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Capoeira, um estilo de vida
A "arte-luta-dança" ganha mais adeptos a cada dia e vira uma marca registrada da cultura brasileira no exterior
Bete Kiskissian e Régis Querino
Junho 2011

Uns a chamam de arte, outros de luta, e há quem diga que ela é uma dança. Mas para os seus adeptos, a capoeira é muito mais do que isso, ela é um estilo de vida. Por ser assim tão eclética e contar com tanta musicalidade e diversidade de movimentos, a capoeira carrega em si o poder de romper barreiras culturais e se tornar um movimento universal que atrai adeptos e simpatizantes de todas as idades.

Para desvendar o mundo fascinante dessa "arte-luta-dança", que também tem uma forte presença no Reino Unido e na Irlanda, com dezenas de escolas, a Real conversou com mestres, instrutores e alunos e revela nesta matéria especial porque tantos brasileiros e gringos têm se rendido cada vez mais ao som do berimbau e adotado a capoeira como estilo de vida.

Estilos e conceitos

O estilo mais antigo, originado na época da escravidão no Brasil, é a capoeira Angola. O mestre Pastinha, baiano de Salvador, é considerado o maior expoente da capoeira Angola, que tem no ritmo musical lento, nos golpes jogados mais baixos (próximos ao solo) e na malícia as suas principais características.
O estilo Regional, criado pelo mestre Bimba, também de Salvador, caracteriza-se pela mistura da malícia da capoeira Angola com o jogo rápido de movimentos, ao som do berimbau. Há ainda uma terceira corrente, chamada de contemporânea, que mistura um pouco dos dois estilos.
Apesar das diferenças conceituais, a definição da capoeira é mais complexa na visão de alguns mestres. "Não se deve reduzir a diferença entre os estilos somente pela estética, ou pelo conteúdo e forma. Capoeira não pode ser definida ou explicada em apenas uma sentença", decreta Carlo Alexandre, o mestre Carlão, 45 anos, do grupo Kabula Capoeira Angola e Percussão, fundado em Londres em 2004.
"Definir a capoeira simplesmente como uma coisa ou outra é o mesmo que matá-la", concorda a mestre Silvia Regina Menezes Bazzarelli, há 24 anos em Londres e membro da London School of Capoeira Herança. Fundada em 1988, a LSC é a mais antiga escola de capoeira no Reino Unido.
"Quando comecei, as pessoas nem tinham ideia do que era a capoeira. Para fazer uma demostração ou palestra com um grupo pequeno de alunos novatos era mais complicado, mas ao mesmo tempo desafiante", relembra mestre Silvia.
Se hoje a capoeira é uma marca registrada da presença brasileira em Londres, há, na visão da mestre, um aspecto negativo. "Não são todos que se preocupam com a capoeira de uma forma correta e simplesmente a usam como uma forma de ganhar dinheiro a prazo curto, sem uma boa estrutura", critica.

Legião de gringos

A disseminação da capoeira em Londres pode ser constatada numa rápida pesquisa na internet. São dezenas de escolas espalhadas por todas as regiões da cidade, fato que tem atraído uma legião de estrangeiros à prática. "A capoeira é um grande veículo de comunicação global, em todos os sentidos", acredita Giovani Alexandre da Silva, o Pequeno Mestre, 29 anos, da Capoeira Bimba. "Eu arriscaria dizendo que o ser humano gosta de capoeira porque ela o conecta com ele mesmo e com o outro", completa mestre Carlão.

A pluralidade proporcionada pela capoeira é a resposta ao crescente interesse dos estrangeiros pela prática, na visão da mestre Silvia. "A capoeira unifica e não separa. É uma atividade física, rítmica, social e emocional. Aonde encontraremos todas essas qualidades em uma atividade só?", destaca.

É essa amplitude da capoeira, que mescla elementos físicos, sociais e emocionais, que conquista cada vez mais adeptos. "Eles (os estrangeiros) iniciam porque querem manter a forma, perder peso, mas descobrem a cultura brasileira, fazem amizade, aprendem a cantar em português, perdem suas inibições quando jogam dentro da roda", constata mestre Silvia.

Esse espírito de comunidade, implícito nas rodas e batizados, é uma das características mais marcantes da capoeira. "Numa cidade como Londres, onde todos são anônimos, fazer capoeira é criar uma comunidade social, onde pessoas de todos os lugares se encontram para fazer amizade", ressalta Wilton Rocha, o Mestre Caboclin, 37 anos, da Capoeira Ceará.

Ensinando e mudando vidas

Se a interação entre povos de diferentes culturas encontra espaço no meio de uma roda de capoeira, a prática da "arte-luta-dança" também ensina desde cedo. "O maior benefício (da capoeira) para as crianças é o respeito pelo próximo, isso faz com quer essa criança possa estar sempre ligada à união, companheirismo. É o auxílio na educação que a capoeira propôs para elas", relata Pequeno Mestre. 
E assim como ensina, a capoeira também pode mudar o rumo de uma vida. "Meu pai me levou a uma academia de capoeira quando percebeu que eu estava andando muito pelas ruas de Belo Horizonte, sem tirar um bom proveito do meu tempo e juventude. Além do óbvio que é saúde física, mental e social, os outros benefícios que a capoeira me traz não podem ser colocados em palavras, só eu e Deus sabemos. Capoeira é estilo de vida", conclui Raphael Daniel Moreira, 22 anos, aluno da Capoeira Ceará.

Nota do editor
Como o número de escolas de capoeira em Londres é grande, a Real fez contato com as que desenvolvem as suas atividades há mais tempo. Além das citadas na matéria, outras escolas foram convidadas a participar, mas não retornaram o contato. O universo de opções para a prática da capoeira na cidade é amplo e basta checar na internet para encontrar várias outras escolas. Abaixo, os sites das escolas que colaboraram com a matéria:
www.capoeirabimba.com
www.capoeira-ceara.co.uk
www.kabula.org
www.londonschoolofcapoeira.com


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