A decisão de ter um filho gera uma série de mudanças na vida de um casal. Morando fora de seu país de origem, então, inevitável surgir a dúvida: "Devemos ter o filho aqui ou no Brasil?" A resposta envolve uma série de circunstâncias pessoais, profissionais e financeiras. Se a opção for pelo serviço privado, prepare o bolso, tanto aqui quanto no Brasil. A menos que você já tenha um plano de saúde com maternidade incluída.
Escolhendo o serviço público, em que país a mãe se sentirá mais segura para ter a criança? Para responder a essas e outras questões, como a de famílias que mudam para outro país trazendo filhos pequenos, nada melhor do que ouvir depoimentos de quem mais entende do assunto e já viveu a situação. Com a palavra, as mães.
Por que ter o filho no Reino Unido?
Ale Jones
A população da Grã-Bretanha está crescendo duas vezes mais comparada com a de outros países da comunidade europeia. Minha filha, Isabella, nasceu no baby boom (definição genérica para crianças nascidas durante uma explosão populacional). Ter um filho num outro país que não seja o Brasil não é algo fácil de lidar. Quando seus parentes estão longe, o único vínculo afetivo passa a ser o seu marido ou algum amigo brasileiro mais próximo que dividirá a emoção ao longos dos nove meses de gravidez.
Ansiedade, tensão, hormônios a mil... tudo isso faz parte desse universo que eles chamam aqui de motherhood (maternidade). Quando as mamães brasileiras descobrem que estão grávidas no Reino Unido, surgem inúmeras dúvidas. E uma das primeiras é: ter o filho aqui ou retornar ao Brasil e ficar junto dos familiares nesse momento tão importante da minha vida?! Foi assim que começou meus anseios e dessa maneira acabei descobrindo a resposta que tanto esperava.
Os três primeiros meses
Enjoos, vômitos, cheiros estranhos, sono... no meio de tudo isso, a primeira coisa a fazer, após confirmar a sua gravidez através dos testes de farmácia, é marcar com o seu GP (General Practitioner, ou melhor, seu médico geral). Escolha um consultório próximo da sua residência e de preferência que tenha uma ginecologista ou uma médica especializada em saúde de família.
Quando visitar a sua médica, provavelmente ela não pedirá exame de sangue, caso você tenha feito seu teste de farmácia. Ele é considerado 99% seguro. Você poderá ter a opção (em alguns lugares não há possibilidade de optar) de escolher entre dois ou três hospitais onde gostaria de ter seu filho.
Hoje em dia é muito importante verificar as condições de internação dos hospitais no Reino Unido. Nesse momento começam as diferenças com o sistema brasileiro de saúde:
- Não haverá outro atendimento médico entre o primeiro e o terceiro mês de gravidez;
- Caso tenha algum sangramento, o conselho do NHS é ir para a emergência de algum hospital;
- Você será atendida pela midwife (parteira), que revezará as visitas durante a gravidez com a sua médica;
- Você terá direito a dois ultrasound scans (ultrassom) durante toda a gravidez. Em alguns hospitais é possível fazer três;
- Você terá um caderno de anotação que te acompanhará durante toda a gravidez até o dia do labor (parto). O caderno ficará ao final no hospital e não será devolvido;
- O primeiro atendimento será agendado na sua residência ao fim do terceiro mês e a sua midwife (parteira) fará o primeiro atendimento. Normalmente ela ficará com você de duas a três horas.
Uma dica legal: leia tudo com calma, principalmente dentro do envelope que lhe será entregue. Tem muita propaganda de empresas que fornecem free samples (amostra gratuita). Cadastre-se pela internet nos sites de roupas, acessórios para bebês e nos sites de networking (relacionamentos) para encontrar outras mães na mesma situação. Você terá bons descontos, poderá participar de sorteios, ganhar prêmios e tirar dúvidas.
- A partir da confirmação da sua gravidez, você terá direito ao primeiro benefício: Maternity Exemption. Ele vigorará até quando seu filho completar um ano. Você não precisará pagar por remédios e poderá ter atendimento dentário gratuito;
- Você receberá uma carta na sua residência confirmando a data do seu primeiro ultrassom, a ser feito com três meses de gravidez;
- Seu parto será normal, a não ser que sua condição física exija que seja cesariana;
- A amamentação e seus benefícios são muito divulgados por aqui. As midwives irão te convencer que é o melhor para seu filho e você. E realmente é!
- Alguns hospitais pedem comprovação de residência legal no Reino Unido;
- Você terá uma série de atendimentos que eles chamam de Antenatal Appointments. Tente comparecer a todos!
Nesse mar de novidades, você terá a chance ainda de optar entre o Brasil e o Reino Unido para ter seu filho.
Dos três aos seis meses de gravidez
Após o primeiro exame de ultrassom será verificado se o feto tem anormalidades e são checados o tamanho, peso, etc. Caso exista algum problema, o médico discutirá as opções com você, que terá o direito de decidir o que fazer. É hora de conhecer o sexo do bebê! Fui para o Brasil, junto da minha família, para dividir essa alegria com eles. Fiz dois exames durante o mês que estive lá (no Brasil é super comum fazer um ultrassom por mês) e pude definir minha escolha em ter minha filha no Reino Unido.
Essa fase da gravidez é a melhor. Aproveite! Encontre seus amigos, saia, vá ao cinema, mostre o barrigão. Você terá direito a outros benefícios e um deles, garantido a todas, é Health in Pregnancy Grant. O valor a ser recebido é de £190 quando completar 25 semanas. Você deverá preencher o formulário entregue pela midwife e colocar no correio para ter seu direito garantido. Existem outros benefícios. Consulte o seu livro "The Preagnancy Book" no capítulo "Rights and Benefits".
Quando retornei a Londres, fiz meu segundo scan para ver o desenvolvimento da minha filha. No segundo scan, caso queira, você poderá saber o sexo da criança.
Dos seis aos nove meses
Você entrou na reta final. O mais importante nessa etapa é: relaxar e ir às classes preparatórias para o parto. Eles chamam de antenatal classes. São aulas muito bem apresentadas pelas parteiras, sobre procedimento do parto, como amamentar e o pós na gravidez. Você terá a oportunidade de conhecer outras grávidas e inclusive visitar seu hospital. Super legal!
Também poderá fazer o plano sobre onde pretende ter o seu bebê: pode até escolher ter em casa, bem como definir qual será o seu pain relief in labor (método e remédio para evitar a dor de parto). Eu optei pela anestesia epidural e posso garantir: foi uma maravilha!
Ande com o seu caderno de anotações em todos os lugares, pois é ESSENCIAL quando precisar ir para o hospital. Não tenha medo de falar o que sente. Se precisar de fisioterapia, atendimento de psicólogo ou ver um ginecologista, você terá esse direito. Deixe sua malinha preparada com as suas roupas e a do bebê. Compre comidas de microondas, já que não terá tempo de cozinhar pelos próximos dois meses. Lembre-se: prepare-se bem para o momento mais importante da sua vida, pois será INESQUECÍVEL!