virtude entre a fauna que comanda o Brasil Futebol Clube. O país vive verdadeira ebulição nesta área. Times nacionais, de repente, decidiram repatriar jogadores. Depois do rechonchudo Ronaldo, que brilhou uma temporada e meia no Corinthians e se aposentou depois de ser eliminado na pré-Libertadores por uma mediana equipe colombiana, é a vez de Adriano aportar no Parque São Jorge, ele que teve o contrato rompido pela Roma, após alguns meses com muita festa e gol nenhum.

Aproveitando o fraco nível técnico do Campeonato Carioca, Ronaldinho Gaúcho se esbalda no Rio. Tomou conta do Flamengo, das boates e do Carnaval. O São Paulo promoveu festa cinematográfica para a volta de Luís Fabiano, que deixou a Espanha contundido.

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Enquanto os mais velhinhos e estropiados voltam, os talentos de verdade seguem a velha rotina de mirarem a Europa mesmo que mal tenham deixado as fraldas – esportivamente falando. O Santos faz malabarismos para tentar segurar Neymar e Paulo Henrique Ganso. O São Paulo parece ter aquietado o promissor Lucas. Mas, na mão de empresários, nunca dá pra confiar que teremos esses craques aqui por muito tempo. Para os empresários deles, o que interessa é a transação. É aí que rola o grosso da bufunfa. Jogador com contrato longo e estável não rende.

Para receber Luís Fabiano em um Morumbi praticamente lotado, como dificilmente se vê nos jogos do clube, o São Paulo escalou Rogério Ceni, que no dia 27 de março atingiu a histórica marca de 100 gols – como goleiro! E contra o Corinthians, cobrando falta, numa vitória que derrubou um incômodo – fazia quatro anos que o Tricolor não ganhava do Timão – e ainda tirou o rival da liderança para transferi-la ao Palmeiras.

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E como encontrar algum indício de altivez na briga que parte dos grandes clubes deflagrou contra o Clube dos 13, de olho na negociação direta com a TV. O C13, que nasceu na década de 80 para ser, no Brasil, o que as ligas são em quase todos os países europeus, termina a primeira década do século 21 enfraquecido, à míngua, com a dissidência de Flamengo, Corinthians & Cia Ltda. Um imbróglio que apenas empurra, sabe-se lá para quando, a esperada profissionalização do futebol nacional.

E o presidente da Fifa vai aos microfones para dizer que, a três anos da Copa, o Brasil está mais atrasado, em relação às obras, do que estava a África do Sul. Pura politicagem, pelo fato de Ricardo Teixeira, da CBF, não ter dado a Joseph Blatter mais um apoio para mais uma reeleição. Teixeira reagiu. O ministro dos Esportes, Orlando Silva, que encheu as burras de seu PCdoB, em ano eleitoral, com recursos federais que não saíram do papel, também reagiu. Para eles, está tudo uma maravilha – as obras caminham bem e teremos um grande Mundial. Isso porque a principal cidade do país, candidata a sediar a abertura da festa, tem como indicação, para a cerimônia, um estádio que não existe – em Itaquera. Procurar altivez nessa turma aí é procurar agulha em palheiro.



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