Olá galera, no mês passado escrevi sobre o começo da viagem que estou fazendo de veleiro do Caribe para a Austrália. Para passar do Oceano Atlântico para o Pacífico existem duas opções: atravessar o Canal do Panamá ou ir até o sul do Chile, passando pelo Estreito de Magalhães e pelo Cabo Horn, onde há bem mais vento e ondas grandes, numa distância de mais de 5.000 milhas, enquanto que o canal só tem 48 milhas náuticas.
Para um veleiro atravessar o Canal do Panamá, que teve a sua construção iniciada em 1880 e foi aberto em 1914, é preciso pagar em torno de U$1.200, dependendo do tamanho. Como há muitos barcos para atravessar, há um tempo de espera. Depois de dez dias, finalmente fomos à ancoragem e para as eclusas. Do Oceano Atlântico você sobe 30 metros até o nível de um lago através de três eclusas (assim como os locks de Londres, que enchem e esvaziam) de 10 metros de altura cada. Depois das eclusas, você vai para o lago passar a noite.
Dali seguimos no canal, que em uma parte se torna o rio Chagres. Depois de quase seis horas chegamos do lado do Pacifico para desta vez baixar mais três eclusas de 10 metros cada uma. Do outro lado, na marina de Balboa, ficamos dois dias nos preparando para a viagem rumo à Baía Naufrágio, em Galápagos, que deveria demorar em torno de seis dias.
Mudança de rota
Saímos no dia 17 de maio, às 17h. No segundo dia tudo estava indo bem, achávamos que tínhamos consertado o motor no Panamá (ar no sistema de combustível). Com o tempo bom no final de tarde, relaxamos e brindamos com rum (coisa que raramente se faz em travessias). Mas sempre quando você pensa que está tudo certo, o mar te pega desprevenido. 
Existe um ditado entre os marinheiros que diz: "Red sky at night sailors delight, red sky in the morning sailors warning!" Depois de alguns copos, olhando para o fim de tarde rosa e as nuvens em forma de peixe listrado que indicam vento bom, previmos que um lindo dia estava por vir. ERRADO! Às 3 da manhã, o vento mudou e entrou uma frente fria. O vento estava vindo bem de frente para onde queríamos seguir, então mudamos de rumo indo para oeste.
Com o motor ligado, dificilmente o barco se movia. Assim levaríamos no mínimo dez dias pra chegar a Galápagos. Depois de algumas horas o motor parou de novo, tivemos que ficar mexendo no motor com o barco balançando e o cheiro de diesel, de ressaca! Ficamos quase três dias dando voltas no mesmo lugar, lutando contra o vento, e fizemos pouco progresso. Mais uma vez a natureza nos mostrou que estamos à sua mercê.
Decidimos mudar de porto e fomos rumo ao sul para o Equador, ali arrumaríamos o motor e seguiríamos em melhores condições para Galápagos. Chegamos na baía de Esmeralda à noite, depois de sete dias no mar, com corpo e mente fatigados.
No dia seguinte, entrando na pequena baía de pescadores, parecíamos extraterrestres chegando em uma nave espacial. Todos nos olhavam com curiosidade. O lugar não tinha estrutura nenhuma para receber barcos e só se via barquinhos de madeira com motor, que os homens usavam para ir pescar a quase 60 milhas da costa, às vezes por três dias!
Por ser uma parada forçada, falamos à Imigração e à Alfândega que só ficaríamos um dia para não pagarmos a taxa de U$100 por pessoa! Assim não pegamos o visto e nos pediram para não sair muito na rua, porque estávamos ilegais. Depois de vários dias no mar seria difícil...
Arrumamos o motor com um mecânico local e fomos direto à praia, onde em todo lugar se ouvia música latina bem alta! Na rua do porto os pescadores chegavam com quilos e quilos de todos os tipos de peixes: dourado, atum, peixe-espada...
Saímos no dia seguinte, todos com uma boa impressão do lugar. Foi uma parada imprevista, numa cidade simples com pessoas humildes que nos receberam de braços abertos. Seguimos rumo a Galápagos, um grupo de ilhas preservadas, com fauna e flora únicas, que embasaram a Teoria da Evolução de Darwin. Deveríamos demorar cinco dias para chegar, se o mar dessa vez nos permitir.
Acompanhe a sequência de nossa viagem na próxima edição da Real.
Paz a todos.
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