Entro na sala de exibição, no Soho Screening Rooms, por alguma razão, meio tensa. Talvez pelo que tenha lido a respeito do documentário do diretor Asif Kapadia, forte e comovente. Vários dos jornalistas presentes devem ter acompanhado de perto a carreira do tricampeão de F1 (1988, 1990 e 1991), Ayrton Senna, ou mesmo o entrevistado, penso.
O brilhante trabalho de edição revela - graças ao quase que ilimitado acesso das equipes de filmagem aos bastidores da Fórmula 1 da época - cenas inéditas que corroboram à já consensual imagem mundial de genialidade e de carisma do piloto brasileiro.
Retratos da rivalidade com Alain Prost na equipe Mc Laren, suas glórias, heroísmos e decepções com a Federação Internacional do Automóvel (FIA) e com o seu arrogante e ditatorial presidente, Jean-Marie Balestre, são primorosamente pespontados por comentários de Richard Williams, do Guardian, e de Reginaldo Leme, comentarista da TV Globo.
Mas são mesmo as cenas de vitória (41 na carreira), acompanhadas pela narração de Galvão Bueno, os depoimentos da irmã do piloto, Viviane Senna, e as cenas familiares que conferem ao documentário o lado mais envolvente e emocionante.
A plateia demonstra indignação diante de momentos de visível anuência de Alain Prost em proteger a sua mediocridade com as absurdas normas da FIA. E ri de frases chocantes de Balestre, como "A melhor decisão é a minha decisão", e das 'tiradas' de Senna. São perceptíveis as demonstrações de respeito, quase que de devoção por parte do público ao piloto brasileiro.
A minha tensão e, acredito, também a da maioria do público, vai aumentando à medida em que o fatídico ano de 1994 se aproxima na narrativa. As risadas vão sendo substituídas por um horrível silêncio. É o prenúncio do desfecho sombrio que está prestes a se desenrolar.
Não consigo segurar as lágrimas quando o piloto austríaco Roland Ratzenberger comenta com um colega o quanto estava desconfortável com o seu equipamento de bordo (Simtek/Simulation Technology) e que estava tendo que lutar para controlar o carro no circuito de San Marino. Em uma quase profecia da tragédia que o faria vítima, no dia 30 de abril de 1994.
Após a morte de Ratzenberger, Senna demonstra não só tristeza, mas um semblante pesado. Isso horas antes do seu próprio destino ser traçado na curva Tamburello, no dia 1° de maio. Recorro à minha bolsa, procurando por lenços de papel. Um inevitável pensamento vem à mente: 'Estaria ele intuindo qual seria seu próprio destino?'
As cenas do acidente, do funeral e da multidão de fãs aos prantos pela morte do ídolo, apesar de já muito conhecidas, não deixam de causar um fortíssimo impacto. O documentário da Universal não é só excelente. É imperdível.
Em sua vida extremamente curta, Senna não deixou sua marca apenas no mundo esportivo. Em 34 anos, influenciou positivamente a vida de muitas pessoas, seja como ídolo ou através de suas ações sociais, cujo legado foi deixado pela Fundação Ayrton Senna. Ironicamente, o seu maior rival nas pistas, Alain Prost, é hoje membro do conselho da fundação.
Senna
Documentário (2010), 106 min
Diretor: Asif Kapadia
Com: Ayrton Senna, Alain Prost, Frank Williams
Lançamento: 3 de junho no Reino Unido