A Universidade de São Paulo - a melhor da América Latina, segundo ranking divulgado pelo Quacquarelli Symonds, instituto britânico especializado em educação – encontra-se conflagrada. Não é apenas a comunidade universitária que vive momentos de intensa agitação, também a opinião pública tem se entregado ao debate que, não raro, resvala para o preconceito, o ressentimento e a hiper sensibilidade ideológica, provenientes dos mais variados espectros políticos. Para que o debate avance, é necessário coragem para superar dogmas de marcada coloração ideológica e ir além do binômio polícia/maconha. (Lembremos que a paixão por dogmas universalistas é o que aproxima o radicalismo de direita e esquerda).
Uma das razões que disparou o imbróglio foi a oposição à presença da polícia no campus, posição liderada pela extrema esquerda estudantil. É absolutamente legítima a contestação aos métodos da Polícia Militar, cujo histórico de truculência é imenso, dentro, mas principalmente fora da universidade. Trata-se de uma polícia criada e educada na ditadura, obsoleta em uma sociedade democrática. Não é, porém, o campus da USP que necessita de outra polícia, mas o estágio civilizatório que a democracia brasileira alcançou que demanda um novo sistema de segurança, cuja atuação seja pautada pelos direitos humanos e pela eficiência policial.
Dito isto, é preciso dizer com coragem que o pleito de uma parte dos estudantes, que não admitem a polícia no campus, é ilegítimo. De acordo com o Estado de Direito, não cabem zonas de privilégios (que ainda marcam a sociedade brasileira). Por isso, é constrangedor que setores estudantis, justamente os que mais fortemente empunham bandeiras igualitárias, pleiteiem privilégios para a cidade universitária. Porque os estudantes da USP, em geral brancos e bem-nascidos, teriam o "direito" de não sofrerem os constrangimentos da polícia paulista, enquanto os jovens em geral, negros e mestiços, que vivem nas favelas próximas ao campus deveriam ser submetidos à arbitrariedade da PM?
O movimento estudantil tem razão em criticar uma polícia que aborda estudantes de modo truculento, uma política viciada em abordar moradores de rua ou apenas pobres de modo humilhante, quando não pratica execuções sumárias. Convenhamos, é francamente ridículo que policiais saiam caçando meninos fumando maconha, enquanto a cidade convive com delitos infinitamente mais graves, inclusive crimes de colarinho branco.
Os problemas de segurança podem e devem ser enfrentados, dentro e fora do campus. Para isso, não é necessário militarizar a universidade, embora a polícia possa e deva atuar, nos marcos da lei, onde e quando for necessário, legítimo e cabível, seja na cidade universitária ou em qualquer outro lugar da urbe. É estranho, porém, que a cidade universitária tenha se tornado um dos lugares mais policiados da cidade de São Paulo. Do mesmo modo que é estranho ter uma universidade de portões fechados aos fins de semana, segregação inaceitável para uma universidade pública.
Mais grave ainda foi a decisão de parte dos estudantes de ocupar prédios administrativos e radicalizar o movimento. Erro tático (agravado ainda mais se considerarmos que a assembleia dos estudantes votou contra a ocupação), que serviu para atiçar a mobilização dos setores mais obscurantistas da sociedade, dentro e fora da universidade, marcadamente setores da imprensa, que se colocam como porta-vozes desses setores. Adjetivações como "playboys", "bebês da USP", "delinquentes mimados" foram recorrentes em editoriais, artigos e blogs, mostrando mais ódio ressentido e ideológico do que crítica legítima aos excessos e equívocos juvenis.
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O equívoco estudantil, cometido por rapazes e moças de vinte anos, ensejou outro equívoco, cometido por senhores bem mais vividos, de quem se esperaria ponderação e responsabilidade pública. A verdadeira operação de guerra ocorrida no dia 8 de novembro, quando a PM fez a reintegração de posse da Reitoria – empregando 400 policiais, helicópteros, carros e cavalos, que resultou na prisão de 73 estudantes – foi um espetáculo grosseiro e desproporcional de força, digno da ditadura militar. Um teatro cujos responsáveis, em última instância, são o Reitor da Universidade de São Paulo e o Governador do Estado. Um espetáculo deprimente, marcado pelo espírito de vingança e a exibição de força, voltado para saciar a fantasia de "ordem" e "pureza" dos setores mais retrógrados de São Paulo, cujo ódio à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas é evidente. Não perdoam que aquela casa tenha dado ao Brasil intelectuais progressistas como Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Florestan Fernandes e Milton Santos. Uma casa que continua a produzir conhecimento crítico fundamental para democratizar a sociedade brasileira, ainda brutalmente desigual, autoritária e atrasada.
Se é necessário coragem para criticar a inconsequência da radicalização estudantil, bem como para criticar a truculência patrocinada pelo Governador e pelo Reitor, no entanto, é preciso ir além: a radicalização autofágica que a universidade vive tem raízes na ilegitimidade da nomeação do atual Reitor. Em 2009, o então Governador de São Paulo, José Serra, ao invés de nomear o primeiro colocado na lista tríplice construída democraticamente pela comunidade universitária, nomeou João Grandino Rodas, o segundo colocado, vinculado ao partido que comanda o Palácio dos Bandeirantes.
Segundo a legislação em vigor, o Governador tem o direito de nomear um dos três indicados pelo processo eleitoral. Porém, desde 1981 – ainda no tempo da ditadura, que teima em não terminar de vez –, os governadores vinham adotando a prática democrática de nomear o primeiro da lista. A violência institucional e política cometida pelo ex-Governador de São Paulo, ao nomear um Reitor que tem se mostrado despreparado, autoritário e inábil no diálogo com a diversidade, está na origem do estado de guerra pelo qual a Universidade de São Paulo tem passado.
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Os estudantes fariam melhor se iniciassem um movimento por outra polícia, para si e a para a sociedade inteira. Aliás, por que o movimento estudantil não coloca no centro de sua agenda política a contestação desse modelo de universidade, excludente e elitista? Por que não reivindicar a duplicação das vagas de graduação, simultaneamente à implantação de cotas sociais e étnicas? Essas bandeiras certamente irritariam à opinião pública conservadora, mas por outro lado, angariariam apoios importantes, como o do movimento negro e dos milhares de estudantes da escola pública. A encarniçada luta contra a polícia facilitou que setores ressentidos, anti-intelectuais e retrógrados jogassem ao vento, com grande aceitação, a tese de que os alunos da USP só querem "fumar maconha". Do outro lado, por que o governo do Estado e a Reitoria, que falam com pompa e circunstâncias em "Estado democrático", ao invés de crivar a cidade universitária de policiais, e invadi-la de modo espetaculoso e desnecessário, não inicia um movimento no sentido de urbanizar o campus, implantando novos cursos e ampliando as vagas disponíveis, o que demandaria mais prédios e novas residências estudantis, criando mecanismos para tornar a universidade mais aberta, mais simpática e mais democrática ao conjunto da sociedade?
Alberto Luiz Schneider graduou-se em História pela UFPR, Mestrado na PUC-SP, Doutorado na Unicamp e pós-doutorado no King's College London. Atualmente é pós-doutorando no Departameno de História da USP