O Brasil vem se destacando no cenário econômico mundial, vai sediar os dois maiores eventos esportivos do planeta num espaço de dois anos, a partir de 2014, e culturalmente é uma nação que sempre despertou paixões mundo afora. É nessa onda verde e amarela que a Inffinito vai consolidando o Brazilian Film Festival como um dos eventos brasileiros mais importantes do cenário londrino. Após três edições, o festival ganhou corpo, teve o Bafta, a Academia Britânica de Cinema e Televisão, como parceiro na abertura pela segunda vez consecutiva, e caiu no gosto do público. Em entrevista à Real, a diretora Viviane Spinelli falou sobre o festival de Londres e o trabalho de promover o cinema brasileiro em outras terras.
Real - Após três edições em Londres, qual o balanço que você faz do Brazilian Film Festival?
Viviane Spinelli - A gente começou no Riverside Hammersmith (em 2009) e de lá pra cá o que mais o festival ganhou foi o Bafta. É o segundo ano que eles hospedam o festival, abrindo a mostra. Ano passado a gente teve o mercado, contamos com a presença de Fernando Meirelles, de Lucy Barreto, onde foi discutida a co-produção, de terem leis específicas pro Reino Unido e Brasil. Acho que com essa parceria com o Bafta e a transferência pro Odeon Covent Garden, o festival ganhou em prestígio e localização, atendendo muito mais gente e estando mais acessível ao público.
Real – Em 2011, o público superou as outras edições. Vocês já pensam em ampliar o número de salas de exibição em 2012?
Viviane - Pode ser ou ampliar o número de salas ou ir pra uma sala maior, de 200, 250 lugares. A gente abriu na sala maior e teve uma sala menor durante a semana e viu que ficou gente pra fora. Em Miami temos 40 filmes em média, aqui são 11, quer dizer, a gente pode também expandir mais dias e ter mais filmes.
Real - Falando sobre a seleção de filmes, o europeu gosta mais de produções que narram histórias de vida, dramas. No entanto, a comédia "O Homem do Futuro" abriu o festival. Como é a escolha do filme de abertura?
Viviane - Não sou eu que escolho, são os curadores, entre eles o Paulo Sérgio Almeida, a Iafa Bitz, o Fernando Meirelles, são seis curadores. A gente tenta sempre buscar nos curadores uma seleção eclética, que abranja todos os aspectos da produção,direção, porque aí tem esse olhar de todos os segmentos. Eu acho que a ideia foi um filme moderno, um filme comercial que atraia o público, uma produção impecável da Conspiração, acho que essa foi também a visão dos curadores. A gente também teve no festival filmes autorais, como "Beyond the Road", o drama da Malu (de Martino, diretora), "So Hard to Forget" e "180 graus", que ganhou roteiro e direção em Miami esse ano. Em Miami o festival é competitivo, nos outros festivais que a gente faz só o público escolhe o melhor filme.
Real - Você vê alguma particularidade no festival em Londres, algo diferente de outros países onde vocês promovem o festival?
Viviane – Em Miami a gente tem mais brasileiros do que Nova York, onde temos um público mais americano. A gente está no Tribeca Cinemas, que é uma localização já tradicional de filmes independentes, acho que isso atrai os americanos. A gente tenta buscar uma seleção pra Nova York de um cinema autoral, de arte, mais do que comercial. Pra Miami já é mais comercial e aqui em Londres acho que foi um mix das duas coisas.
Real - Londres seria uma mistura desses dois gêneros de festivais, digamos assim.
Viviane - Sim, é uma mistura desses dois universos. Este ano a gente queria celebrar os 15 anos, em Miami o nosso slogan era "Time to Celebrate". Queremos um cinema brasileiro alegre também, não só aquele esteriótipo de favela, violência, "Tropa de Elite" e "Cidade de Deus". A gente quer mostrar outros gêneros que o Brasil faz tão bem. Comédia é difícil de entender, mas será que não é bom a gente tentar mostrar um pouco do nosso humor, que é muito diferente do humor inglês, do americano? É interessante esse choque cultural e essa tentativa de mostrar uma cultura, a gente está trabalhando isso há quinze anos e está conseguindo. Cada vez mais, mais estrangeiros ficam apaixonados pelo Brasil, querem ir ao Brasil, eu fico até emocionada em falar isso.
Real - Tem algum país ou cidade onde você sente que é mais difícil agradar o público?
Viviane - Não sei se a gente tem um bom marketing, mas todos os festivais são sold out. Em Nova York é um festival que tem duas salas no Tribeca, não é uma sala grande, é de 150 lugares, fica gente pra fora, brigando, a gente faz duas sessões. Isso pode ser uma ideia pra Londres ano que vem. A gente está conseguindo agradar todas as pessoas, pode ter um ou outro que não gostou de "O Homem do Futuro", mas isso é um festival. É como você ver o filme do Almodóvar, você pode gostar ou não. O Wood Allen também, ele faz filmes geniais, às vezes não. O cinema é muito de cada um, não tem uma regra específica, toca de maneira diferente no coração das pessoas.
Real - Vocês fazem o festival em metrópoles, como Londres e Nova York, mas também promovem um festival em Canudos, no interior da Bahia. Conte um pouco deste projeto.
Viviane - Foi um convite do BNDES. No primeiro ano a gente teve só o festival na praça, no segundo ano implementamos as oficinas. A gente fica lá um mês ensinando as crianças da rede pública um pouco de roteiro, figurino, todo o processo de fazer um filme, fotografia, câmera e eles montam um filme. Só desse processo deles estarem em contato com isso, vários estudantes com 17, 18 anos deixaram Canudos e foram tentar trabalho em São Paulo e Rio. Montamos ano passado um cineclube que é tocado por eles, a Globo Filmes doou filmes, porque não tem cinema na cidade. É um trabalho gratificante que está tendo frutos, é lindo o projeto. Estamos levando esse trabalho pras favelas do Rio, no projeto "Cinema da Gente", que acontecerá a partir de outubro em oito UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).
Real - Que novidades você pode adiantar aos leitores da Real para a edição 2012? (Nesse momento, minutos antes do encerramento do festival, a diretora Adriana Dutra se junta à conversa e é quem responde)
Adriana Dutra - A gente ainda não tem nada fechado, mas nos convidaram para fazer uma mostra paralela de filmes latinos. A gente também quer levar o festival para Amsterdã (Holanda). Depois que terminar o festival em Londres, os filmes vão pra Amsterdã.