Conto aqui a última parte da longa viagem do veleiro Valhalla, que atravessou 9.000 milhas náuticas entre as Ilhas Virgens britânicas, no Caribe, até a Austrália. Ao todo foram 70 dias no mar, mas para mim um pouco menos, por ocasião de um imprevisto. Nossa última parada antes de chegar ao destino final foi Porto Vila, na ilha de Efate, no arquipélago de Vanuatu. O lugar é o mais populoso do arquipélago, com aproximadamente 50 mil pessoas, foi local de filmagens do programa "Survivor" e recebe milhares de turistas por ano.
Os habitantes são bem diferentes dos lugares por onde passamos, parecendo com os aborígenes da Austrália. Dizem que migraram de Papua Nova Guiné. A agricultura de subsistência é a economia dominante e o mercadão na capital, Porto Vila, fica aberto de segunda a sábado, 24hrs! As pessoas moram em esteiras atrás dos balcões de venda, onde são vendidos todos os tipos de legumes. Vendo-os ali foi como ver as pessoas que moram debaixo das pontes nas grandes cidades.
Uma noite para esquecer
Na primeira noite em Vanuatu aconteceu algo que eu preferiria não contar, pois ninguém se orgulha de um fato como esse. Não é fácil conviver por tanto tempo em um espaco tão pequeno com três pessoas diferentes, seus hábitos, qualidades e defeitos. O Valhalla não foi apenas a nossa casa, mas também o local de trabalho, com tarefas, obrigações e ordens a serem respeitadas. No meio de tanta tensão, stress, adrenalina e emoções, qualquer fagulha podia causar uma explosão.
Depois de tanto tempo no mar, a primeira coisa que se faz quando se chega num porto é procurar um bar. Eu e o capitão começamos a beber logo cedo, enquanto os outros dois tripulantes fizeram a inteligente escolha de comer alguma coisa antes. Acredito que a bebida abre um canal para influências negativas e essa noite estava carregada delas.
Depois de várias cervejas, embriagados, eu e o capitão galês e também meu amigo, Hugh Garside, nos desentendemos e acabamos nos agredindo fisicamente. No fim da madrugada, eu e meu tio, Cláudio, queríamos voltar para o barco, mas Hugh tinha levado o bote. Eu normalmente deixava os mais velhos irem mais cedo de bote e voltava nadando depois. Dessa vez estava com meu tio e ele não nadaria por nada nesse mundo, então decidi pegar o bote no barco. Tirei a roupa e mesmo com ele falando pra eu não pular na água, no escuro, pulei de cabeça! Senti um choque na parte de cima da cabeça, mas continuei nadando. Fui buscar meu tio com o bote, voltamos ao barco e ele me examinou. Era um corte grande e profundo.
No dia seguinte, Cláudio me acompanhou ao único médico do lugar, que era russo e mais parecia um açougueiro. O engraçado é que lá encontramos o capitão Hugh. Estava com pontos na boca e o olho roxo por consequência da briga. Quando eu vi aquilo, senti o peso daquela noite. Também levei alguns pontos na cabeça. Mais tarde fui no lugar onde tinha pulado e vi o quão raso era. O estrago podia ter sido bem pior.
Do veleiro para o avião
Passamos alguns dias em Porto Vila. Eu falava com Hugh normalmente, afinal sabíamos que aquilo fora um descarrego de energia estagnada. Mas na hora de ir embora, quando estávamos zarpando para a Austrália, houve outro desentendimento entre eu e ele. O capitão disse então que não havia condições para eu continuar no barco e que o melhor seria eu ir de avião à Austrália ou algo pior poderia acontecer em alto mar.
Concordei, comprei minha passagem e no dia seguinte viajei. De avião demoraria duas horas para chegar. De veleiro, eles demorariam oito dias.
Foi um pouco surreal passar todo aquele tempo em terra na casa de um amigo, esperando pela tripulação do Valhalla. Eu já tinha terminado minha viagem, estava bem mais relaxado e pronto pra continuar outra etapa da minha vida. Ficava pensando neles lá no meio do mar, provavelmente sonhando com a chegada, em fazer a barba, botar um tênis, comer algo diferente, conhecer pessoas e fazer planos pro futuro.
Fui encontrá-los oito dias depois. Cláudio e Andres contaram que tudo aconteceu na última travessia. Pegaram ventos de 50 nós, a barra que conecta a propela ao motor saiu, deixando um buraco no barco onde entrou água até eles bloquearem com um tampão de madeira; a vela rasgou, Andres perdeu seus dentes da frente, que eram postiços... enfim, estavam exaustos e felizes por finalmente terem chegado ao destino.
Eu
e o capitão não nos falamos na chegada, mas ainda somos amigos fora do mar. Hoje nos comunicamos por email. O Valhalla está em uma marina em Townsville, na Austrália. Agora estou no Brasil, mas logo estarei de volta ao mar levando as pessoas pra conhecerem lugares que sempre sonharam.
Recado final.
Londres é a minha casa. Nos últimos onze anos meus pais viveram batalhando neste lugar que gosto de chamar de "A porta pro mundo". Aí eles me ensinaram que tudo é possivel se você quiser, persistir e trabalhar pra isso honestamente. Desde que fui morar em Londres, a primeira vez com 16 anos, realizei os maiores sonhos da minha vida. Perdi muitas coisas, como passar a juventude perto dos meus amigos no Brasil, mas ao mesmo tempo ganhei muitas outras, como conhecer lugares que sempre sonhei.
Imagino que você também esteja batalhando e correndo atrás de algum sonho, passando por situações que não gostaria de passar em um país estrangeiro. Sonhe alto! Vá em busca, mesmo que pareça impossivel. Insista, persista e não desista, esse é o caminho da conquista.
J A todos desejo a divina Paz, Luz, Força e Proteção.