Estamos fazendo uma travessia entre o Caribe e a Austrália em um veleiro, o Valhalla, de 43 pés (13 metros). São quatro pessoas a bordo (eu, Cláudio, Andrés e Hughs) e vou contar, nesta e nas próximas edições da Real, um pouco dessa aventura. A distância do percurso é de quase 9 mil milhas náuticas (quase 17 mil km) e a viagem deve durar mais ou menos três meses.
Nossa viagem começou em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, situada no norte do Caribe. Dali saímos em direção ao canal do Panamá, aonde cruzamos do Oceano Atlântico para o Pacífico. Seguiremos depois para Galápagos, Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa (Tahiti, Bora Bora), Ilhas Cook (Raratonga), Melanésia (Fiji, Vanuatu) e, finalmente, Austrália. A rota pode ser modificada ao longo da viagem devido às condições do barco e do tempo.
Chegando ao Caribe
Existe uma grande quantidade de voos da Europa para as Ilhas Virgens Britânicas, normalmente com conexão em Miami ou Porto Rico. Pegando um voo de Londres finalmente cheguei em Tortola, depois de uma longa jornada de aeroportos e esperas. As Ilhas Virgens abrigam um grande número de barcos, principalmente vindos da Europa e Estados Unidos, atraídos por águas mornas e cristalinas (25°C- 29°C) e lindas ancoragens de praias de areias brancas contornadas por palmeiras.
O que também chama a atenção é o estilo tranquilo caribenho. No Caribe, tudo demora no mínimo duas vezes mais para acontecer e é melhor se acostumar com isso. Já estive lá algumas vezes e sempre quando chego sinto essa diferença.
Desta vez achei engraçado a maneira como o taxista dirigia, usando sempre a terceira marcha para passar nas lombadas, que eram muitas, em vez de usar a segunda . Enquanto o carro quase morria, o taxista não mudava a marcha por nada e o carro, num esforço tremendo, ia engasgando e chacoalhando até tomar sua velocidade normal em terceira marcha.
A ilha em geral tem uma energia muito boa, com bares na areia, muito reggae e praias boas para surfe. Outra atração é a famosa Full Moon Party, no Bomba Shack, em Apple Bay, que só acontece em noites de lua cheia.
Rumo ao Panamá
Após preparar o barco por 10 dias, saímos de Tortola em direção ao Panamá no domingo de Páscoa, com esperança de chegar a Puerto Colón em oito dias. Sempre a primeira perna (viagem) de um barco novo é a mais estressante, por você estar conhecendo a embarcação. A viagem foi relativamente tranquila, com as dificuldades usuais esperadas em qualquer travessia. A geladeira quebrou no terceiro dia (o gás estava vazando e os fios mal conectados) e não tínhamos mais comida fresca. Só comíamos enlatados, que aprendi a gostar já faz um tempo, depois de algumas travessias, e bebíamos água e suco em temperatura ambiente.
Depois foi o motor, que resolveu não funcionar mais. Após muito trabalho trocando filtros, tudo cheirando a diesel, conseguimos arrumá-lo, mas não por muito tempo. O vento constante vindo de leste nos ajudou a chegar na entrada do canal do Panamá velejando , com o motor funcionando só na hora final para entrar na marina!
Os perigos de Colón
Ficamos na marina de Shelter Bay, em Colón, por 10 dias esperando para passar o canal. Colón é uma das cidades mais perigosas em que já estive. Os "gringos" são avisados para não andar a pé mesmo que seja um só quarteirão. Se quiser ir ao mercado tem que ser de táxi, a não ser que você queira se arriscar. Sem muito para fazer na marina, resolvemos visitar Isla Grande, a uns 40 km de distância de Colón. Arriscamos pegar um ônibus da estação, mas mudamos de ideia assim que chegamos lá. Um guarda com colete à prova de balas veio nos avisar para tomar cuidado com as mochilas, porque chamávamos a atenção por não parecer panamenhos.
Ele também nos disse que os guardas da região tinham sido avisados da nossa presença e pediu que ficássemos atentos caso fôssemos andando para outro lugar. Decidimos pegar um táxi até a praia de La Guaira, onde atravessamos em um "bote táxi" até Isla Grande. Depois de dois dias de muito sossego na ilha, povoada por alguns poucos pescadores, voltamos pra Shelter Bay, desta vez de ônibus. Sem o risco de sermos assaltados, por pegar um ônibus com pouca gente e por ser bem cedo (um taxista nos disse que Colón dorme de dia e acorda à noite).
Chegando na marina esperamos mais dois dias para atravessar o canal do Panamá. No momento já o atravessamos e estamos saindo hoje, dia 17 de maio, rumo a Wreck Bay, nas Ilhas Galápagos . Um grande abraço a todos e até a próxima edição. Paz e proteção.
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